Hits como "Despacito" e "Paradinha" modernizam arraiás

Concorridas entre os jovens, festas juninas e julinas ganham pegada cool, modelitos estilosos e barriguinhas de fora
terça-feira, 20 de junho de 2017
por Dayane Emrich
Foto de capa

Olha a cobra! É mentira! O mês de junho já chegou e, além de trazer a estação mais fria do ano, abre a temporada dos arraiás. Nesta época, bandeirinhas de diversas cores, fogueiras de todos os tamanhos e delícias como quentão e milho cozido viram atração e ajudam a compor o cenário de uma das mais tradicionais manifestações da cultura brasileira: as quadrilhas. Não as de Brasília, é claro.

Implantada no Brasil pelos portugueses durante a colonização, as festas juninas já fazem  parte do calendário de atividades de escolas públicas e privadas, clubes, estabelecimentos comerciais, associações de moradores, igrejas, condomínios e até famílias e grupos de amigos.

Mas, com a necessidade de cativar os jovens para a perpetuação da essência dessa tradição, muitas das festas juninas e julinas existentes, especialmente em escolas, ganharam nova roupagem. Ainda que inspirados na moda caipira, os arraiás inevitavelmente vêm incorporando músicas, estilos e  cardápios modernos.

Uma das principais mudanças do festejo trata-se da inclusão de novos estilos musicais. Historicamente dançadas ao som de forró pé de serra, xote, xaxado ou embaladas pelas canções do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, as quadrilhas sempre incluíram passos como balancê, caminho da roça, caracol, cumprimento de damas e cavalheiros, cestinha de flor, túnel e a grande roda. Nos últimos anos, porém, foram acrescentados sucessos do universo do sertanejo universitário, e o mais recente “feminejo”, passando pelos funks e axés, até os hits do pop nacional e internacional.

Nesse novo modelo, as quadrilhas passaram a ser ainda mais coreografadas e intercalam os passos já conhecidos e tradicionais da dança com movimentos rápidos e modernos. A música latino-americana “Despacito” e a nova canção de Anita, “Paradinha”, por exemplo, são algumas das melodias que prometem tomar conta das seleções de hits das festas neste ano.

Outra transformação foram as roupas. Se antes os trajes das festas juninas e julinas era sinônimo de cafonice, agora, eles são chamados de “caipira chique”. As calças remendadas, camisas quadriculadas, chapéus de palha, bigodes, cavanhaques e dentes pintados não perderam a vez, mas ganharam uma nova aparência. Além das calças um pouco mais apertadas, os homens têm apostado em botas e chapéus mais estilosos.

Para os mais antenados, a tendência do lumbersexual -- homens barbudos e viris, no estilo lenhador -- é a principal aposta. Roupas de couro, jeans sem muita lavagem, lã, camisas xadrez combinadas com sobreposições e o detalhe das flanelas, além das barbas espessas, formam looks autênticos. E, para ajudar a compor o visual, as botas e os tênis rústicos fazem toda a diferença. As cores ficam entre o azul, preto, marrom, cinza e o grafite, com detalhes em vermelho, caramelo e mostarda.

Já as mulheres têm arriscado no estilo caipira sexy. Os tradicionais vestidos floridos e cheios de babados ficaram mais justos e curtos. Os croppeds, combinados às saias rodadas e aos pompons no cabelo, além das rendas e transparências, são também alguns dos principais estilos do momento, que deixam barriguinhas à mostra. Há ainda as quadrilhas no estilo country, onde a mulherada aposta em camisas xadrez amarradas na cintura, calças jeans bem apertadas, franjas e botas de couro.

Festa de roça, comida de cidade

Em relação ao cardápio, as comidas à base de milho, como pamonha, bolo, cuscuz e canjica; e aquelas cujo principal ingrediente é o amendoim, como pé de moleque e paçoca, por exemplo, continuam sendo protagonistas da festa. Somam-se a elas, ainda, o tradicional arroz doce, a maçã do amor, cocada, doce de abóbora, quindim e os churrasquinhos. Entre as bebidas, o famoso quentão, o vinho e chocolate quente são os mais comuns.

Em Nova Friburgo e suas redondezas, entretanto, alguns petiscos e guloseimas foram incluídos na lista dos arraiás. O caldo verde, feito com batatas, bacon, linguiças e couve, embora não faça parte da origem dos festejos desta época, foi incorporado à lista de iguarias das festas dos meses de junho e julho. Em arraiás mais elaborados, é possível encontrar ainda escondidinhos de carne seca e mandioca, torta salgada, pão de queijo, crepes e, entre os doces, cupcakes, palha italiana, fondue de frutas e churros.

Caipiras online

E o que dizer da invasão das novas tecnologias? Por conta da expansão da web, grande parte dos eventos passou a ser combinada pelo Facebook e grupos do aplicativo WhatsApp. Além de prática, a novidade ajuda a divulgar as festas para um número maior de pessoas, juntamente com a sua programação. Algumas quadrilhas incluem passos que fazem referência às selfies. Isso sem falar dos milhares de vídeos e fotos feitos durante a brincadeira. Afinal, em tempos de Instagram, Facebook, Snapchat e Twitter, além da diversão, é importante garantir “likes” e quem sabe, ganhar novos seguidores.  

Festas clássicas

Embora sejam comemoradas em diversas instituições públicas e privadas, as festas juninas têm origem religiosa. Elas surgiram em função das festividades da Igreja Católica no mês de junho, em homenagem a três santos: Antônio, no dia 13, São João, 24, e  Pedro e Paulo, no dia 29.     

Ao longo dos anos, elas foram difundidas em todo o território brasileiro. Mas foi na Região Nordeste que elas adquiriram maior destaque cultural. Uma das maiores festas, realizada desde 1983, é a de Campina Grande, no agreste da Paraíba. Lá os festejos duram o mês inteiro e há centenas de atrações.

Em São João do Caruaru, em Pernambuco, a animação também é intensa. Durante os meses de junho e julho acontecem centenas de shows, quadrilhas com milhares de pessoas, forrós, festival de comidas gigantes e desfiles. Nessa região, as comemorações incluem também concursos para eleger os melhores grupos que dançam a quadrilha.

É exatamente por conta da enorme movimentação em todo o país que as festas juninas podem ser consideradas, depois do carnaval, uma das maiores festas brasileiras. As celebrações caíram tanto no gosto popular que foram inventadas as festas julinas, agostinas e até mesmo setembrinas, como forma de esticar os festejos ao longo dos meses e aproveitar um pouco mais da folia caipira.

Sendo assim, seja para celebrar a prosperidade da terra, para comemorar os dias santos da Igreja Católica, provar dos pratos típicos ou apenas festejar entre amigos e família, os arraiás são sempre uma ótima opção de diversão. E para não passar o período sem desfrutar da brincadeira, a gente criou um mapa com alguns dos arraiás que acontecem na cidade nos próximos dias. Vale a pena conferir!

Tradicional Festa da Vila Mozer chega à 23ª edição

Todos os anos, desde 1994, a família Mozer se mobiliza para realizar uma das maiores festa julinas da região. Trata-se do Arraiá da Vila Mozer. O evento começou como uma reunião familiar, cresceu, virou atração turística e, atualmente, atrai milhares de visitantes ao pequeno distrito de Lumiar, em Nova Friburgo. Este ano, a festa, que está em sua 23ª edição, acontecerá no dia 29 de julho, às 18h e, como manda a tradição, será regada a música boa, dança e comida farta.

Entre as atrações, a Festa da Vila Mozer conta com apresentações de grupos de forró e barraquinhas de comidas típicas. Bercília Mozer de Morais, uma das responsáveis pelo evento, conta que o encontro, já famoso na cidade, é aberto a todo o público. “A festa começa às 16h, com oração e a canção da família. Depois, segue com a apresentação dos Meninos da Vila, dos Sanfoneiros da Serra e outros artistas locais”, conta ela.

A preparação para o evento começa um mês antes. No cardápio, cachorro-quente, churrasquinho e caldos diversos são algumas das iguarias presentes. Entre os doces, bolos variados, canjica, pamonha, cocada, cuscuz, quindim, mousses, pé de moleque, queijadinha, paçoca, doce de abóbora e muitos outros podem ser encontrados.

“A barraca de doces é uma das grandes atrações da festa. Tem guloseimas de todos os tipos. É difícil até de escolher o que comer com tanta coisa boa”, conta ela explicando que “Tudo é feito com a ajuda dos meus netos, filhos, noras, genros, primos e por aí vai. São 86 pessoas envolvidas”. Há também barraca de vinhos e de jogos para crianças, como a pescaria e a boca do palhaço. Os preços variam de R$ 5 a R$ 20.

As belas paisagens e o clima ameno de Lumiar nesta época do ano são mais um atrativo para as centenas de visitantes. Além de turistas de várias cidades do Rio de Janeiro, pessoas de outros estados costumam vir à cidade especialmente para prestigiar o evento. “Vem gente da capital, de Niterói e dos municípios vizinhos como Bom Jardim, Cordeiro e Petrópolis e até de São Paulo. As pousadas ficam cheias”, diz Bercília.

A broa

Um dos grandes destaques do arraiá é a disputada broa, uma receita tradicional da família Mozer, que pode ser acompanhada por geleias ou cremes. Ela começa a ser preparada uma semana antes do início do evento e chega a mais de mil unidades comercializadas. A matriarca Bercília Mozer foi quem trouxe a tradição, herdada dos antepassados suíços, em 1964 para a cidade. A broa era consumida no café da manhã, servido de madrugada e também no lanche da tarde.

Na receita ela destaca que não há segredos, além de muito amor. “Essa broa leva batata doce, inhame, aipim, cará, chuchu e abóbora, além de fermento açúcar, manteiga, e óleo. Tudo é feito de forma caseira e a moda antiga, em forno de lenha, o que faz toda a diferença”, diz.

A origem da festa

Apesar de o carnaval pouco ter em comum com as festas julinas, para a família Mozer as duas celebrações estão diretamente ligadas. Bercília conta que tudo começou com o seu pai, Astrogildo. “Somos 12 irmãos. Quando éramos crianças, queríamos pular carnaval no Centro da cidade, mas, apesar de meu pai ser um homem muito alegre e adorar festas, ele achava muito perigoso. Por isso, resolveu criar o nosso próprio bloco de folia, aqui mesmo, em Lumiar”.

Ela conta que, mesmo com pouco dinheiro, o pai comprava papel crepom e laminado para produzir as fantasias e adereços. Quando chovia, tudo desmanchava. “Com o objetivo de arrecadar fundos para o carnaval, ele resolveu fazer uma outra festa, que, por sinal, deu muito certo. Com o dinheiro do primeiro evento ele comprou parte da nossa bateria. No ano seguinte completou os instrumentos até, depois de mais algumas edições, conseguir comprar um som”.

Astrogildo faleceu pouco tempo depois, mas os familiares continuar com a festa de julho para, consequentemente, manter o bloco na rua em fevereiro. “Somos muito unidos. Todo o dinheiro arrecadado vai para uma conta e tudo o que precisamos para fazer um carnaval bonito, como nossas fantasias, camisas, adereços e instrumentos, é obtido com essa verba”, afirma ela.

 

O ROTEIRO DOS ARRAIÁS:

24 de junho: Arraiá da Missão Peixes, às 15h, no Centro de Assistência Social e Amor (Casa), na Rua Roberto Martins, 82, Cordoeira.

1º de julho: Quadrilha  do Sampaio, às 19h30, na Rua Sete de Setembro em Lumiar.

2 de julho: Festa julina da Corrente do Amor, às 14h, na Clínica Santa Lúcia, situada na Avenida Presidente João Goulart, Debossan. Mais informações pelo telefone: (22) 2542-1172

14 de julho: Arraiá do Teleférico, às 13h, no Teleférico de Nova Friburgo.

15 de julho: 5º Arraiá do Rosário, às 18h, e domingo, 16, às 14h, em Riograndina.

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