Guillaume Isnard: hoje não é dia de rock

"O roque cedeu lugar a subgêneros da música regional e do samba, fusões, diluições e imposturas no gosto juvenil. Ou o roqueiro encaretou ou são tempos difíceis para o roque"
quinta-feira, 13 de julho de 2017
por Guillaume Isnard
Foto de capa

 

A mistura de blues, country e rhythm and blues batizada de “rock and roll” pelo DJ Alan Freed vai fazer 70 anos, mas no Dia Mundial do Rock temos pouco a comemorar.

Foi nos meus anos no Colégio Nova Friburgo/FGV que conheci o rock inglês. O refrão hipnótico de “Hello, Goodbye”, dos Beatles, me fisgou em 1968, aos 10 anos de idade. Em 71, deitava no chão com uma caixa de som em cada orelha para ouvir “Perl”, da Janis Joplin. Minha mãe abria a porta espantada e repetia infrutiferamente: “Abaixa isso, meu filho, se não você fica surdo!”. Não fiquei.

Na turma do ginásio no Colégio Rio de Janeiro estudei com Cláudio Nucci, Zé Renato e Lobão, com quem montei a primeira banda de roque, batizada por ele de “Grêmio Recreativo Nádegas Devagar”. E nunca mais parei. Só não sonhava seguir carreira ou fazer sucesso, enquanto tocava nas fogueiras de Geribá com Angela Ro Ro, Hyldon, Sérgio Magrão e outros.

Na adolescência, decorava nomes dos músicos e dados curiosos sobre as bandas, o que me dava o status de um surfista junto às meninas. Ia a todos os shows: assisti Vimana do Lobão e Lulu Santos na Visconde de Pirajá, Soma e Os Mutantes no MAM, sem falar no The Bubbles e nos Brazilian Beatles nas domingueiras do Monte Líbano e no meu primeiro festival, o Hollywood Rock, em 1975, no Botafogo do Mourisco.

Foram quatro sábados de shows e eu só tinha ingresso para dois. Pulei o muro para entrar nos outros e corri dos seguranças. Quase fui esmagado no show de Rita Lee & Tutti Frutti num dia e assisti ao show mais fenomenal do Raul Seixas no outro. Penetrava em shows e afanava discos que não podia comprar. É vergonhoso, mas verdadeiro.

Por amor ao rock, quase virei um delinquente juvenil.

Muito antes do shoplifting ser praticado por estrelas como Winona Rider, Britney Spears e o rabino Henry Sobel, eu saía da loja de discos do Waltinho Guimarães - onde costumava matar aulas chatas de OSPB ou EMC - apaixonado pelas novidades e corria para a Sears da praia de Botafogo. Minha “técnica” era pegar vários LPs para audição na cabine, colocar o que desejava dentro da capa de outro e devolver a capa vazia. Pagava por um disco e levava dois. O aumento da discoteca logo despertou a atenção dos meus pais e rendeu uma bela surra, um longo castigo e o abandono da vida de “crimes”.

A minha geração realizou proezas impensáveis: apesar das dificuldades do português paroxítono, conseguimos nos expressar através do humor, da contestação política e de questionamentos filosóficos e existenciais ao criarmos uma estética poética adaptada ao ritmo importado. Além disso, invertemos o paradigma de execução radiofônica que contemplava os artistas nacionais com 20% da programação, ao ocuparmos 80% do dial e transformarmos o roque brasileiro na MPB dos anos ‘80s.

Mas o que nos parecia ser a maior conquista, um padrão de cultura popular onde as canções de conteúdo profundo, motivador e transformador fossem regra e não exceção, caiu por terra. Vivemos hoje o momento de maior empobrecimento da música popular brasileira.

Com o fim da ditadura e chegada das novas liberdades e liberalidades, o roque cedeu lugar a subgêneros da música regional e do samba, fusões, diluições e imposturas no gosto juvenil. As preferências agora recaem sobre o pagode, o sertanejo universitário e o polêmico fank (grafado com A mesmo, porque Funk é coisa séria), que corre risco de censura.

A nova música jovem, exceto poucas, tem letras pobres sobre assuntos superficiais e eventualmente degradantes, machistas e que estimulam maus hábitos. Não importa o ritmo ou a melodia, o tema é sempre pegação, balada e bebida. É triste a realidade que vivemos.

Das duas uma: ou o roqueiro encaretou ou são tempos difíceis para o roque.

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