Friburgo tem o maior número de casos de violência contra a mulher da Região Serrana

Dossiê foi divulgado recentemente pelo Instituto de Segurança Pública; presença de Deam no município estimula denúncias, afirma delegada
sábado, 12 de agosto de 2017
por Karine Knust
Foto de capa

No início da última semana, o Instituto de Segurança Pública divulgou o Dossiê da Mulher referente a 2016. De acordo com o levantamento, que reúne dados relativos a registros de casos de violência contra a mulher nas delegacias do estado, só em Nova Friburgo foram contabilizados 2.282 crimes.

Em relação a 2015, quando foram registrados 2.809 atos de violência, é possível notar uma considerável queda. Mas as informações veiculadas na última segunda-feira, 7, ainda chamam a atenção. Isso porque, de acordo com o dossiê, Nova Friburgo está no topo do ranking dos municípios da Região Serrana com maior número de casos registrados em 2016.

Enquanto a cidade tem cerca de 185 mil habitantes (segundo o IBGE) e pouco mais de 2.280 casos, os municípios de Petrópolis - com 298 mil habitantes - e Teresópolis - com 174 mil - registraram, no mesmo período, 2.246 e 1.960 ocorrências, respectivamente. De acordo com a delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Danielle de Barros, essa diferença pode estar diretamente relacionada à presença de uma Deam no município.

“Poucas cidades no interior do estado possuem uma delegacia especializada no atendimento à mulher. Nova Friburgo, por exemplo, é a única da Região Serrana a contar com esse diferencial. O fato de ter uma Deam no município contribui e muito para o aumento no número de denúncias de violência. Com um canal específico e exclusivo para elas, as mulheres se sentem mais confiantes e acolhidas para denunciar”, afirma Danielle.

O inimigo mora em casa

O inimigo pode estar mais perto do que se imagina. De acordo com o dossiê, mais de 50% dos casos de violência registrados em 2016 aconteceram no local que deveria ser o mais seguro para qualquer pessoa: a sua própria casa. Ainda segundo o levantamento, dentre os agressores, 39,2% eram ex ou atuais companheiros das vítimas.

E engana-se quem pensa que a agressão física é o único ato de violência cometido contra elas. Dos 2.282 registros do último ano, 37,3% eram relativos a violência psicológica; 28, 4% a violência moral e 28% violência física.

Dentre os maiores delitos cometidos estão ameaça, lesão corporal dolosa e injúria, com 843, 628 e 561 ocorrências registradas, respectivamente. Ainda em 2016, foram 43 casos de estupro - dois a mais que em 2015; seis tentativas e um homicídio; e outras duas tentativas e um feminicídio.

“O criminoso que mais vemos é aquele namorado, marido, companheiro que tem uma relação de afeto com a vítima, mas que em determinado momento se transforma em um agressor”, confirma a delegada Danielle.

Bastante completo, o dossiê divulgado pelo ISP ainda revela o período com maior incidência de denúncias. De acordo com o levantamento, em 2016, os primeiros três meses do ano foram os que registraram o maior número de casos, 704 no total. Cada um deles obteve mais de 220 ocorrências de atos de violência contra a mulher, uma média superior a 7 casos por dia. A maioria deles aconteceu durante a tarde e à noite, 34,7% e 30,1%, respectivamente.

Raio X da vítima

Segundo os dados oficiais, 56,2% das vítimas de violência em Nova Friburgo têm entre 30 e 59 anos. Quanto a cor, 71,4% das mulheres são brancas. Já no que diz respeito ao estado civil, 48% delas são solteiras. E quanto à escolaridade, 33,7% possuem ensino fundamental incompleto.

A  violência no estado

O Dossiê Mulher 2017 mostra que as mulheres continuam sendo as maiores vítimas dos crimes de estupro (85,3%), ameaça (65,4%), lesão corporal dolosa (63,8%), assédio sexual (93,3%) e importunação ofensiva ao pudor (91%). No levantamento que contabiliza as ocorrências de 2016, em todo o estado foram registrados 132.607 mil casos de violência contra a mulher. A maioria deles (44.693) são crimes de lesão corporal.

Ainda segundo o dossiê, em todo o estado do Rio de Janeiro, pais, padrastos, parentes, conhecidos, amigos e vizinhos foram acusados de 37% dos estupros de vulneráveis registrados em 2016. Mais de 60% dos estupros e dos crimes de lesão corporal dolosa contra as mulheres ocorreram no interior da residência no ano passado, assim como 40% das tentativas de homicídio de mulheres.

É preciso falar

Apesar dos números serem altos e bastante alarmantes, eles ainda podem estar bem longe da realidade. Isso porque, em muitos casos de violência, a denúncia não acontece, seja por falta de conhecimento, medo ou fé de que a situação e o agressor podem mudar. Mas, para dar um basta à violência, a melhor opção é falar.

“A mulher precisa ter consciência de que não é normal sofrer violência. Não é porque uma avó, mãe ou qualquer outra parente já passou por isso que a pessoa deve aceitar abusos. Violência não faz parte de uma relação saudável, isso é crime, precisa ser denunciado. A vítima não é obrigada a permanecer em uma relação abusiva. Um ato de violência pode acontecer com qualquer uma, mas permanecer nessa situação é uma escolha”, afirma a delegada Danielle de Barros, acrescentando que “não é preciso ter medo de denunciar, a Deam dispõe de aparatos para atender a vítima com toda a atenção e conforto necessários. Temos medidas protetivas para manter a segurança dessas mulheres”.

As denúncias de violência também podem ser feitas através do telefone. Basta ligar para o número da Deam de Nova Friburgo (22) 2533-1852. Ainda é possível entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher (180) - serviço gratuito que funciona 24 horas por dia (inclusive fins de semana) ou pelo Disque Direitos Humanos, o Disque 100.

Nesta edição do Dossiê Mulher, foram analisados os principais delitos sofridos pelas mulheres: homicídio doloso, tentativa de homicídio, lesão corporal dolosa, ameaça, estupro, tentativa de estupro, assédio sexual, importunação ofensiva ao pudor, dano, violação de domicílio, supressão de documento, constrangimento ilegal, calúnia, difamação e injúria. Para ter acesso ao levantamento completo, basta acessar o site do Instituto de Segurança Pública (http://www.isp.rj.gov.br) ou a página do dossiê no Facebook.

 

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