Friburgo diz adeus a Chiminga, um artista nos gramados e nas oficinas

Carlos Erick Kramer parte aos 85. Outra perda é o sr. Otávio Souza, antigo funcionário da Tozzoni
domingo, 10 de junho de 2018
por Vinicius Gastin (esportes@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
Carlos Erick Kramer, o Chiminga

Com os pés ou as mãos, a mesma genialidade. A capacidade de encantar dentro dos campos e a criatividade para idealizar e fabricar brinquedos fizeram de Chiminga um personagem único em Nova Friburgo. Contudo, na ordem natural da vida, até mesmo quem é eterno possui um tempo determinado, e nesta sexta-feira, 8, a cidade se despediu dessa figura doce, simpática e elegante. Seja no trato com a bola, com os objetos ou pessoas. Aos 85 anos, Carlos Erick Kramer deixará saudades, além do legado de conseguir desenvolver, como poucos, a arte nas mais variadas formas.

Friburguense, Chiminga nasceu em 23 outubro de 1932, data com a qual costumava brincar, pelo fato de Pelé ter nascido na mesma, dez anos depois. Nos campos, sua trajetória teve início no Lumiar. O primeiro clube oficial foi o Esperança, por onde conquistou o título juvenil em 1950. Apenas sete anos depois, após uma pequena pausa na carreira, foi promovido ao primeiro quadro durante um torneio início, no campo do Conselheiro. Chiminga iniciou a partida como titular, em substituição a Zei, e após conquistar aquela taça jamais sentou no banco de reservas novamente.

Polivalente, dono de chute forte e bom poder de marcação, recordava sempre que apenas não atuou como goleiro, passando pelas demais posições nas equipes que defendeu. Entre 1957 e 1963, o "Diabo Loiro” — como foi carinhosamente apelidado pelo radialista Rodolpho Abbud — defendeu o Esperança. No ano seguinte, jogou pelo Bom Jardim, onde ajudou na conquista do título contra o Friburgo. Dentre outros jogos marcantes, Chiminga participou da inauguração do campo do Bom Jardim, em amistoso vencido pelo Bangu de Paulo Borges, Parada e cia., por 5x1. Em 1965, pelo Fluminense de Friburgo, enfrentou o Flamengo de Carlinhos, Valdomiro e outros nomes consagrados.

Paralelo à vida de atleta, Chiminga sempre trabalhou. Em um dos primeiros empregos, participou da construção do Edifício Folly como apontador de obras, em 1964. Naquela época, representantes do Bom Jardim vinham buscá-lo em Nova Friburgo toda quinta-feira para treinar. Teve passagens — algumas breves e outras duradouras — pelas Fábrica de Rendas Arp, Sinimbu, Friburgo Automóveis e Friburgauto. Trabalhou também com o amigo Antônio Felipe Deccache, ex-presidente do Fluminense e Friburguense, por 35 anos.

E foi durante essa trajetória que Chiminga observava os desenhos, especialmente na Sinimbu, viajando pelos traços dos cadarços e outros produtos. Ali descobriu o seu talento para a arte, e durante mais de 40 anos, fabricou brinquedos pelo prazer de trabalhar com madeira. Antes mesmo da aposentadoria, produzia para distribuir no final de ano. Quando saiu do apartamento para a casa, na Vila Guarani, montou uma oficina para transformar os sonhos em realidade. Botões, carrinhos, trapezistas, ioiôs, peões e o que mais a imaginação e a habilidade permitissem foram produzidos no espaço. Botafoguense, também fabricava escudos dos clubes de futebol em material de acrílico.

Ao todo, foram produzidos mais de cem emblemas de equipes da Europa. Mas há também houve espaço para os clubes do país e da cidade. Serrano, Fluminense, Friburgo, Esperança, Nova Friburgo, Conselheiro, Filó e Bom Jardim estão devidamente reproduzidos na vasta coleção, feita cuidadosamente. Chiminga desenhava, fazia os cálculos geométricos necessários e depois trabalhava o acrílico, com seis tipos de lixas diferentes, e as utilizava conforme a necessidade. Em 2013, por exemplo, produziu 300 brinquedos e distribuiu para a Afape, Apae, Igreja São Francisco, Associação Fraternal e Espírita, Lar Abrigo Amor a Jesus e para grupos que fazem a distribuição. Gesto que se repetiu inúmeras vezes ao longo de sua vida.

Uma das obras mais recentes e brilhantes de Chiminga é a réplica do Maracanã, construída em madeira e trabalhada nos mínimos detalhes. Nas arquibancadas, 104 bonecos reproduzem a torcida. Cada um deles cuidadosamente pintado, vestido e com expressões distintas nos rostos. No centro, um campo de futebol de botão. Os times de Brasil e Itália reproduzem um dos duelos entre as equipes, vencido por 4x1 pela Seleção Brasileira. Resultado este retratado no placar eletrônico, confeccionado com um encaixe que se adapta na cobertura da maquete. A estrutura removível conta com um refletor, e atualmente compõe o acervo do Nova Friburgo Futebol Clube, na sede social do Centro da cidade.

Uma obra para sempre, assim como Chiminga. A equipe, os colaboradores e a direção de A VOZ DA SERRA lamentam a irreparável perda e desejam muita força e conforto a familiares e amigos.

O corpo está sendo velado na Capela do cemitério São João Batista. O sepultamento acontece às 16h deste sábado, 9.

Outra perda que deixará muitas saudade entre os friburguenses é a do senhor Otávio Souza (foto), funcionário antigo da churrascaria Tozzoni, no Centro de Nova Friburgo. Uma das pessoas mais simpáticas e atenciosas que já viveram na nossa cidade. A equipe, os colaboradores e a direção de A VOZ DA SERRA se solidariza com os familiares e amigos

 

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