Fotografia em retrospectiva

Um artigo do fotógrafo Yuri Blacheyre, cujas obras estão em exposição no restaurante Bode Expiatório
terça-feira, 09 de maio de 2017
por Yuri Blacheyre
Foto de capa
Todas as fotos por Yuri Blacheyre

por Yuri Blacheyre

Às vezes penso que caminhamos em um perímetro, porque retornamos periodicamente ao ponto de partida. Isto se aplica a muitas coisas, mas vou ficar só com a fotografia… Os avanços tecnológicos de hoje nos fazem ver as rotinas do passado quase como lendas, especialmente quando não as vivenciamos.

Na história da fotografia baseada nos haletos de prata, tive a sorte de participar intensamente do processo em vigor na minha época, e convivi com muitos que me contavam como eram as coisas antes do que então chamávamos ‘a modernidade’.

É pouco conhecido o fato de que, no final do século passado, o processamento doméstico de chapas, filmes e papéis era não apenas um ‘hobby’ extremamente popular na classe média, mas às vezes a única maneira de se ter uma imagem duradoura de algum evento importante na história de cada um, sem precisar recorrer a um serviço profissional.

Câmaras escuras improvisadas em algum canto da casa, amiúde no banheiro da empregada, eram comuns. Papel fotográfico e produtos químicos para revelar e fixar tanto estes quanto os filmes,- eram comprados nos bons armazéns, onde ocupavam as prateleiras junto com enlatados, cigarros, macarrão e outras as coisas básicas de então.

Para muitos a fotografia era apenas isto, uma coisa utilitária, com poucas intenções artísticas. Era uma época em que as câmaras ’Box’, que pareciam um pequeno caixote, faziam sucesso, pois eram simples de usar, e seus negativos grandes, geralmente 6x9cm, dispensavam o caro ampliador, pois eram simplesmente copiados por contato, gerando positivos do mesmo tamanho que depois residiriam em alguma carteira, ou mais frequentemente, eram ‘arquivados’ em uma caixa de sapatos.

Estas pequenas fotos estão aos montes por aí, sendo reproduzidas por métodos atuais, já que são quase sempre registros únicos e preciosos dos entes que já se foram. Então, podemos dizer que estas imagens, produzidas de forma rudimentar, cumpriram magnificamente sua missão histórica.

Alguns queriam algo mais, e faziam do passatempo uma coisa maior. Meu avô, após a aposentadoria (o Temer não era nascido), encontrou no laboratório uma ótima maneira de manter-se longe de minha avó, e não o censuraria por isto... Meu pai deu continuidade à coisa, e quando eu tinha lá uns dezesseis anos, desencaixa-se um ampliador e toda a parafernália guardada por anos.

Montado o quarto escuro, as primeiras lições. Ver uma imagem nascendo na banheira de revelador é experiência marcante para qualquer um, e não podia ser diferente comigo. Acho que foi quando a coisa me pegou para toda a vida.

Depois veio a autorização para usar, com parcimônia, a Leica, a Rolleiflex e outros bichos sagrados da época. Muitos livros e revistas, nenhum em nossa língua, completavam o cenário. Foi uma época inesquecível.

Alguns anos e muitas cambalhotas depois, eis me trabalhador da indústria metalúrgica em Nova Friburgo, e ali mais uma vez a capacitação na fotografia me foi extremamente útil, pois em vários setores da empresa era necessário haver registro por imagens, indo dos acidentes de trabalho à análise metalográfica, em algo que se poderia chamar jocosamente de ‘fotografia de amplo espectro’.

Nesta época o saudoso professor Hideo Kato, membro da Sociedade Fotográfica de Nova Friburgo, achou-me capaz de fazer parte do grupo, e graças à recomendação dele, estou entre esses bons amigos até hoje, lutando para conciliar as coisas de épocas tão diferentes, acreditando ser possível reunir as virtudes de todas elas.

Depois de quarenta anos nesta peleja, a experiência e os calos do ofício são heranças inevitáveis. Vejo que as ferramentas mudam, se modernizam, mas essencialmente, somos movidos pelo mesmo impulso desde o começo. Tendências, tal como a moda, vêm e vão; caem no esquecimento e ressuscitam décadas depois. Hoje usamos estratégias novas e mais rápidas para alcançarmos os objetivos de sempre.

Quando temos nas mãos uma daquelas pequenas fotos que citei, não é rara a surpresa com o esmero da técnica primitiva, e a constatação de que, apesar de uns louros e tapinhas nas costas, ainda somos aqueles, lá do começo.

 

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