Ex-funcionária de 90 anos conta que atendeu nazista

Dona Maria do Carmo relembra histórias curiosas que se passavam no setor de correspondências sigilosas dos Correios de Friburgo
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
por Dayane Emrich
Foto de capa

Aos 90 anos de idade, há quem diga que a memória titubeia. Mas não a de dona Maria do Carmo Bispo dos Santos, que, sentada à mesa de sua casa, com os olhos concentrados e o pensamento longe, relembra as décadas de trabalho nas agências dos Correios de Nova Friburgo. “Entrei para a empresa em 1946. Na ocasião, fui nomeada para inaugurar a agência de Olaria, onde fiquei por seis anos, até ser transferida para a sede, na Praça Getúlio Vargas, no Centro”, conta.

Carmelita, como é conhecida,  revela que trabalhou em vários setores da instituição: com expedição, nos guichês de atendimento, na tesouraria e nas sala dos carteiros, onde ouviu inúmeras histórias. Segundo ela, naquela época havia apenas 80 funcionários nos Correios da cidade, entre aqueles que faziam o serviço interno e os carteiros. Ela relembra ainda a existência de um local específico para correspondências sigilosas, isto é, que somente podiam ser resgatadas mediante a apresentação do documento de identidade.

“Umas das histórias que me lembro envolve uma senhora estrangeira, se não me engano identificada como Rose. Ela ia à agência para utilizar o tal serviço sigiloso e estava sempre acompanhada de um senhor de chapéu, de quem eu mal podia ver o rosto. Um dia, ao chegar ao trabalho, fui chamada ao gabinete do diretor e me deparei com dois policiais. Me fizeram várias perguntas sobre tais correspondências e a respeito da dupla. Respondi tudo o que sabia. Ficamos aguardando a volta dos agentes, mas eles nunca mais apareceram”, conta Carmelita.

Segundo ela, anos depois, soube-se que o tal homem do chapéu havia falecido na Argentina e sido identificado como um fugitivo de guerra, acusado de praticar barbaridades com muitas pessoas. Era Joseph Mengele, um oficial alemão da organização paramilitar Schutzstaffel, ligada ao partido nazista e a Adolf Hitler.  Ele era médico no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e,  inacreditavelmente, passou por Nova Friburgo.

“Anjo da Morte”

Mengele foi membro da equipe de médicos responsáveis ​​pela seleção das vítimas a serem mortas nas câmaras de gás e por realizar experimentos humanos mortíferos em prisioneiros. O médico conseguiu escapar das forças soviéticas e americanas fugindo com caixas e mais caixas contendo suas pesquisas por territórios alemães ocupados, trabalhando em fazendas até chegar a Gênova em 1949. De lá Mengele fugiu para a Argentina, onde viveu durante cinco anos usando nomes falsos e cuidando de uma farmácia.

Depois de um incidente no qual uma jovem faleceu sob seus cuidados durante um aborto, Mengele fugiu para o Paraguai e, em 1960, depois de o Mossad — serviço secreto israelense — capturar outros fugitivos nazistas, Josef veio parar aqui no Brasil. Até onde se sabe, Mengele viveu em São Paulo e continuou por lá durante 17 anos, até seu falecimento em 1979. Ele foi enterrado com o nome falso de Wolfgang Gerhard, mas sua identidade verdadeira só foi confirmada mais de uma década depois.

 

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