Estresse das grandes cidades traz friburguenses de volta

Diante de violência, alto custo de vida e desemprego, eles redescobrem as vantagens de morar na Serra
quarta-feira, 17 de maio de 2017
por Márcio Madeira
Foto de capa
Maria Fernanda Macedo: talento de volta à terra natal (Foto: Arquivo AVS)

As fases e os motivos mudaram ao longo das décadas, mas uma verdade se manteve inalterada: cedo ou tarde, todo friburguense que ambicione seguir alguma carreira menos convencional, ou que pretenda alcançar maior abrangência na profissão que escolheu, acaba sendo confrontado com o mesmo dilema: ficar por aqui e se adaptar às limitações do mercado, ou se deixar levar pela gravidade dos grandes polos e enfrentar o mercado longe do ninho e da família.

Ainda que a tradição universitária friburguense tenha raízes históricas profundas, até meados dos anos 90 a variedade de cursos oferecidos a quem pretendia dar continuidade à carreira acadêmica era bastante restrita, e essa limitação significava que grande parte dos jovens que pretendiam cursar alguma faculdade ainda eram obrigados a encarar os desafios de viver longe de casa, num ambiente estranho e certamente mais agressivo, muitas vezes antes de terem completado 20 anos de idade. Desde então, contudo, a cidade incorporou diversas opções de graduação e especialização – e até mesmo algumas de mestrado e doutorado – reduzindo bastante o contingente de jovens que ainda precisam passar por esse processo.

Para os que hoje estudam por aqui, no entanto, o dilema costuma ser apresentado ao fim da faculdade. O mercado de trabalho ainda é pequeno, a média salarial é baixa, e as possibilidades de continuidade acadêmicas são bastante reduzidas. Para muitos desses profissionais, jogar o chapéu para cima no dia da formatura significa também dizer adeus à vida junto à família, e o início de uma aventura nos maiores mercados do país.

A esse perfil de “exilado”, é justo dizer, soma-se (e por vezes mistura-se) um outro que poderíamos chamar de “friburguenses de segunda geração”, também bastante fácil de identificar. Trata-se, em essência, daquele jovem que, por falta de experiência cotidiana ou qualquer outra insatisfação pessoal, não compartilha da paixão de seus genitores pela terra em que cresceu e idealiza a vida nas grandes cidades, adotando o conhecido discurso de que “Nova Friburgo não tem nada”.

A dinâmica dessa enorme população “exilada”, que batalha lá fora e convive constantemente com a saudade da família, é especialmente visível ao fim de cada ano, no período de Natal: a cidade fica cheia, pais e filhos matam as saudades, velhos amigos se reencontram e atualizam as notícias, e, antes mesmo do ano novo, as ruas já ficaram vazias novamente.

 

Piracema

 

Quem observar com atenção, contudo, irá notar que muitos entre esses friburguenses – a maioria na faixa que vai dos 30 aos 50 anos – começam a fazer o caminho inverso e a considerar a hipótese de voltar a viver por aqui. Em geral são pessoas bem-sucedidas, que encontraram o que haviam ido procurar, mas jamais conseguiram se acostumar por completo à rotina por vezes massacrante dos grandes centros – violência, altos custos, longos e lentos deslocamentos rotineiros, impessoalidade – graças às lembranças de uma vida diferente que aprenderam ser possível por aqui.

É o caso, por exemplo, da jornalista Maria Fernanda Macedo. “Eu saí de Nova Friburgo em 1996, porque tinha passado no vestibular para jornalismo. Na época não havia este curso por aqui, e eu também queria muito ter a experiência de morar em outro lugar.” Formada pela UFF, Fernanda fez mestrado em Comunicação pela UFRJ e, ao longo de 15 anos,  construiu uma carreira sólida, trabalhando no Sistema Globo de Rádio, PUC-Rio e Sesc-Rio, além de ter prestado assessoria de imprensa na área cultural a Som Livre e também a alguns dos maiores restaurantes do Rio, entre vários outros trabalhos.

A rotina, no entanto, era pesada, e o cansaço se fez notar. “Em 2015, já querendo voltar para Friburgo, recebi o resultado de um processo seletivo na Rede Globo. Era um ótimo emprego, eu ia coordenar a assessoria de imprensa de toda a área de dramaturgia. Fiquei dividida durante algum tempo, mas estava querendo mudar radicalmente de vida, e concluí que seria melhor vir para cá. Havia motivos pessoais envolvidos. Queria que meus filhos pudessem conviver mais com meus pais, e já estava no limite lá no Rio, muito cansada da correria do dia a dia, de trabalhar muito, de ver pouco os filhos, da demanda de tudo. E, voltando para cá, realmente encontrei uma nova vida, mais leve, uma possibilidade de repensar a vida, e com isso estou muito feliz”, explicou.

 

Tensões no retorno, e o que pode melhorar

 

Todavia, se é verdade que a busca por maior qualidade de vida e uma rotina menos estressante tem atraído a atenção de muitos destes friburguenses de sucesso no mercado, sobretudo quando abraçam a missão de criar filhos, é também verdade que a readaptação destes profissionais à realidade serrana nem sempre é fácil. O analista de sistemas Gabriel Abi Ramia Ismério Madeira é um bom exemplo disso. Tendo saído de Friburgo aos 18 anos para estudar na PUC, ingressou numa pequena empresa de consultoria e por lá permaneceu por 15 anos. “Eu comecei como estagiário numa empresa que era muito pequena, tinha apenas três ou quatro funcionários. E quando saí de lá era gerente-geral de consultoria para o Rio, e a empresa já tinha mais de 150 colaboradores”, relembra.

Apesar de ter trabalhado a maior parte do tempo numa única empresa, Gabriel prestava consultoria e acumulou experiência atuando junto a diversos clientes de grande porte, como bancos e empresas petroquímicas. Além disso, o friburguense também era o palestrante oficial da empresa em língua inglesa, tendo participado de diversos congressos no exterior. Quando se tornou pai, no entanto, Gabriel começou a sentir falta da vida que levava em Friburgo, e subiu a serra para ficar.

O mercado friburguense, contudo, deixa de absorver muitos desses profissionais altamente qualificados, e hoje Gabriel presta consultoria a parceiros como a Fiocruz, atuando na cidade mineira de Itanhandu. Suas palavras a respeito do mercado friburguense parecem trazer um diagnóstico bastante preciso do que pode ser melhorado a médio prazo. “Alguns fatores dificultam o retorno desses profissionais. Friburgo ainda é marcada por empresas familiares, que cresceram com uma gestão mais informal. O salário também é um obstáculo grande, e eu sentia isso quando apresentava o currículo para alguma empresa, e eles se assustavam com o quanto eu recebia no Rio de Janeiro. Isso gera um receio, e muitas vezes as negociações deixam de se aprofundar, e o empresário deixa de dar oportunidade a quem tem uma experiência maior. Também existe sempre a preocupação de trazer alguém de fora, ganhando bem, e bloquear a progressão de algum profissional de carreira da empresa. A meu ver, no entanto, este é um pensamento equivocado, porque a experiência mostra que tecnologia aplicada aos processos da empresa pode trazer uma otimização muito grande”, explicou.

Maria Fernanda também cita os medos que enfrentou ao decidir voltar, ainda que em seu caso a adaptação tenha se concretizado. “Tinha muito medo de voltar e não conseguir me estabelecer, trabalhar. Ainda assim, acho que voltei num momento muito bom. Tem muita gente voltando e muita gente aberta, receptiva, o medo passou. A cidade está cada vez mais aberta e eu tenho esperança de que dê para ficar, porque agora eu não quero mais voltar para o Rio não”, confidenciou. E os primeiros frutos deste retorno já puderam ser colhidos pela cidade, uma vez que Maria  Fernanda foi uma das idealizadoras e principais responsáveis pela realização da 1ª Festa Literária Flinf, em outubro de 2016.

 

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