Especial professores: Da sala de aula para a sala dos mestres

Ex-alunos que se tornaram professores deram trabalho no passado e hoje homenageiam colegas de profissão
sábado, 14 de outubro de 2017
por Guilherme Alt
Foto de capa
Jessica, de azul, em sala de aula (Arquivo pessoal)
Uma mistura de nostalgia com a responsabilidade de seguir o mesmo caminho daqueles que os inspiraram. Assim é a nova geração de professores. A todo instante a lembrança de um passado recente, como aluno, que agora divide atenção com a rotina de costas para o quadro e de frente para uma turma sedenta pelo aprendizado.

“Ser colega de profissão dos meus ex-professores é uma experiência única! Me dá uma sensação de nostalgia e responsabilidade ao mesmo tempo. A todo o momento alguns flashbacks da época de estudante me passam”

Jessica Neves

Os mais de 130 anos do Colégio Anchieta guardam em sua memória gerações de alunos e mestres que marcaram uma era educativa. E é com parte dessa geração que o Caderno Z conversou para fazer uma singela homenagem àqueles que têm a difícil missão de passar o conhecimento em mentes a serem lapidadas e que, ao mesmo tempo, experimentam as sensações e um turbilhão de emoções das muitas primeiras vezes.

Dessa vez, a homenagem parte dos professores para os próprios professores. São profissionais que antes foram alunos daqueles que hoje são seus colegas de profissão.

Maylon Adame (foto acima) é professor de Teologia e Filosofia e Jessica Neves, professora de Língua Inglesa. Maylon se formou no Colégio Anchieta, em 2002, e Jessica, dois anos mais tarde, também no Anchieta. Hoje educadores do colégio jesuíta, os dois agora dividem a sala dos professores com aqueles que antes foram responsáveis por inspirar o desejo de ensinar.

“Ser colega de profissão dos meus ex-professores é uma experiência única! Me dá uma sensação de nostalgia e responsabilidade ao mesmo tempo. A todo o momento alguns flashbacks da época de estudante me passam... A troca que acontece diariamente entre professores em uma escola é algo que acrescenta muito ao nosso trabalho. E é muito gratificante ouvir experiências de sala de aula daqueles professores que você tanto admira e tem como exemplo”, conta Jessica (foto abaixo, com sua primeira turma).

“Até hoje me lembro do cheiro do colégio no primeiro dia de aula, das conversas de corredor, dos trabalhos motivadores. O professor Eraldo, com o Projeto Sopão, me ensinou a colocar-me a serviço dos outros. Ser mais para os demais. Lembro-me de Sandrinha, professora de História, pessoa especial, que em um trabalho sobre a ditadura militar, em forma de música, nos fez refletir e nos isentou de fazer uma prova (aqueles que tinham participado do trabalho não precisaram fazer a prova e tiraram nota máxima, notíia dada no início da prova)”, lembrou Maylon.

As lembranças de Maylon e Jessica estão vivas na memória dos professores que lhes deram aula. Fato que impressionou Jéssica. “Ao rever aqueles que foram meus professores e me ajudaram na minha formação o sentimento foi de uma gratidão gigantesca! E muita emoção, também. Mesmo com tantos anos e tantos alunos tendo passado por eles, os meus professores lembraram de mim, foi muito especial. Eles me acolheram com muito carinho e me fizeram sentir ainda mais preparada para o trabalho”.

Sandra Maria Buarque, mais conhecida como Sandrinha (foto acima), é professora de História. Há 33 anos, Sandrinha começou a lecionar e há 21, trabalha no Anchieta. São mais de 30 gerações que passaram pela educadora e mesmo assim, com mais de centenas de alunos, ela lembra com carinho de Maylon e Jessica. “Lembro muito bem desses dois alunos queridos, dedicados, sempre gentis e educados. Acho que, inconscientemente, já sabiam que no futuro seriam professores. Tenho vários ex-alunos que hoje são colegas de profissão, vários deles professores de História. Isso é sempre motivo de muito orgulho, pois acredito que uma sementinha foi lançada por nós”.

Assim como Sandrinha, Ilídia Queiroz, professora de língua portuguesa (abaixo, com as filhas), lembra da época de alunos da dupla. “Jéssica era muito disciplinada, atenta, estava sempre com as tarefas em dia. Era a sua forma de participar das aulas. Maylon envolvia-se na aula de outra maneira. Sempre alegre e animado, perguntava, dava sua opinião. Não era indisciplinado, mas falava muito! Aliás, eu brinco com ele até hoje por isso; sempre digo: você continua o mesmo tagarela”, brinca a professora.

É comum que ex-alunos reencontrem seus antigos professores agora colegas de profissão. Segundo Ilídia, é gratificante, principalmente quando o ex-aluno em questão era daqueles de dar trabalho ao professor. “É sempre motivo de orgulho saber que alguns seguiram a mesma profissão. É como se eu e meus colegas, com o nosso trabalho, tivéssemos influenciado, de certa maneira, nessa escolha. Lembro-me de um ex-aluno levadíssimo (foi em uma turma da antiga 5ª série, hoje 6º ano) que se tornou um professor muito exigente. Ele costuma me dizer que agora sabe o trabalho que me deu”.

Influências

“Lembro de gostar muito das aulas da Ilídia, Sandrinha e de tantos outros, mas não gostava do dia-a-dia de estudante. Achava muito difícil acordar cedo e conseguir atingir o nível de concentração que as aulas exigiam”, confessa Jessica que listou alguns dos professores marcantes. “As aulas com o professor Laércio Aguiar eram interessantíssimas! Adorava estudar Biologia. Com Sandrinha, apesar de não gostar tanto de História, lembro da maneira apaixonada que ela ministrava as aulas, aquele conteúdo pesado, cheio de datas e nomenclaturas difíceis de decorar ficavam leves e divertidos. Com Ilídia, lembro de aulas muito interessantes, de conseguir compreender a Língua Portuguesa de uma maneira muito fácil e clara. As aulas da professora Martha Helena, eu adorava! Era o momento de me soltar e escrever. Por isso fiz Letras! Martha tem um jeito de ensinar a escrever que apaixona. Tive muitos outros professores no Colégio Anchieta que  me levaram a me apaixonar pela profissão: Suzane (Português), Alexandre (Redação), Pierre (Literatura), minha própria mãe, Rosângela (que me deu aula no 3° ano do fundamental), Fátima (Inglês), Ritinha (minha primeira professora no pré) , Creuza (Redação no pré) e tantos outros com os quais hoje tenho o prazer de trabalhar lá mesmo no Colégio Anchieta. É uma sensação gostosa de nostalgia misturada a uma responsabilidade enorme.”, relembrou Jessica (foto abaixo).

Maylon também cita os mesmos professores e lembra de outros que marcaram sua época de aluno “Tenho muitos exemplos de excelentes professores, desde a alfabetização com a professora Izabel Siqueira, passando por tantos outros que marcaram minha vida, como as professoras Alverita, Ana Lidia, Isaurinha, Ritinha, Eliane, que trabalham comigo no Colégio Rui Barbosa. E no Anchieta, além dos já citados pela Jessica, também tem José Alexandre, Milton Pereira, Jane Ayrão e Gisele Monteiro, além de outros igualmente especiais.”

Desvalorização da carreira

Ilídia: Tenho alguns ex-alunos que agora são professores, não são muitos devido à crescente desvalorização da carreira. Dar aula é mais difícil do que estudar porque os resultados do seu esforço não dependem só  - ou muito mais - de você, envolvem também a dedicação e a vontade do outro. E o maior prazer de um professor está justamente em ver a evolução do aluno.

Sandrinha: fica sempre uma preocupação quando se constata que hoje a nossa profissão, essencial para o desenvolvimento da sociedade, está ficando a cada dia mais desvalorizada. Os alunos mais agitados escolhem sempre outras profissões. O magistério requer percepção em relação ao outro, dedicação e muita paciência. Fui uma aluna aplicada, sempre gostei muito de estudar. Os tempos eram outros, a escola era a nossa segunda casa e o respeito aos professores era mais que necessário, era o caminho para o conhecimento, para ser alguém na vida (como dizia a minha mãe). Hoje, acho que é mais difícil ser professor. Concorrer com o celular tem sido uma luta inglória!

A professora Jessica e o professor Maylon aprovariam os alunos Jessica e Maylon, não em notas, mas em comportamento?

Jessica: Acho que sim, a professora Jéssica aprovaria o comportamento da aluna Jéssica (na versão mais velha). Eu era o tipo de aluna que não participava tão ativamente das aulas, mas ficava atenta e, caso houvesse dúvidas, dava um jeitinho de perguntar depois, ou pesquisar sobre o assunto. E mesmo no caso da aluna Jéssica mais novinha e agitada, eu não era do tipo que desrespeitava os professores ou algo parecido. Eu só era agitada, falante, mas dava conta do recado.

Maylon: O professor aprovaria o aluno por sua dedicação, comportamento adequado e pela busca querer ser e fazer a diferença no mundo.

 

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