Especial 199 anos: uma diáspora no sentido inverso

Histórias de friburguenses (ou quase) que pegaram o caminho de volta
terça-feira, 16 de maio de 2017
por Adriana Oliveira
Jaqueline e Victor Scavarda na cozinha que os uniu (Foto: Carlos Mafort)

Histórias de friburguenses (ou quase) que pegaram o caminho de volta

Assaltos, tiroteios, insegurança, desemprego, engarrafamentos, estresse, custo de vida alto, calor infernal, possibilidade de trabalhar de casa. São muitas as razões que levam, cada vez mais, friburguenses a desistirem de viver em metrópoles como Rio e São Paulo e a buscarem o caminho de volta, mesmo no auge da vida produtiva. Ou, como sintetiza o jornalista carioca Gustavo de Almeida no seu recém-criado grupo do Facebook “Rio, só te quero nas férias”, que em menos de um mês, mesmo com status fechado, já reúne 75 pessoas desesperadas para “vazar” da Cidade Maravilhosa e interessadas em trocar experiências sobre a vida em outras paragens. “A única ideia pétrea daqui é: o Rio acabou. Não conserta mais. Não sai da lama. E só vai sobrar bandido armado em dez anos. Eu adoro o Rio como eu adoro Beatles: muito bom, mas acabou, não vai ter mais igual”.

A seguir, histórias de moradores que retornaram a Friburgo depois de anos vivendo em outras cidades.

 

Paixão mútua e pela cidade

Victor Scavarda, 26, e Jaqueline Righetti Scavarda, 28

Casados, sócios-proprietários do Gastro Pub Scavarda’s, hamburgueria gourmet, com drinques e comida diferenciados, recém-aberta no Cônego.

Moradores do Centro, voltaram no ano passado.

A paixão por Friburgo e pela gastronomia uniram Victor e Jaqueline, que realizaram no último 26 de abril o sonho de abrir o primeiro gastro pub de Friburgo. Ambos são cariocas da Tijuca. Mas, enquanto Victor viveu a vida inteira num dos bairros mais tradicionais da Zona Norte, Jaqueline mudou-se com a família, aos 12 anos, para Friburgo, onde morou até os 20. Nesta idade ela foi para o Rio cursar moda e, depois, gastronomia na escola de Alain Ducasse. Jaqueline nunca gostou do Rio, do trânsito, do tumulto, da falta de qualidade de vida da capital, e sempre quis voltar para Friburgo. “Não foi difícil convencer Victor a vir comigo. Dei um xeque-mate nele”, brinca.

Victor conta que os dois se conheceram logo na primeira semana em que Jaqueline chegou ao Rio. “Foi amor de carnaval. E estamos juntos há quase oito anos”, derrete-se. Ele cursava direito e ambos largaram a faculdade para cursar gastronomia juntos. Nascia ali um projeto em comum de vida. Ao começar a frequentar Friburgo, nos fins de semana, com a namorada, Victor encantou-se pela cidade, sobretudo a região do Cônego, onde moram os pais dela. “Quando amadurecemos o projeto de abrir o Scavarda’s, não hesitamos em escolher Friburgo. No início foi difícil quebrar meu vínculo com o Rio, sobretudo com a Tijuca. Mas hoje tenho verdadeira fobia do Rio. Não tenho a menor vontade de voltar ou ficar lá. Falta segurança e, por incrível que pareça, falta lugar para curtir o Rio”, diz ele.

Para Victor, que já estuda abrir um segundo negócio, também no Cônego, em Friburgo as pessoas são mais bem educadas - exemplo disso são a preferencial para pedestres nas faixas sem sinal, “comportamento de Europa”, observa - e os friburguenses que criticam a cidade só o fazem porque não vivem numa cidade selvagem como o Rio. Para ele, e também para Jaqueline, o que falta aqui é mais investimento em turismo. “Falta incentivo, valorização do turismo. Temos poucos hotéis para receber pessoas de fora. E o comércio também precisa de revitalização”, diz Jaqueline.

 

De veranista a friburguense-raiz

Melissa Romanelli, 38, advogada.

Mudou-se em definitivo para Friburgo no fim de 2015. Mora no Cônego.

Carioca do Leblon, Melissa começou a frequentar Friburgo com os pais, veranistas, durante a adolescência, meio a contragosto. “Podia ir de helicóptero com amigos para Angra, mas era obrigada a subir para Friburgo. Eu detestava”, relembra ela, hoje apaixonada pela cidade. A carreira de advogada e um casamento a levaram embora - primeiro para São Paulo, depois para o Rio, onde desenvolveu projetos profissionais em comunidades pacificadas.

Em 2011, já divorciada, com uma filha e a carreira de vento em popa, tinha tudo para permanecer em São Paulo: emprego, boa remuneração. Mas optou pela qualidade de vida e resolveu ficar entre Rio e Friburgo. No fim de 2015, decidiu jogar âncora aqui, onde comprou uma casa no alto da montanha, com vista de cinema. “Adoro a paisagem, o clima, o estilo de vida. Gosto da agitação do Rio, mas não para morar. Do que adianta ganhar mais e ter um custo de vida absurdo? A única vantagem do Rio em relação a Friburgo é a mente mais aberta das pessoas, ninguém cuida da vida de ninguém”, avalia com franqueza.

Criando raízes, 42 anos depois

Fabiana Motroni Almeida, 46

Publicitária, consultora em marketing e comunicação, trabalha em home-office.

Mora no Centro. Voltou em 2015, mesmo sem ter criado raízes na cidade.

 

Fabiana apenas nasceu em Friburgo. Aos 4 anos, foi levada pelos pais para o Paraná, onde viveu até cursar Comunicação na UFF, em Niterói. De lá, migrou para São Paulo, onde fez carreira. Após um pit-stop de um ano no Rio, há dois anos decidiu voltar às origens, mudando o endereço para Friburgo, mesmo sem ter criado raízes. “Para mim, é um recomeço de vida. Não tenho nada nem ninguém para resgatar. Vim por opção, não estou fugindo da cidade grande. Após a morte de meu pai, apenas senti necessidade de me reaproximar da família”, explica ela, que explora a facilidade tecnológica de trabalhar em casa, podendo assim manter clientes em São Paulo e no Rio.

A publicitária elogia a qualidade de vida, “a natureza, o ar, o ritmo” de Friburgo e se ressente apenas da falta de uma cidade mais cosmopolita. “A vocação cultural de Friburgo, que já foi pungente, anda meio adormecida, a cultura costumava chegar em Friburgo, o que já não acontece tanto”. Mas ela mesmo responde à própria queixa com ação, tendo se engajado em projetos como a estruturação do pólo audiovisual, coletivos de cultura e arte, eventos como a Flinf e movimentos feministas. Tanta atividade tem protelado qualquer intenção de se mudar daqui. “Descobri que há espaços a ocupar, meios de recriar meu mundo social, que não tive tempo de desenvolver aqui”, diz ela, que costuma levar seu cão Tartufo para bares.

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  • Melissa junto às flores de sua casa, no Cônego (Foto: Arquivo pessoal)

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  • Fabiana e seu cão Tartufo com amigos na mesa de bar (Foto: Arquivo pessoal)

    Fabiana e seu cão Tartufo com amigos na mesa de bar (Foto: Arquivo pessoal)

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