Entrevista relembra os 24 anos da morte de Ayrton Senna

Fã do piloto, jornalista Marcio Madeira comenta como Senna se tornou o maior de todos os tempos
sexta-feira, 04 de maio de 2018
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)

Fã do piloto Ayrton Senna, morto há 24 anos em um acidente durante o GP de San Marino de Fórmula 1, em 1º de maio de 1994, o jornalista e colunista de A VOZ DA SERRA, Márcio Madeira, lembra  como este brasileiro virou herói nacional e ídolo de várias gerações.

Como definir Ayrton Senna?

Explicar Ayrton Senna para quem não viveu aquilo é impossível. Se alguém quiser entender sobre Senna, talvez tenha que procurar na imprensa internacional. A imprensa japonesa que tem um amor declarado por Senna é uma boa opção, mas por conta dos aspectos de tradução, não teríamos a essência das reportagens. Acredito que a imprensa inglesa, que geralmente é “mais fria”, seja um bom termômetro. Em 2014, no aniversário de 20 anos da morte dele a revista publicou na capa “Senna: piloto, herói, lenda”.

Ele foi o melhor piloto de todos os tempos?

Em alguns pontos Senna se candidata a ser o maior de todos os tempos. Notadamente, a rapidez. Mas não é porque ele conseguia pilotar em um circuito no menor tempo possível, mas sim de se adaptar a diferentes ambientes dentro do carro e dentro de uma corrida. A partir do momento em que o automobilismo passou a ser disputado em circuitos fechados, temos três aspectos importantes: Intuição: que é a fase em que você checa a situação de pneus, combustível e você faz uma estimativa para chegar ao final da corrida, você pilota na intuição, até entender que o carro chegou no limite. A partir daí você chega a fase de repetição, ao qual você começa a fazer voltas idênticas num determinado ritmo. Nessas duas fases iniciais o Ayrton era imbatível. A última fase é a de adaptação, e ele conseguia se adaptar rapidamente ao que a pista ou o que o momento pedia. Um exemplo disso é a vitória em Interlagos, em 91.

Senna desde o primeiro ano mostrou que era um piloto diferenciado. Pode-se dizer que a Toleman, sua primeira equipe era uma equipe de fim de pelotão e que Senna fez milagre?

Em 1984 era muito fácil dizer que a Toleman era uma equipe de fim de pelotão, mas ao logo do ano ela evoluiu muito. Ela era a sétima equipe do grid, num universo de cerca de 13 equipes. A Toleman deu aos seus pilotos o pneu Michelin, que permitiu um salto de qualidade nas corridas, no meio da temporada. Era para o Senna largar na 13ª e 14ª posição e com as quebras terminar ali entre os seis primeiros, ou seja, na zona de pontuação, naquela época. Mas ele conseguiu muito mais do que isso, por puro talento e porque o carro teve um bom desempenho na última metade do ano.

O que foi o GP de Mônaco 1984?

Naquele dia tudo estava favorável para Senna.  Era um pista de rua, onde ele se tornaria rei e era um dia chuvoso. Era basicamente pilotagem instintiva o tempo todo. E ele com um carro visivelmente inferior aos seus adversários foi superando um a um, inclusive um campeão mundial, Niki Lauda, um piloto nada desprezível. E estava chegando perto do Prost com amplas possibilidades de passar, quando a corrida foi interrompida. O que ele fez naquela corrida assombrou o mundo.

Em 1985 Senna foi para a Lótus. Lá ele deixou de ser promessa e virou realidade?

Ele liderava muitas corridas, fazia voltas rápidas, mas não conseguia completar as provas porque ficava sem combustível e naquela época não era possível fazer reabastecimento, então deixou de ganhar e marcar vários pontos. Ele consegue sua primeira vitória em Portugal debaixo de chuva. Nessas condições o carro tinha um consumo baixo de combustível, então ele voou. Eram motores turbo, muito difíceis de se pilotar na chuva e ele sumiu da vista de todo mundo. Na Bélgica ele voltou a ganhar, nas mesmas condições de chuva. No ano seguinte, ele passa a se controlar mais e passar a conquistar mais vitórias e mais pontos e entra definitivamente no radar dos grandes pilotos.

Apesar de Mansell, foi Prost o maior rival de Senna?

Prost foi um adversário muito forte. Ele podia ser diabólico. Ayrton foi lapidado. Senna foi testado de diversas formas, ele comeu o pão que o diabo amassou nas mãos do Prost. Os dois tinham convicção de que poderiam vencer um ao outro em condições de igualdade, mas ali só tinha espaço para um campeão. Pela primeira vez na vida Prost começa a ser derrotado sistematicamente em treinos de classificação. Mônaco foi um divisor de águas para os dois. Senna chegou a ficar três segundos mais rápido que Prost nos treinos. Naquele dia caiu a ficha do Prost de que não adiantava brigar com Ayrton Senna em treino.

As temporadas de 1992 e 1993 mostraram como ele era um piloto diferenciado?

Em 1992, Senna não foi páreo para as Williams, mas ainda assim faz corridas excepcionais como a de Mônaco em que segurou Mansell nas últimas voltas. Ayrton atinge seu auge em 1993. É a grande temporada dele e possivelmente a melhor temporada que algum piloto possa ter feito na Fórmula 1. Senna sabia que não tinha não tem a menor chance com as Williams e resolveu dar show, pilotando com genialidade. Ganhou no Brasil, onde saiu nos braços do povo, fez aquela volta fantástica em Donington Park e ganhou a corridas da Europa, Mônaco, Japão e Austrália. No final de 1993 ele finalmente consegue assinar um contrato com a Williams, onde encontrou seu destino em San Marino, na terceira prova do ano, no dia 1° de maio.

 

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