Encruzilhada no alto das Braunes é alvo de polêmica

Localidade popularmente conhecida como “Curva da Macumba” teve sua placa trocada por outra que trazia uma nova inscrição: “Curva da Bênção”. Mas a conversão não durou muito...
terça-feira, 05 de janeiro de 2016
por Ana Blue
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Placa que indica "Curva da Macumba" voltou ao local com um recado: "Protegido por legislação" (Foto: Uirá Eiras)

No mês em que se celebra o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa – dia 21, instituído pela lei federal n.º 11.635/07 – um bairro de Nova Friburgo protagoniza uma cena capaz de ilustrar, ainda que timidamente, a falta de habilidade de alguns cidadãos em lidar com a diversidade de crenças. Trata-se do caso “Curva da Macumba” – como ficou conhecida uma encruzilhada no alto das Braunes.

O epíteto é autoexplicativo: o local é palco de práticas quimbandistas e umbandistas, geralmente compostas por oferendas de bebidas alcoólicas, comidas, velas e charutos. É comum que os habitantes das cidades criem uma identidade referencial em suas ruas – em Nova Friburgo não seria diferente. A curva da macumba ganhou até placa, como que oficializando o nome que já tinha caído no gosto do povo.

Entretanto, há quem não goste, ou melhor, há quem sinta nesta tradição uma coisa negativa, feia, de mau gosto. Há, ainda, quem se incomode o ponto de retirar a placa que indicava o nome característico e pôr em seu lugar uma nova, dando à localidade um novo batismo: Curva da Bênção.

Pronto. Deu-se a discórdia. Casos de intolerância específica contra os cultos de origem africana têm se intensificado nos últimos trinta anos no estado do Rio de Janeiro, segundo o deputado estadual Átila Nunes (PSL), presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da Alerj. Os casos se dão principalmente pela ignorância quanto ao que realmente consiste os pilares da crença umbandista. Costuma-se associar os rituais a práticas de ruindade. Entretanto, em 16 de novembro de 2014, A VOZ DA SERRA publicou matéria sobre a intolerância religiosa em Nova Friburgo, trazendo a visão de líderes de diversas denominações na cidade e entre eles estava Genecy Pereira Dias, que é pai de santo e tem um terreiro na cidade. À época, Genecy assim definiu os preceitos do culto: “A religião não promove o mal: quem faz o mal é a pessoa que já tem uma predisposição para tal, independentemente de ser umbandista, católico, ateu, enfim, o caráter independe de religião”.

O deputado cobra ainda do governo estadual a execução da lei n.º 5931/11, que cria a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, um núcleo especializado, com policiais treinados e estrutura adequada com a finalidade de combater os crimes praticados contra pessoas, entidades ou patrimônios, públicos ou privados, cuja motivação esteja ligada a preconceito ou a intolerância.

Mas, voltando à placa, alguém já deu jeito de consertar. Destronaram a curva da bênção e trouxeram de volta a placa, que além de devolver o nome original, garante: aqui é a curva da macumba, estamos protegidos por lei municipal e federal. Bem, como é recesso na Câmara Municipal em janeiro e como os sites sobre a legislação friburguense não são lá muito atualizados, a redação de AVS não conseguiu apurar se o nome “Curva da Macumba” já está amparado por lei. Mas que já é conhecida assim pela população, isso é.

E por que todo um texto sobre intolerância religiosa só por causa de uma placa dando um nome simbólico à curva de uma rua? Porque parece um ato pequeno, inofensivo – mas todas as guerras santas começaram pequenas assim. 

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