Easy riders friburguenses contam suas aventuras

Apaixonados por altas cilindradas, motociclistas falam da relação com suas máquinas, os roteiros e as amizades que fazem pelo caminho
domingo, 30 de julho de 2017
por Ana Borges
Foto de capa
Henrique Frotté: de Niterói a Salvador numa "cadeira elétrica" (Arquivo pessoal)

Em meio às comemorações pelo Dia do Motociclista, na quinta-feira, 27, Brasília vem cumprindo seu papel de terceira capital mundial do motociclismo, desde sexta-feira, 21, até domingo, 30. É lá que está acontecendo a 14ª edição do Brasília Capital Moto Week, que recebe, anualmente, milhares de motociclistas de todos os continentes.

Neste sábado, 29, será realizado o tradicional passeio motociclístico, o principal do planeta, com saída do Parque de Exposições da Granja do Torto. Os organizadores do evento, considerado o maior da América Latina e terceiro do mundo, esperam a presença de mais de 35 mil motos neste sábado para o passeio, número registrado no ano passado, segundo a Polícia Militar. Para este ano, são esperadas cerca de 650 mil pessoas e 300 mil motos ao longo dos 10 dias de duração do encontro.

E no meio dessa multidão, entre máquinas e pessoas, estão alguns friburguenses, entre eles, Armando Lemos, que acaba de voltar de lá e conta aqui como é participar de um evento dessa natureza e de tamanha grandiosidade. Aqui em Friburgo, terra de apaixonados por motos, de incríveis cilindradas, também temos inúmeras associações de motociclistas. Alguns deles colaboraram para a produção dessa reportagem, cujo intuito é simplesmente homenageá-los. Seguem seus depoimentos sobre o tema. Confira:

Armando Lemos, médico: “Minha história com a motocicleta foi precoce, e tem dois padrinhos muito especiais: 1) meu pai, que nos meus 15 anos de idade me presenteou com uma Honda CG 125 cil azul clara (linda!). Na época a legislação proibia, porém com menos rigor, que a atual. Lembro-me lembro dele falar com meu tio: "esse garoto é ajuizado e merece"... 2) E meu saudoso tio Tarcísio (Monnerat) que me ensinou o bê-a-bá nas trilhas de seu sítio na minha saudosa Bom Jardim. Ali, fui mordido pela mosca azul e me viciei com o vento no rosto. Porém, aos 17 anos fui em busca de meu maior sonho: Ingressei na faculdade de medicina, abandonando por 12 anos o sonho juvenil. Em 1999, após terminar a residência médica em neurocirurgia, fixei residência na amada Nova Friburgo, e a vontade de voltar a pilotar pulsou forte. Não demorou estava alternando entre Yamahas, Hondas, Suzukis, mas sempre pela região. Com o convite dos primos Tchelo e Wagner fui "adotado" por parceirinhos de longa vida nas duas rodas, e juntos, entre amigos formamos o grupo "porra-gatos", com o único objetivo de viajar e fazer parceiros nas estradas. Daí veio o sonho maior: porque não rodar a América, do extremo Sul ao extremo Norte em duas rodas? Idealizada pelo mestre Villarinho, iniciamos - eu, meu amor e fiel escudeira (Shyntia), e os queridos amigos Tania / Henrique, Claudia / Bruno - a rota 61, mais conhecida como "rota do blues". Partimos em maio de 2014 de New Orleans, passando por Vicksburg (berço do BB King), Memphis (terra do Elvis Presley), Louisville, Nashville (da country music), Indianápolis, finalizando em Chicago (de Al Capone e Buddy Guy). Um sonho de mais de 2000 quilômetros, da musicalidade e miséria do sul segregado, cruzando as fazendas de algodão e milho até finalizar na exuberância de Chicago. Tudo regado a muita liberdade, muito blues e história. Esplêndido!! Ora, se desbravamos a América, como não desbravar o Brasil? Daí veio o sonho de conhecer o maior evento motociclístico da América latina e o terceiro maior do mundo: o Brasília Capital Moto Week. Sediada na capital federal, o evento ora grandioso, teve início em 2004 e hoje apresenta números fabulosos (235.000 motocicletas e cerca de 3.600.000 participantes). Partimos eu e Shyntia em julho de 2016 em aventura solo de mais de 2.500km entre ida e volta. O encantamento foi tamanho que estou nesse exato momento retornando do evento de 2017, ainda mais exuberante que o do ano passado, desta vez com a agradável companhia de Julinho / Luciana Santos. O íntimo convívio com a natureza, a aventura, e a liberdade (sempre com responsabilidade) proporcionados pela motocicleta são absolutamente indescritíveis! O melhor de tudo? Quando encerramos uma viagem, vem logo a dúvida: qual será o próximo destino? Vamos?” 

Ricardo Lengruber, professor: “Pilotar motocicletas é uma experiência fascinante. Ao mesmo tempo que libera muita adrenalina, exige muita responsabilidade. É daquelas sensações que mesclam controle e risco. Além, é claro, da mobilidade e um contato de ‘vento no rosto’ que o automóvel não proporciona. E, para quem admira, as boas motocicletas conjugam ainda muita tecnologia embarcada em espaços bem pequenos. Força, liberdade e entretenimento são as palavras que resumem minha admiração por esses brinquedos.”

Henrique Douglas Frotté, empreendedor: “Amigos, em fevereiro de 1982, viajei de Niterói a Salvador em uma Yamaha RD 350 apelidada na época de cadeira elétrica. Infelizmente, as fotos estão muito ruins, mesmo assim, não posso deixar de citar uma das viagens mais maravilhosas que já fiz, a Rota 61 nos Estados Unidos, também conhecida como a Rota do Blues, onde a gente parte de New Orleans, percorre em torno de 2.000 quilômetros pelas autoestradas e passa também por pequenas cidades até chegar em Chicago, curtindo em cada região, o melhor do jazz, country e blues.”

Ricardo Villarinho, empresário: “Sim, motocicleta combina com estradas. Moto faz parte da minha vida desde a adolescência. Oficialmente, a primeira duas rodas pilotada com documento, foi uma Lambretta. Os encontros dos lambretistas à noite aconteciam  na Avenida Atlântica (Praça do Lido, posto 2). De lá partíamos, bem acompanhados com nossas jovens garupas, quase todas sem autorização paterna, em direção à Barra. Naquele tempo o único caminho era a subida pelo Joá. No pé do morro, o bar do Oswaldo e sua famosa batida de côco. Ninguém usava capacete e não havia repressão. E fomos subindo de cilindrada. Da italiana para a Yamaha 200 cc; sobrevivi à famosa “Viúva Negra”, a RD 350, uma dois tempos com seis marchas e pouco freio. Para assistir as corridas de motos em Interlagos, do Rio a Sampa, bastavam 3h e meia em pista única. Depois, a inglesa Norton Comando de 750 cc, que chegou ao Brasil em 1973 com uma característica bem britânica: o pedal do freio traseiro estava no lugar do pedal da caixa de marcha. O que tornava impossível  permitir ao amigo uma volta no quarteirão. Seria tombo na certa. Viajei muito pelo Brasil: Floripa, Bahia, pelas Minas Gerais. Em 2007 realizei um sonho dos tempos de adolescente: com minha parceirinha Camila cruzei a Route 66. De Chicago a Los Angeles, aquela que os americanos chamam de  “rota mãe”. Que ligou o leste ao oeste. São 60 anos de estradas sobre uma motocicleta. Se imaginarmos que eu tenha rodado anualmente 17 mil km pilotando minha moto, já teria ultrapassado a casa do 1 milhão de quilômetros.”

Hélio de Freitas Madureira, presidente da Associação Friburguense de Moto Clubes, e do Moto Clube Trogloditas do Asfalto, tendo como vice Ricardo Portella: “Fundamos nossa associação em outubro de 2008 e desde então temos realizado importantes ações sociais como os eventos, Moto Noel, Campanha do Cobertor, Campanha de Doação de Sangue e Campanha de Alimentos. Nosso espaço também está sendo usado por músicos friburguenses em apresentações para divulgar suas performances e músicas. A AFMC já recebeu da Câmara Municipal o título de Utilidade Pública e também foi agraciada com uma Moção Honrosa.

Berg Bastos, presidente do Moto Clube Amigos da Serra: “Nosso clube foi fundado em 16 de maio de 2003 e comemoramos nosso aniversário sempre no primeiro final de semana de junho. Nos reunimos sempre às quartas e sextas-feiras, a partir das 19h, na nossa sede (Avenida Julius Arp, 412). Ter uma moto, viajar a bordo dela é, antes de tudo, uma paixão. E essa paixão compartilhada por milhares de motociclistas é também uma forma de fazer novas e sólidas amizades. São relacionamentos que possibilitam a troca de experiências e o desenvolvimento de atividades sociais, através de coleta e doação a quem precisa de ajuda, aos mais necessitados.”

Pastor Benim (Debney Dembergue), presidente internacional do Águias de Cristo Motoclube do Brasil: “O moto clube Águias de Cristo nasceu em Nova Friburgo no dia 17 de novembro de 2000, graças à visão do nosso fundador Ernani Macedo. Ele idealizou um moto clube totalmente cristão, sem bandeira de igreja, mas tendo Jesus Cristo como direção para todos os projetos e sonhos de um grupo de motociclistas apaixonados por moto e loucos por Cristo. Em 2002, devido a um problema de saúde, o presidente Ernani Macedo me passou o cargo, e desde então, dou continuidade até hoje.

Contamos com mais de 110 unidades espalhadas por todo território nacional e unidades em países como Estados Unidos, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Portugal e África do Sul. Com aproximadamente 5.000 membros, tornou-se um dos maiores motoclubes cristão da América do Sul, orgulhosamente nascido em Nova Friburgo.

Preservamos o bem estar no trânsito e a comunhão na família respeitando as leis de trânsito e trazendo a paz nas estradas. Em outubro, vamos comemorar 17 anos de fundação, quando será instituído o Dia dos Águias de Cristo, pela Câmara dos Vereadores de Nova Friburgo. Faremos uma grande festa na Praça do Suspiro, com a participação de mais de 2.500 motos e shows para todos os apaixonados por motos.”

Pilotar motos traz felicidade e aumenta a autoestima das mulheres

Segundo dados do Denatran, atualmente são mais de 25 milhões de motocicletas, ciclomotores e motonetas circulando pelo país, e cada vez mais crescem os produtos e serviços voltados para o mercado de duas rodas. E que, só as mulheres correspondem a cerca de 30% desse mercado.

Estudo encomendado pela Harley-Davidson sugere que pilotar uma motocicleta ajuda a aumentar a autoestima das mulheres. As respostas apontam que as mulheres que pilotam são mais felizes, confiantes e se sentem mais sexy do que as mulheres que não pilotam.

A pesquisa da empresa especializada americana Kelton, contou com a participação de 1.013 mulheres motociclistas e outras 1.106 mulheres não motociclistas, todas com idade acima dos 18 anos.

Das motociclistas entrevistadas, 34% disseram que se sentem menos estressadas e mais da metade (53%) citaram que a motocicleta é sua principal fonte de felicidade e que a experiência de pilotar uma moto as faz sentir mais livres e independentes.

Três a cada quatro mulheres (75%) acreditam que suas vidas mudaram desde que começaram a andar de moto. A pesquisa também constatou que 60% das motociclistas sentem que seus relacionamentos melhoraram, contra 35% das entrevistadas que não são motociclistas.

“Andar de moto é uma forma de liberdade e auto-expressão, por isso faz sentido que as mulheres pilotos são mais felizes e, em geral, se sentem mais satisfeitas”, disse Claudia Garber, diretora do Outreach das Mulheres para a Harley- Davidson nos Estados Unidos. “É por isso que aprender a andar de moto é o presente perfeito que você pode dar a si mesma. Mudou a minha vida.”

Brasil segue tendência mundial

“Quando criei o Mulheres de Moto, em 2009, quase não via mulheres andando de moto nas ruas. E quando passava, as pessoas me olhavam com surpresa. Agora não, é comum”, disse Amanda Pagliari, piloto e fundadora do portal <mulheresdemoto.com.br> “Todos os dias recebo mensagens de mulheres de todo o país contando suas experiências como motociclistas, e percebo que a cada dia cresce o número de habilitadas na categoria A”.

As mulheres são diferentes dos homens em muitos aspectos, inclusive na pilotagem. Homem não se preocupa com cabelo ou com a maquiagem que vai borrar quando colocar o capacete, por exemplo. Além disso, em geral, as mulheres se dedicam mais e estão dispostas a ouvir dicas e fazer cursos para aprimorar seus conhecimentos e prática.

A diagramadora de A VOZ DA SERRA Deise Silva é uma dessas pessoas que ajudou a aumentar o número de mulheres nas pistas com suas possantes motos. A seguir, seu depoimento:

“Minha relação com moto começou a partir de uma conversa com minha irmã, eu dizendo que queria comprar uma ‘motinha’ para ir pro trabalho, pra me livrar dos ônibus. Aí, um dia, meu cunhado entrou para um grupo de motociclistas, comprou uma moto para praticar e aprender pilotar, e quando se habilitou, comprou uma motocicleta mais possante. Então, ele me deu a dele, que é essa que estou usando agora, uma Kansas 150, da Dafra. Fiz o curso de direção e realizei meu sonho. Estou curtindo esse mundo fantástico de duas rodas. Como uma pessoa responsável, piloto com muito cuidado e com todos os acessórios necessários para garantir a minha segurança e a dos outros. Outro dado relevante, é o fato de eu ter resolvido, ou criado coragem de andar de moto aos 45 anos. E isso depois de ficar uns 30 anos sem andar nem de bicicleta. Então, essa novidade tem sido uma grande aventura, movida a paixão! É realmente, uma experiência e tanto.”

Morador de Friburgo já rodou 1 milhão de quilômetros ao redor do mundo

Aos 75 anos de idade, o ex-advogado e administrador de empresas Augusto Lins e Silva, um respeitado e admirado motociclista brasileiro, nascido em Pernambuco e radicado em Nova Friburgo há mais de 20 anos, mantém intacta a sua paixão pela aventura de percorrer estradas mundo afora a bordo de sua motocicleta Honda NC750X. Ele já computou mais de um milhão de quilômetros rodados ao longo de 50 anos.

“Conquistei o primeiro recorde mundial, aos 70 anos, fazendo o percurso Rio-Alasca-Rio. Rodei 39,8 mil quilômetros em 103 dias no projeto Três Américas”, lembra o único brasileiro a conquistar o troféu de participante mais rodado no encontro de Sturgis, na Dakota do Sul, que é o maior encontro de motociclistas do mundo, com participação de cerca de 70 mil pilotos. “O segundo recorde foi no Projeto Eurásia, quando passei por 49 países dos continentes europeu, asiático e africano, pilotando 29 mil quilômetros em 87 dias”, contou, acrescentando que essa aventura foi monitorada por satélite para comprovar seu feito e entrar com processo de inclusão no Guinness Book.

Seu mais recente desafio - neste ano - seria alcançar seu terceiro recorde mundial. Depois das duas últimas conquistas, ele se preparou para vencer 40 mil quilômetros do projeto Estados Unidos Total (USA Total). A viagem deveria marcar seus 60 anos de motociclismo estradeiro. Só que, no meio do caminho tinha um pedregulho inimaginável, entre Peru e Equador: Augusto teve o dissabor de assistir a um acontecimento assustador em forma de tsunami.

A expedição USA Total saiu de Friburgo em 11 de março de 2017. Augusto desceu até o sul do Brasil, entrou no Uruguai e foi seguindo pelo Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, até chegar à fronteira de Peru e Equador. Foi lá que o nosso destemido motociclista se deparou com a força da natureza em sua capacidade de destruição. O cataclismo tirou Augusto do rumo que havia traçado com tanta antecedência e cuidado.

Não fosse esse contratempo, Augusto atravessaria o mar do Caribe, de Cartagena para o Panamá, cortaria a Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala, chegando aos Estados Unidos pelo Texas, onde começaria a viagem pelos 48 estados americanos. Começaria...

O sonho de percorrer 800 quilômetros por dia na viagem que deveria durar pouco mais de 90 dias, não se concretizou. Augusto não comemorou seus 75 anos nas estradas, montado na sua Honda NC750X.

Huaico, o tsunami andino

No meio do caminho tinha um aluvião, um fenômeno local denominado Huaico, simplesmente devastador, segundo Augusto. O huaico consiste numa chuva torrencial, semelhante a um dilúvio, proveniente do Equador, formada por um gigantesco volume de água, acrescido de terra e pedras que desce e inunda as cidades de uma maneira incontrolável. É tão violenta, que ele viu uma carreta de 80 toneladas ser carregada como se fosse um brinquedo.  

“Eu fiquei paralisado com a cena”, conta, lembrando o que viu e como a tragédia o afetou. “O huaico vem do Equador, um país tropical com muita selva. Só que a chuva, em vez de cair lá, se dirige para a fronteira do Peru, onde desaba sobre a cordilheira dos Andes. Imagina então, a quantidade de pedras que desce daquelas montanhas, que vai se avolumando de uma maneira incalculável sobre tudo e todos. A enxurrada saiu quebrando e arrastando tudo que encontrou pelo caminho, não deixando pedra sobre pedra. Pontes, estradas, casas, dezenas de pessoas e animais, tudo sucumbiu. As marcas dessa destruição ainda estão lá. Vi e vivi esse terror em março deste ano. Fui salvo por um motorista de táxi que me tirou da estrada e me levou por um dos poucos caminhos que ainda davam passagem, até um hotel. Ele salvou a minha vida.”         

 Próxima parada: Nova Zelândia

Como nada o impede de continuar elaborando novos roteiros e seguir enfrentando desafios e aventuras, atualmente Augusto planeja uma nova viagem, à Nova Zelândia. “Estou me preparando para sair em fevereiro de 2018. Quero bater mais um recorde, o terceiro da minha carreira. O tempo que vou levar para chegar lá é o que importa. E para isso tenho que fazer 800 quilômetros por dia. Não é a velocidade, no sentido de rapidez, que conta, mas a constância de percorrer determinada distância, todos os dias, para alcançar o recorde. É o que chamo de velocidade de projeto, ter condição de rodar 800 km diariamente, algo como a distância Friburgo-São Paulo-Resende. Imagine fazer isso durante cerca de 30 dias. É o que vou fazer ano que vem, aos 76 anos”, garantiu Augusto.

 

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