Domingo é celebrado o Dia dos Nordestinos

Cearenses, pernambucanos, baianos e potiguares enriquecem a cultura de Nova Friburgo
sábado, 07 de outubro de 2017
por Ana Borges
Foto de capa
Patativa do Assaré

Neste domingo, 8, o Brasil comemora o Dia dos Nordestinos, data criada em 2009, em São Paulo, em homenagem ao centenário de nascimento do cearense Antônio Gonçalves da Silva. Assim citado, pouco gente vai ligar o nome à pessoa. Mas, e Patativa do Assaré, o poeta, compositor e cantor? Ah, sim, dirão alguns. Agora, identificado e merecidamente reconhecido por muitos de nossos leitores, fica claro o motivo da homenagem, que celebra as raízes e as tradições culturais do povo do Nordeste.

Patativa do Assaré foi um dos maiores poetas populares do Brasil. Com uma linguagem simples, mas poética, ele retratava a vida sofrida e árida do povo do sertão. Com os versos da música "Triste Partida", sem se dar conta Patativa iniciava uma carreira que mais tarde levaria seus livros a serem traduzidos em vários idiomas e tema de estudos na Sorbonne, na cadeira de Literatura Popular Universal.

Seu apelido, Patativa, vem da comparação de sua poesia com a beleza do canto da ave de mesmo nome; e Assaré, porque foi nesse município que ele nasceu, no interior do Ceará, a 623 quilômetros de Fortaleza. Apesar da fama, o poeta nunca saiu de sua terra natal. Lá passou toda a sua vida, lá foi enterrado ao falecer em 2002, aos 93 anos.

Patativa, assim como Ariano Suassuna, e muitos outros nordestinos celebrados em áreas que vão das ciências às letras, passando pelo universo das artes, e ainda diplomacia, magistério e direito, são exceções no que diz respeito ao privilégio de não precisar ir embora.  

Eles são a outra ponta de uma corda que reúne milhares de outros nordestinos que se viram forçados a migrar para outras regiões do país. Principalmente para o sudeste.

Como o nosso personagem, o pernambucano Marquinhos Arraes. Que veio se somar a dezenas de profissionais, como músicos, atores, escritores, jornalistas, fotógrafos, webdesigners, cozinheiros e pizzaiolos, que escolheram Friburgo.   

Marquinhos Arraes, de Exu para Friburgo

Ele nasceu em Exu, famosa cidade de Pernambuco, terra do sanfoneiro Luiz Gonzaga, conhecida também pelas brigas seculares entre duas poderosas famílias, daquelas contadas em verso e prosa, além inspirar pautas nas mídias e no noticiário de TV.  

Marquinhos Arraes (foto), filho de Antônio Saraiva Arraes e Laura Pereira Arraes - neto de prima do ex-governador Miguel Arraes, político de tradicional família cearense, radicado em Pernambuco -, nasceu em 1969, num pé de serra, cercado de verde, no meio de árvores frutíferas, roças, hortas, legumes. O avô tinha plantação de cana de açúcar, também. Jorrava água, nada de seca, a vida era boa e a mesa farta.

“Tive uma infância feliz num lugar muito bonito. Mas, para progredir na vida, meu pai, que era vendedor ambulante, achou melhor a gente se mudar para o Rio, em meados dos anos 1970”, lembra. No Rio, havia uma grande comunidade nordestina no bairro da zona norte, Jardim América, onde todos se ajudavam, “era como se fôssemos todos da mesma família”. A adaptação foi tranquila, o pai progrediu, a família se estabeleceu sem maiores dificuldades.

Enquanto isso, na sua Exu, os ânimos se acirravam, aumentando a disputa por terras e poder, insuflados pelo endurecimento da ditadura no início da década de 1970. A guerra do sertão chegou ao Rio e encontrou Antônio Saraiva Arraes. Ele foi assassinado, aos 38 anos, fato que repercutiu na imprensa de lá e cá. Marquinhos lembra dos repórteres em sua casa, da Glória Maria (da Globo) fazendo entrevistas.

A família, então órfã de seu único provedor, aceitou o convite de um tio já estabelecido em Friburgo, e decidiu subir a serra. Aqui, encontraram a segurança e tranquilidade que buscavam para viver em paz, revela Marquinhos, que se declara um homem abençoado:

“Sou pernambucano de nascença, carioca de criação e friburguense de coração. Realizei todos os meus sonhos aqui, e sou grato a tudo que conquistamos. Inclusive, recebi esse ano o título de Cidadão Friburguense, do qual tenho muito orgulho”.

 

Uma nova vida  cheia de lembranças

Marcos Antônio Saraiva Pereira, 47 anos, foi batizado sem o Arraes no nome por decisão dos pais para protegê-lo de possíveis inimigos dos Arraes. Já seus irmãos, nascidos na década de 1980, no Rio, foram registrados com o nome da família. Mesmo assim, ele é conhecido como Marquinhos Arraes, sobrenome que carrega com indisfarçável orgulho. Sobre o assunto, aliás, ele conta uma curiosidade.

“Sabe quem acabei conhecendo aqui em Friburgo? O filho do general que prendeu o Miguel Arraes quando ele era governador de Pernambuco (abril de 1964). É um pernambucano chamado Telmo, que mora aqui há muito tempo. Ele me contou histórias daquela época, me mostrou umas ‘carteirinhas’, e comentou a ordem que o pai dele recebeu do então presidente, o marechal Castelo Branco, para prender o governador. (Castelo Branco e Arraes tinham a mesma origem cearense, parentes ligados pelo sobrenome Alencar. Depois de um ano preso, Arraes foi exilado, em 1965. Só voltou com a anistia, em 1979).   

A vinda para Friburgo decidida pela mãe após a morte do marido, foi vista como uma boa mudança pelos filhos. “As raízes do nordestino são bem cravadas na cultura e enquanto vivíamos lá no Rio, a Feira de São Cristóvão (Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas) era um alento para todos nós. Era lá, nos encontros e conversas que matávamos as saudades da nossa cidade”, conta.

Hoje, segundo Marquinhos, a família prefere fazer os pratos preferidos em casa, e lembrar a vida que ficou para trás, quando toda a família está reunida em volta da mesa, desfrutando das delícias da cozinha nordestina: não faltam a tapioca (beijú), o baião-de-dois, o cuscuz, a carne de sol, o mugunzá, entre outros pratos típicos.

“O povo nordestino é um tesouro da cultura nacional. Em todo o nosso país, do Oiapoque ao Chuí, marcamos presença através das artes, da literatura, teatro, cinema, música, e outros setores. A nossa contribuição é algo indiscutível e isso nos torna um povo consciente e orgulhoso de nossa importância na formação dessa nação”, concluiu.

Resumo da bela história de Patativa do Assaré

O cearense Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002) era filho dos agricultores Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Órfão de pai aos oito anos de idade, começou a trabalhar na lavoura para ajudar a família.

Patativa frequentou sua primeira e única escola por apenas quatro meses, tempo suficiente para aprender a ler e escrever, aos 12 anos. Mas foi quanto bastou para descobrir e se apaixonar por poesia. Seu talento para criar ‘repentes’ logo chamou atenção dos organizadores das festas locais, que o convidavam para se apresentar.

Casou com Belinha, teve nove filhos, e aos 20 anos viajava por várias cidades nordestinas, se apresentando em festas e programas de rádio, como a Rádio Araripe. Com uma linguagem simples mas poderosa, o poeta retratava em seus escritos o árido universo da caatinga nordestina e a vida daquele povo sofrido, mas, valente. Como Euclides da Cunha já havia decretado no clássico ‘Os Sertões’, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Patativa de Assaré foi um exemplo dessa espécie.

Tornou-se conhecido em todo o Brasil, aos 55 anos, a partir de "Triste Partida", toada de retirante de sua autoria gravada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Teve inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais, gravou seu primeiro disco em 1979, "Poemas e Canções", produzido pelo cantor e compositor Fagner, e gravou seu segundo disco, "A Terra é Naturá", lançado também pela gravadora CBS.

A política não ficou de fora de sua obra nem de sua vida. Durante o regime militar, ele criticava os militares e chegou a ser perseguido. Participou da campanha das Diretas Já, em 1984, e publicou o poema "Inleição Direta 84".

Ao completar 85 anos foi homenageado com o disco "Patativa do Assaré - 85 Anos de Poesia" (1994), com participação de importantes duplas de repentistas. Tido como fenômeno da poesia popular nordestina, com sua versificação límpida sobre temas como o homem sertanejo e a luta pela vida, seus livros foram traduzidos em diversos idiomas e tornaram-se temas de estudos na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a titularidade do professor Raymond Cantel.

Antônio Gonçalves da Silva, já surdo e cego desde o final dos anos 90, morreu em consequência de falência múltipla dos órgãos, no dia 8 de julho de 2002, em sua casa, em Assaré, aos 93 anos.

 

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