Do céu que não podemos guardar

"Como se eu, mãe-adulta-responsável, fosse a certeza de que a explicação está logo ali"
segunda-feira, 05 de dezembro de 2016
por Deborah Simões
Foto de capa

“Mãe, como a gente faz para alcançar o céu?”, Laís me pergunta, olhando aquele amontoado de escuro pela janela. Acho que essa é uma das interrogações mais básicas de uma criança. Não que o básico seja de fácil resposta. Quando se trata de infância, a gente tem que ter muito cuidado na argumentação da realidade. “Porque eu sei que de avião a gente passa pelas nuvens, mas... de noite, a gente consegue tocar as estrelas?”. E eu inauguro uma conversa, tentando explicar que a questão das estrelas é um pouco mais complexa. “No escuro, tudo é mais complicado, né, mamãe?”. 

É, ela conversa um bocado comigo, sempre carrega uma pergunta no colo, como se eu, mãe-adulta-responsável, fosse a certeza de que a explicação está logo ali, um respaldo para as dúvidas mais bonitas que fazem pausa na correria cotidiana. Mas quando o assunto é céu/estrela/escuridão, me breco um pouco mais, na garantia de que a resposta achará conformidade diante dos olhos infantis — eles merecem calma e hora certa. E penso assim, porque alcançar o céu, tocar numa estrela, deitar na nuvem são desejos que nos levam a construir escadas bonitas quando crianças, são promessas de uma vida mais livre ao fim de um dia inteiro na escola. 

— Filha, é assim. Dizem que as estrelas que vemos já existiram há muito tempo, mas que elas não existem mais, não temos como tocá-las, mesmo que viajássemos de avião. 

— E a luz, mamãe? 

— A luz chega depois para a gente, porque as estrelas estão bem longe. Aí, quando enxergamos o brilho, a estrela já não está mais lá. É complicado, filha, eu sei. Mas, sabe, o importante é que, podendo ser tocadas ou não, elas ainda iluminam o céu. 

— Hum, é por isso que quando viramos estrelinha, não ficamos mais aqui? 

— É, acho que sim. Quando quem amamos vira estrelinha, não podemos mais vê-lo. O corpo dele fica longe da gente, mas o que ele foi para nós, as lembranças, o brilho... Tudo isso continua a ser visto ou sentido. 

— Então, mamãe, a mãe da vovó Silsil, que virou estrela, ainda existe em algum lugar, né? A gente só não pode tocar nela, levar para casa, mas ela ainda existe, porque a vovó Silsil a ama muito. Acho que entendi. 

— É, acho que você entendeu... 

— Sabe, mamãe, nem sei se ter estrelas de verdade no céu seria tão bom assim. Os aviões passam toda hora por lá, elas poderiam ser machucadas. É até melhor que fique só a luz. E também não sei se as estrelas brilhariam da mesma forma se fossem guardadas num pote. Tem que ter espaço para isso acontecer. 

— Verdade, Lalá. E sobre alcançar o céu, talvez, um dia, a gente nem precise de avião. Pode ser que construam uma escada bem grande, para que todos subam sempre que quiserem tocar nas nuvens. 

— Ou um elevador, né, mamãe? 

— Isso, filha. O importante não é como iremos subir até lá em cima, se de escada, de avião, de elevador. Essencial mesmo é que a gente nunca esqueça que existe um céu bonito para olhar, mesmo que de longe. 

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