Dia do Garçom: A VOZ DA SERRA homenageia profissionais antigos

Julio, que acabou fundando quase 20 restaurantes, e as garçonetes da Dona Mariquinha são exemplos de dedicação à profissão em Friburgo
sábado, 12 de agosto de 2017
por Karine Knust e Guilherme Alt
Foto de capa
A Quinta Rica quando começou (Arquivo pessoal)

Duas horas da manhã, o sol nem pensou em aparecer, mas ele já está lá, pronto para mais um dia de trabalho. Folga? Afirma: “somente no dia de Natal”. Com quase 80 anos de idade e mais de 60 de profissão, Julio de Souza Esmério, ou Seu Júlio - como é conhecido por muitos de seus amigos e clientes - é responsável por fundar quase 20 restaurantes na região e ainda mantém três das principais casas que funcionam no centro da cidade.

Nascido em dezembro de 1937, Julio é de Cantagalo, mas foi em Nova Friburgo que começou sua carreira, criou seus filhos e netos, e conquistou uma infinidade de amigos - não é a toa que seu grupo de empreendimentos chama-se “Amigos do Julio”. Apesar de ser mais conhecido por sua habilidade de manter bons restaurantes, Julio não é daqueles que se contenta em orientar os três filhos e um neto, que hoje administram o negócio.

Quem vai almoçar no Quinta-Rica, por exemplo, sempre encontra Julio por lá. Seja servindo, cuidando da reposição de alimentos no self-service ou recebendo os clientes. Mesmo com cerca de 120 funcionários divididos pelos seus três empreendimentos, ele afirma que não cogita a possibilidade de se aposentar. “Já passei todos os restaurantes para a próxima geração da família, mas continuo orientando. Uma coisa que nunca vou deixar de ser é garçom. Eu sirvo o freguês, atendo as mesas, faço sugestões. Enquanto eu puder, não vou parar. Máquina parada enferruja”, brinca.

A mudança

Com um olhar sempre atento e receptivo, seu Julio deixa transparecer a humildade, mas provavelmente quem o vê pelos salões do restaurante não imagina como toda a história começou. Após trabalhar desde os 5 anos na roça, com cerca de 12, Julio saiu de Cantagalo e veio para Nova Friburgo em busca de uma vida melhor. Mas a mudança não foi tão simples.

“Teve uma época da minha história que foi muito amarga. Vim para cá ainda pequeno, estava sozinho e não tinha onde ficar. Dormia no tapete de entrada da Sociedade Esportiva Friburguense”, compartilha ele, acrescentando que “graças a Deus, ali eu fui encontrado por uma senhora italiana que me levou para a casa dela no meio da madrugada e me deu um prato de comida. A partir daquele dia, as coisas começaram a mudar. Ela fez um trato comigo, me dava o que comer e, em troca, eu limpava e encerava os salões onde funcionavam o restaurante e os bailes da sociedade. Ali tive o meu primeiro contato com a profissão de garçom”, conta Julio.

O primeiro trabalho oficial de Julio como garçom, entretanto, foi em 1951, aos 14 anos, no extinto Bar Universal. E não demorou muito para que ele se destacasse. Aos 21 anos, começou a administrar negócios. “O meu ex-patrão, Bartolomeu, foi quem me deu a primeira chance de estar do outro lado do balcão. Ele me deu a responsabilidade de tomar conta da Majórica. Fiquei administrando o restaurante por um tempo até que tive a chance de ser dono”, comenta ele.

O segundo empreendimento de Julio foi a tradicional churrascaria Quinta-Rica, em funcionamento há 56 anos. No Grupo Amigos do Julio, ele ainda mantém o restaurante Varandão e a Churrascaria Tozzoni - todos no centro da cidade. Quando perguntado sobre o segredo de tanto sucesso, ele é rápido em afirmar: “A experiência e a dignidade faz a gente aprender a administrar, mas a determinação é o segredo para quem quer começar a carreira”, declara.

A arte de servir

Arrumar o salão e as mesas, recepcionar os clientes, anotar os pedidos, estar sempre atento ao cardápio. Essas podem ser consideradas algumas das funções do ofício de garçom. Mas para seu Julio, para ser um bom profissional, é preciso ir além. “O garçom sempre foi a segunda maior educação do mundo. Primeiro o mordomo e segundo o garçom. Então, é preciso fazer com que o cliente sinta que você se interessa pela presença dele, se preocupa. A gentileza faz toda a diferença”, ressalta.

O segredo para ser funcionário de uma das casas de seu Julio? Ele logo afirma: “É preciso ter muita força de vontade, seriedade e ética. Não precisa saber ser garçom, é preciso querer ser um. Até porque, não contratamos quem já é profissional da área. Preferimos ensinar pessoas do que mudar hábitos. O funcionário precisa ser parecido conosco, por isso a gente pega quem não é profissional e ensina tudo, como no caso do Antonio César, o melhor garçom e funcionário da minha vida” revela.

Antonio César Pinto de Souza, 59 anos, trabalhava em plantações em Valão do Barro, distrito de São Sebastião do Alto, quando veio para Nova Friburgo, também em busca de uma vida melhor. Considerado braço-direito de Julio há mais de 30 anos, Antonio César é elogiado pela eficiência e gentileza. “Tudo que sei foi o seu Júlio que me ensinou. Vim da roça para cidade em busca de uma vida melhor, nunca tinha tido contato com a profissão, só trabalhava com plantações. Graças a Deus, até hoje, não tenho o que reclamar. Só posso agradecer pela oportunidade. Gosto do meu trabalho e gosto muito de lidar com o público”, afirma ele.

Na Dona Mariquinha, prato vazio paga multa

O gosto do bife macio, bem temperado, com o caldo escorrendo pelas estrias daquela carne bem preparada. O pastelzinho de carne, com a massa crocante. O arroz soltinho e o feijão “chocolate”. As empadinhas transbordando de recheio de queijo e batata frita, hummm, a batata frita... nada disso poderia ser tão saboroso se não fossem as mãos maravilhosas que preparam essa comida deliciosa. Nada disso seria tão completo se, no atendimento ao cliente, o mesmo sorriso estampado no rosto não estivesse lá, há décadas.

São esses os profissionais do restaurante Dona Mariquinha. O time dá o verdadeiro toque pessoal que ultrapassa a bolha cliente-funcionário. Eles não são garçons, não são garçonetes. São mais que isso. São um time, uma equipe. São amigos. Desde que me mudei de Niterói para Friburgo, aos 8 anos de idade, eu frequento o Dona Mariquinha. E uma coisa eu observei nesses últimos 22 anos: os garçons são os mesmos. A aparência deles, também. Mas o melhor é o tratamento destinado ao cliente, que também permanece igual. Não se resume somente ao cordial “Boa tarde. Tudo bem?”. Vai muito além disso. É algo pessoal, como se fossem da família.

A funcionária mais recente está lá há quase cinco anos e a mais antiga, há mais de 50. Entre cinco e 50, funcionários que lá estão há 15, 20, 30 anos escrevem a história do lugar. Rosângela Maria Fonseca atende a clientela há 51 anos. É a mais antiga. Rose afirma que no início da sua jornada de mais de meio século, serviu um público jovem, geralmente estudantes da faculdade de odontologia. De acordo com ela, tudo que aprendeu foi ensinado pela dona do hotel/restaurante. “Foi Dona Mariquinha que ensinou tudo. O tratamento com o cliente para ela era prioridade. Tinha que estar tudo em ordem. Aqui, o cliente é quem manda”, destaca. A cozinha sempre esteve aberta caso alguém quisesse visitar. Para Dona Mariquinha, o mais importante era a satisfação do cliente ser bem servido”, lembra Rose.

“Nós pegamos essa essência dela e colocamos como prática de trabalho. Nós queremos o cliente satisfeito. Dona Mariquinha foi como uma mãe pra mim”, afirma João Batista, garçom há 32 anos.

Batista estava de licença médica há quatro anos e, coincidentemente, voltou a trabalhar no dia em que nossa equipe foi ao restaurante. “Eu fiz um transplante de fígado e fiquei parado todo esse tempo. Os meus patrões são ótimos e me deram assistência durante esse período. Fiquei com saudade de trabalhar e principalmente, saudade do restaurante e rever os clientes. Hoje (1º de agosto), é o meu primeiro dia, depois da cirurgia, não poderia estar mais feliz”, comemora. Marlene Abreu, que trabalha há 31 anos no restaurante, afirma que a relação com os clientes é de amizade. “Aqui nós temos um convívio muito bom. São pessoas queridas. Alguns, inclusive, vimos crescer. As pessoas voltam e encontram a gente, relembram a época em que frequentavam quando eram mais jovens. Isso serve para nos aproximar ainda mais”, conta.

Uma comida caseira com gosto de festa

O rodízio de comida caseira traz um sabor de infância. E rever os garçons que lá se encontram há mais de 30 anos é uma viagem no tempo e uma atração à parte. O serviço é elogiado por quem frequenta a casa e muito procurado por turistas. Desde que voltei a morar em Friburgo resolvi criar uma tradição: ter um almoço de aniversário, no Dona Mariquinha. E assim é há três anos. Nada mudou. Que bom! A equipe joga junto. E usando um jargão muito conhecido no futebol - “em time que está ganhando, não se mexe”. Manter garçons da qualidade como os da Dona Mariquinha é o prato principal para o sucesso do restaurante. A definição de comida caseira nunca fez tanto sentido.

“Somos unidos, somos amigos, formamos uma família. Não só dos garçons e chefs, mas dos nossos patrões, também”, afirmam. A todo momento tem sempre um garçom para colocar no prato do cliente uma comida preparada com o cuidado que merece. “Aqui a gente fala que prato vazio paga multa”, brinca Marlene. De fato, prato vazio é o que não se vê por lá. Salada, carne, frango, massa. Variedades da gastronomia caseira sempre bem servidas por aqueles que têm o prazer de levar ao prato de cada um, qualquer pedido.

Fora do restaurante, quando os garçons são reconhecidos pelos clientes, costumam receber elogios. “Sempre tem alguém que nos reconhece, e param para elogiar o nosso trabalho, a comida que servimos. A gente fica feliz que essa avaliação seja positiva. São médicos, dentistas, advogados, professores, trabalhadores, em geral, mas há 30 anos eram jovens e a gente até fica sem jeito de chamar alguns deles de “doutor”, porque nós vimos todos crescerem”, contam Rose, Batista e Marlene.

 

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