Deficiente friburguense é o primeiro a completar o Rio Negro Challenge

Rodrigo Garcia cumpre em 3 horas e 35 minutos os 8,5 km da lendária Travessia Almirante Tamandaré, no Amazonas
quinta-feira, 07 de dezembro de 2017
por Vinicius Gastin
Foto de capa
Nadador friburguense acompanhado dos amigos durante a viagem: objetivo é participar de prova internacional em 2018 (Arquivo pessoal)

A palavra limite, para Rodrigo Garcia, parece ter o mesmo significado de objetivo. No último fim de semana, ele escreveu mais um capítulo inesquecível para sua própria biografia, que automaticamente torna-se referência para qualquer pessoa. Desta vez o desafio superado foi a prova Rio Negro Challenge, em Manaus, no Amazonas, e seus 8,5 quilômetros na lendária Travessia Almirante Tamandaré. Para derrubar quaisquer dificuldades e paradigmas, Rodrigo levou exatas três horas e 35 minutos. Mais do que isso: fez história ao se tornar a primeira pessoa com deficiência a completar o percurso.

“Cheguei no pelotão do final, mas realizei um sonho. Fiz quatro quilômetros com conforto e tranquilidade, e depois apertei aos poucos nos quatro quilômetros finais. Os últimos dois quilômetros foram de águas agitadas, o que deu emoção à prova. Cumpri uma distância que poucas pessoas fazem no Rio Negro, um dos mais simbólicos do Brasil”, descreve.

O percurso batizado como Travessia Almirante Tamandaré teve a largada realizada próximo à Ponta do Camaleão e chegada à Praia da Ponta Negra. A exigência física da prova é tão grande que cada atleta obrigatoriamente levou um guia para acompanhá-lo durante a competição, de caiaque ou stand up paddle. A água é turva, quente, e difícil de flutuar, o que torna tudo mais difícil e valoriza ainda mais o feito de Rodrigo Garcia.

“Eu vivi 2017 para isso. Foi um dia inesquecível. Agradeço à equipe da escola Miosótis, ao Ricardo Lengruber, Tati Bom, Mírian Silva e Bethânia. Se eu tivesse escolhido outro lugar eu não teria o apoio que tive. Agradeço também a equipe de professores que esteve comigo no dia a dia: Arthur, Dayana Tibúrcio, Anderson Corrêa, Igor Nascimento e mais recentemente o Mateus e o Samir Barel, que foi meu treinador e montou os treinos para esta prova. Aos meus amigos, uma gente sensacional. Isto inclui meus pais e irmãos, à família Gadelha, que organiza esta prova espetacular e por fim, e com muita importância, agradeço ao Alex Pinheiro. Meu anjo da guarda na água, meu guia, e um grande parceiro aqui em Manaus”, disse Rodrigo. 

Para cumprir a missão e se transformar na primeira pessoa com deficiência e o primeiro friburguense a disputar esta prova, Rodrigo enfrentou uma rotina de treinos específica desde setembro, cumprindo um programa de treinos diários de quatro mil metros na piscina do Educandário Miosótis.

De fato, cumprir o programa de atividades para participar da prova foi algo simples para quem jamais fez do encurtamento congênito na perna esquerda, que o obrigou a aprender a andar aos 14 meses já usando uma ortoprótese, um impedimento para praticar esportes como futebol, natação, boxe, tênis e outras atividades para pessoas com ou sem deficiência. A trajetória de Rodrigo no mundo esportivo começa aos 14 anos, quando se tornou paratleta. Em um período de aproximadamente seis anos, portanto até os 20 anos, foram muitas as conquistas e premiações.

Logo no primeiro ano, com apenas uma hora e 40 minutos de natação, atingiu a marca dos seis quilômetros, e alcançou diversas premiações nacionais e regionais. Outro momento marcante foi a conquista de várias medalhas nos I Jogos Paradesportivos Brasileiros, realizados em Goiânia, dentre tantas outras competições que preenchem o currículo de Rodrigo.

Depois de um tempo sem praticar atividades, retornou à modalidade aos poucos em 2015. Desta vez, mantendo o foco na natação. Geralmente desafiando a própria resistência, percorrendo cidades e águas brasileiras, em busca de reafirmar a si próprio a sua capacidade de superar as limitações. Rodrigo Garcia voltou às competições no ano passado, quando disputou provas curtas de mil metros no mar, duas provas médias de três mil metros em Brasília e Manaus e uma prova de 12 quilômetros no Rio São Francisco, mas que tem equivalência de seis quilômetros, por conta da correnteza a favor.

Para 2018 há sonhos e objetivos ainda mais ousados: disputar uma prova de cinco quilômetros no Pantanal e uma de seis quilômetros na Grécia, no Canal de Corinto. Apesar das dificuldades financeiras – uma vez que o atleta arca com praticamente todos os custos -, fica a pergunta: alguém ainda é capaz de duvidar?

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