Crianças e tecnologia: qual é o limite?

Psicóloga e terapeuta familiar alerta para riscos gerados pelo acesso à rede e pela superexposição infantil
sábado, 14 de abril de 2018
por Karine Knust (karine@avozdaserra.com.br)
Foto de capa
A psicóloga Cristina Werner (Foto: Henrique Pinheiro)
A nova geração já nasce super esperta. Aprende a usar aparelhos eletrônicos com poucos anos de vida e está dominando as redes. Não há como negar. Mas até que ponto essa interação é saudável? As redes sociais e plataformas online podem ajudar no desenvolvimento dos pequenos ou estão mais propensas a criar crianças cada vez mais isoladas do mundo real? Como dosar o acesso à internet? Ainda é possível fazer com que as crianças se atraiam por brincadeiras ao ar livre, que estimulem a capacidade psicomotora, ou estamos de fato entregues a tecnologia? Qual é o limite?

“Como importar regras para os filhos se você mesmo pode ser o disseminador do mau exemplo?”

Cristina Werner

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Quando se trata desse novo universo infantil, é inevitável pensar nessas e tantas outras questões que envolvem o tema. Para a mestre em Psicologia Clínica pela PUC/RJ e terapeuta familiar, Cristina Werner, é preciso encontrar um equilíbrio no uso da ferramenta, e ele começa pelos pais. “Não adianta falarmos de superexposição de crianças à tecnologia se os próprios pais fazem isso muitas vezes. É preciso dar um bom exemplo. A primeira coisa que o adulto deve fazer é se perguntar se ele mesmo não está usando demais smartphones, tablets, computadores, aplicativos. Como importar regras para os filhos se você mesmo pode ser o disseminador do mau exemplo? O autocontrole é fundamental, até porque, quando os pais permanecem muito tempo conectados, os filhos tendem a se sentirem desprezados”, alerta a psicóloga.

Além de lidar com a invasão da tecnologia no cotidiano infantil, os pais precisam driblar ainda os constantes avanços nos atrativos visuais e sonoros das plataformas virtuais e tudo que nelas é compartilhado. Vencer essa disputa não é tarefa fácil, assume Cristina, mas é possível. “É difícil concorrer com imagens, sons e jogos, por isso nós também temos que nos tornar pessoas atraentes e interessantes para os filhos. Às vezes os pais são muito chatos, reclamam de tudo e isso afasta a criança. É preciso educar sim, mas manter o bom humor e leveza para isso é essencial para que sejam boas companhias para os filhos. É a velha máxima de que ‘não basta ser pai, tem que participar’. É preciso estar disponível para o outro”, orienta a especialista.

Um risco ao desenvolvimento

De acordo com uma pesquisa mundial desenvolvida pela AVG Tchnologies, em 2010, 69% das crianças entre três e cinco anos, conseguiam usar jogos de computador e 57% delas sabia como usar um smartphone. Por outro lado, apenas 14% dessas mesmas crianças era capaz de amarrar sapatos sozinha. No caso do Brasil, o levantamento apontou que 97% das crianças entre 6 e 9 anos de idade usavam internet e 54% delas já tem perfil no Facebook. Mesmo que a rede social só seja liberada para usuários acima dos 13 anos de idade.

Segundo a Academia Americana de Pediatria, há limites recomendados para a exposição de crianças à rede. O ideal é que apenas após os dois anos de idade a criança comece a ter contato com esses aparelhos, como o smartphone. Ainda de acordo com a orientação, até os cinco anos, o acesso deveria se restringir a, no máximo, uma hora por dia. Já as crianças de seis a 12 anos deveriam ficar diante da tela por, no máximo, duas horas. Para aqueles acima dos 13, o tempo máximo para aproveitar seria de três horas.

“A exposição excessiva à internet pode gerar problemas de atenção, memória, habilidade de raciocínio, além de problemas de postura, mãos, visão, obesidade e sono - que é considerada uma das piores consequências já que também prejudica o processo de aprendizagem”, afirma Cristina, acrescentando que “Também nos tornamos pessoas mais impulsivas, perdemos nosso treino pela espera. Temos os sentimentos aflorados em função da falta de educação e pudor no ambiente virtual. Estamos indo de zero a cem com muita facilidade. Sem saber dosar a intensidade dos sentimentos”, alerta.

“Não podemos nos furtar e fugir da tecnologia porque ela faz parte do nosso dia-a-dia. O grande problema é que a internet não traz todo o treino para o desenvolvimento social sadio, pleno e esperado para a criança. Quando você não tem o contato presencial com um amiguinho ou outras pessoas da família, por exemplo, você passa a ter muita dificuldade de decupar e aprender a interpretar sinais e sentimentos. Quais são as aquisições básicas que são necessárias para que essa criança viva em sociedade? Mais do que usar a tecnologia, é preciso saber usar a convivência social de forma harmônica”, pondera Cristina Werner.

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