Country assume obras de chalé, mas pede ajuda a Iphan e empresários

Segundo diretoria, reforma de caráter emergencial visa a eliminar riscos de desmoronamento do prédio
sábado, 07 de outubro de 2017
por Dayane Emrich
Foto de capa

Os jardins e lagos do Nova Friburgo Country Clube são, incontestavelmente, um dos principais pontos turísticos da cidade. Isso não só pela beleza do lugar, mas também pela sua inestimável importância histórica. Embora poucas pessoas saibam, no espaço está situado um dos bens culturais mais significativos do município e do país, o Chalé do Barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto. Construído em 1862 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1957, o prédio, que já foi palco de festas, bailes e concertos da aristocracia fluminense durante o século 19. Hoje, no entanto, encontra-se em situação delicada.

Desde o início de agosto, por conta dos riscos de desmoronamento do imóvel, a diretoria do Country Clube decidiu assumir as obras de reforma do espaço, que haviam sido iniciadas em 2013 pelo Iphan. Na época, a entidade contratou, por meio de licitação, uma empresa especializada em restauração para realizar a reforma. No entanto, depois de muitas paralisações, as obras foram dadas como encerradas pelo instituto, mesmo sem terem sido finalizadas.

“Embora não seja nossa responsabilidade, ficamos preocupados com a condição do casarão. Por conta das chuvas, as inúmeras infiltrações foram agravadas e o telhado ficou ainda mais danificado desde que o órgão interrompeu os trabalhos. Por isso, chamamos técnicos para vistoriarem o imóvel e eles constataram que toda a estrutura do chalé está prejudicada e que o risco de desmoronamento é grande”, explicou o presidente do Country Clube, Roosevelt Concy (foto).

Os trabalhos, realizados por dois técnicos gabaritados em restauração, estão sendo coordenados pelo historiador e arquiteto Luiz Fernando Folly, com autorização do Iphan. Além da restauração da estrutura, fazem parte do projeto de reforma o restauro artístico e a troca das telhas. “Nossa prioridade é a estrutura da casa, que foi danificada pela ação de cupins. Há paredes em que as colunas de sustentação estão brocadas e não chegam até o chão. Agora, estamos colocando vigas de ferro que vão resolver parte dos problemas”, explicou Luiz Fernando.  

De acordo com Roosevelt, apesar de já ter iniciado as obras, o clube não possui condições de arcar com toda a reforma. “Decidimos intervir porque a situação é grave. Mas não temos recursos para realizar a recuperação completa do prédio. Hoje, contamos com 600 sócios e estamos abrindo mão de promover melhorias para eles para poder fazer os reparos”, afirmou.

Ainda segundo Roosevelt, desde que assumiu a diretoria, em janeiro de 2016, ele apela para que o Iphan retome a reforma do casarão. “É um patrimônio nacional, não é um imóvel do clube. O casarão é um bem de extrema importância para Nova Friburgo, já que a história da cidade passa por aqui. Muitos friburguenses não conhecem este espaço e não sabem de sua relevância. Por isso, nosso intuito é reformar o imóvel e abri-lo ao público o quanto antes. Pedimos auxílio ao próprio Iphan e à empresários locais, para que nos ajudem a finalizar a obra até maio de 2018”, pontuou.

O Iphan deu início à reforma do casarão em abril de 2013. Na ocasião, foi feita a recuperação de parte do telhado, a consolidação do forro e a descupinização.  De acordo com a diretoria do Country Clube, porém, a obra, que já havia sido paralisada por diversas vezes, foi interrompida definitivamente em agosto do mesmo ano, por conta de problemas entre o instituto e a empresa licenciada. Na época, a intervenção - com recursos provenientes do Ministério da Cultura - foi orçada em pouco mais de R$ 938 mil.

A VOZ DA SERRA entrou em contato com o Iphan a fim de esclarecer os motivos para o encerramento das obras do chalé e saber se há previsão para a retomada dos trabalhos, mas, até a atualização desta notícia, não obteve resposta.

Ações do tempo e do homem

Além da ação do tempo, ao longo dos últimos 155 anos o imponente chalé passou por diversas transformações decorrentes de reformas e do próprio uso. De acordo com a historiadora Vanessa Melnixenco, no entanto, apesar das intervenções, o prédio ainda conserva características da arquitetura do século 19. Entre elas: as três belas salas logo na entrada do imóvel.

 

“O primeiro cômodo da casa é a sala de música. Aqui aconteciam as festas, por isso há um piano bem ao centro. A sala a direita era reservada aos homens, para que eles ficassem a vontade para fumar, beber e jogar. Já a sala da esquerda era reservada às damas, que tomavam chá e conversavam”, conta Vanessa. Nestes locais, os afrescos e as pinturas das paredes também chamam a atenção pela beleza e riqueza de detalhes. Lustres, quadros e outros itens de ornamentação do século 19 também foram mantidos.

Uma das grandes transformações sofridas pela casa foi a retirada da clarabóia, localizada no jardim interno do imóvel, onde três árvores e um chafariz compõem o ambiente. “Nós achávamos que a estrutura era de acrílico, mas depois descobrimos que era de vidro e que pesava mais de uma tonelada. Foi preciso remover a clarabóia, para aliviar o peso na estrutura do prédio. Além disso, a maioria das infiltrações ocorreram nos pontos onde a clarabóia estava fixada”, explicou Vanessa.

Segundo ela, ainda assim, a maior das mudanças no imóvel foi a inclusão dos toaletes. “Dois dos seis quartos da casa foram transformados em banheiros. Na época em que foi construído o chalé, ainda não eram comuns os banheiros serem instalados no interior dos imóveis. Naquela época, os moradores faziam suas necessidades fisiológicas nos quartos mesmo, em penicos, recolhidos pelos, então, escravos”, exemplifica Vanessa.

Dos áureos tempos do barão à contemporaneidade dos clubes sociais

O Nova Friburgo Country Clube, espaço onde ocorrem grandes festas, feiras e eventos, como a Fepro, Fevest, entre outros, possui uma área de 194 mil metros quadrados, dos quais 180 mil em jardins. Edificada na década de 1860, a casa onde por muito tempo funcionou a sua sede e que pertenceu ao barão, recebeu figuras ilustres da história da sociedade brasileira. Entre elas, o imperador D. Pedro II, que visitou a residência no ano de 1883, quando estava de passagem para Campos dos Goytacazes, onde inaugurou a iluminação elétrica daquela região.

A residência foi denominada de Chácara do Chalet, em menção à casa sede em arquitetura de chalé -- projetada pelo arquiteto Gustav Waehneldt --, e rodeada por jardins de autoria do paisagista francês Auguste Glaziou. Com a morte do barão, a propriedade foi herdada por seu filho mais velho, o conde de São Clemente, ficando conhecida como Parque São Clemente.

Após pertencer à quatro gerações da família Clemente Pinto, em 1913, a propriedade foi adquirida pelo empresário Eduardo Guinle e uma parte dela pelo Nova Friburgo Country Clube, em 1957. Neste mesmo ano, a parte central da propriedade - constituída por lagos, jardins e a casa, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Vanessa conta que o imóvel ficou fechado e sem uso por muitos anos. “Somente em 2009 constataram que seria preciso novas reformas. O casarão voltou a ser fechado e assim permanece, até as obras de 2013”, conta.

 

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