Confusão na Monte Líbano termina com 2 jovens feridos

Agredido teria sido vítima de homofobia, segundo amigos; agressor nega e diz que foi insultado
sexta-feira, 01 de dezembro de 2017
por Adriana Oliveira
Foto de capa
Felipe e a foto que divulgou em seu Facebook (Arquivo pessoal)

Uma confusão no fim da noite de quinta-feira, 30, na calçada em frente a um dos bares mais movimentados de Nova Friburgo, na Rua Monte Líbano, terminou com dois jovens feridos, além de provocar uma onda de reações nas redes sociais. Para os amigos da vítima, o fotógrafo Felipe Fernandes, de 22 anos, que teve o nariz quebrado ao ser agredido com um copo de vidro no rosto, o caso foi um ataque homofóbico. O agressor, Johnnatan Lack, de 24 anos, ficou com a mão cortada. O caso foi registrado na 151ª DP como lesão corporal e está sendo investigado. Caso seja comprovado um episódio de homofobia, o jornal A VOZ DA SERRA se posicionará, como sempre fez, em defesa do respeito à diversidade.

“Chegamos ao bar antes das 19h e ficamos lá dentro até mais alguns amigos chegarem, quando resolvemos ir lá para fora. O local não parecia estar tão cheio, mas tinha uma quantidade considerável de gente ali fora. Tudo aconteceu por volta das 23h, eu estava bem perto e meu amigo veio me falar que tinha um cara querendo arrumar confusão com ele e o outro menino. Falou que ele estava encostando nele e cochichava algumas coisas com um cara que tava do lado dele. O menino agredido com o copo começou a falar: 'Cara, eu não quero você, não estou te encostando'. Até que ele partiu para cima do menino e enfiou o copo no rosto dele. Nós só pensamos em correr atrás do agressor para que ele não fugisse”, contou a universitária amiga da vítima, Rachel Sardou, de 22 anos.

“Estávamos nos divertindo com nossos amigos, não fizemos provocações. Me virei para conversar com algumas pessoas e, quando dei por mim, o Felipe já estava com o rosto ensanguentado e eu fui empurrado. A gente nunca espera que isso vai acontecer. Sinceramente, tenho medo da impunidade”, relata o universitário e amigo da vítima Iago Pereira, de 21 anos.

Felipe comemorava o aniversário de uma amiga, Julielle Peixoto, de 23 anos, naquela noite. Para a jovem, o dia que era pra ser de festa, se transformou em pesadelo. “Não foi uma agressão mútua como o agressor está alegando, foi gratuita. Foi tudo muito rápido. Estávamos em 20 a 25 pessoas, todos felizes, comemorando, e de repente a noite se transformou num inferno. Foi um ato homofóbico, sim, e nós vamos fazer um processo de militância para que isso não fique impune”, disse Julielle.

Tanto Felipe quanto Johnnatan  postaram suas versões publicamente em suas páginas no Facebook, por volta das 14h desta sexta-feira (leia as íntegras abaixo). Na manhã deste sábado, 2, o post de Johnnatan já tinha sido apagado.

Ao jornal A VOZ DA SERRA, Felipe disse não se lembrar se o ataque foi homofóbico, de tão rápido que aconteceu. Mas que, se os amigos dizem que houve homofobia, ele acredita que de fato houve. Felipe contou que estava no bar e, como o local estava muito cheio, o grupo ficou na calçada, do lado de fora. Após pagar a conta e levar o último chope para fora do estabelecimento, esbarrou, sem querer, em Johnnatan, a quem não conhecia, e este pediu que saísse de perto e não se encostasse mais. Felipe negou que tenha provocado e ofendido o agressor. "Apenas disse que não sairia. Quando dei por mim, era só sangue", afirmou.

Há cinco meses Felipe foi vítima de outra agressão, desta vez por parte de um segurança de uma boate em Duas Pedras. Ele diz que foi defender um amigo e acabou levando uma cabeçada do segurança. O jovem registrou queixa, mas até hoje o caso não foi solucionado. "Foi uma covardia, e vou até fim. Perdoo, não guardo rancor, mas quero que ele pague pelo que fez", disse Felipe referindo-se a Johnnatan.

Com o golpe, Johnnatan Lack teve a mão cortada pelos cacos de vidro. Até a atualização desta notícia ele não respondeu a dois pedidos de entrevista para A VOZ DA SERRA, alegando que estava hospitalizado, fazendo exames. Tanto ele quanto a vítima foram levados para o Hospital Municipal Raul Sertã, mas Felipe já recebeu alta.

Felipe disse que aguarda o nariz desinchar para saber se será necessário uma cirurgia. Já Johnnatan negou preconceito contra gays, disse em seu post ter sido provocado, admite que perdeu a cabeça e pediu desculpas pelo ocorrido.

O Bar América, em frente ao qual ocorreu a agressão, fará na próxima segunda-feira, 5, um ato de desagravo, o "Sou amigo da diversidade", contra a homofobia.  Confira abaixo as postagens dos envolvidos.

 

O que diz Felipe Fernandes, a vítima:

"Sangue. Desespero. Ódio. Violência.

Nunca vi tanto sangue na minha vida, olhava para as minhas roupas, para as minhas mãos, para o chão e estava tudo vermelho. Não sabia direito o que estava acontecendo, não sabia que a causa tinha sido um copo de vidro quebrado no meu rosto.

O estado de choque é tão grande, às vezes você só entra em desespero. Foi o que aconteceu comigo. Pensei que fosse meu fim. Tinha muita gente em volta, muita gente querendo ajudar, muita gente falando ao mesmo tempo. Tenho vagas lembranças desses momentos, são lembranças que vão me assombrar para o resto da vida.

O ser humano às vezes é fraco. Às vezes deixa o ódio vencer. Ontem ele venceu. Eu peguei por isso. Hoje eu sou uma estatística por causa do ódio.

Meu nome é Felipe, tenho 22 anos, sou fotógrafo e meu agressor quase me deixou cego. Além de violentar meu corpo, ele quase me tirou o que eu mais amo fazer. Ele foi violento, foi frio, foi desumano. E ele fugiu. Será mesmo que ele fugiria se tivesse razão?

Eu pensei muito antes de me expor, antes de expor o que aconteceu, mas não adianta, todo mundo já está sabendo e todo mundo procura por resposta em uma cidade pequena como essa, onde quase todo mundo se conhece.rr Quando eu parei para tentar analisar as coisas, tentar lembrar, eu percebi que tudo aconteceu por um motivo banal.

Vamos lá: a calçada do bar América é estreita, as pessoas se esbarram o tempo todo. Natural, certo? Não, para algumas pessoas não é natural. Para algumas pessoas é motivo para iniciar uma discussão.

Eu tinha voltado do caixa do bar, já tinha pagado minha conta, já estava pensando em ir embora. Voltei para o mesmo lugar de onde passamos a noite toda comemorando o aniversário de uma amiga. E ele estava lá. Eu esbarrei nele, não foi proposital. Ele não foi simpático ao dizer que não queria que eu não encostasse nele. Pediu para que eu saísse de perto, mas eu estava naquele exato local a noite toda com meus amigos. Talvez se eu saísse, teria evitado tudo isso. Mas porque eu deveria sair e não ele?

Ele cortou a mão porque usou a própria para levar um copo de vidro até meu rosto. Vi algumas pessoas dizendo sobre agressão mútua, mas eu não levantei um dedo para agredi-lo.

Não tenho mais nada a dizer. Agora eu só quero justiça."

 

O que disse Johnnatan Lack, o agressor:

"Venho aqui trazer a minha versão sobre os fatos ocorridos ontem à noite na Rua Monte Líbano.

De início, digo que as fotos divulgadas do local da briga com todo aquele sangue, causar certa comoção, o que não deveria ser diferente, mas informo que todo aquele sangue esvaiu-se de minha mão, e um pouco do suposto agredido, me encontro internado e terei que fazer cirurgia.

A realidade dos fatos não é a que está sendo propagado, esse fato lamentável ocorreu por uma discussão e logo após uma briga, afirmo que de forma alguma foi por homofobia, pois todos que me conhecem sabem que não sou homofóbico, tenho o maior respeito pela opção sexual de cada um, não tenho problemas em lidar e conviver pacificamente com homossexuais, tenho muitos amigos homossexuais que podem comprovar o que afirmo.

Repito, quem me conhece sabe que nunca faria nada contra uma pessoa por ser homossexual ou de outro gênero que não heterossexual.

Agora, respeitar as pessoas é o mínimo que se espera para um convívio saudável e harmônico, não sou obrigado aceitar provocações e insultos verbais, seja de homossexual ou heterossexual.

Fui constrangido, pedi por várias vezes que me deixasse em paz, mas o cara queria briga, como tinha bebido, perdi a cabeça, sou o maior prejudicado e, ainda estou sendo tachado de homofóbico.

Hoje em dia, pessoas com má índole se valem da sua opção sexual para tentar incriminar outras por simplesmente não se simpatizarem com ela.

Peço desculpas a todos, principalmente à minha mãe, que esá muito sentida com tudo isso".

 

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