Combate ao câncer tem até dia oficial. Falta tratamento amplo pelo SUS

Com obra de hospital ainda parada, friburguenses precisam se deslocar para outras cidades para fazer quimioterapia e radioterapia
sábado, 25 de novembro de 2017
por Ana Borges e Alerrandre Barros
Foto de capa
O futuro Hospital Estadual de Oncologia da Região Serrana: obra sem verba (Arquivo AVS)
O Dia Nacional de Combate ao Câncer, 27 de novembro (nesta segunda-feira), foi criado em 1988 com o intuito de ampliar o conhecimento da população sobre as formas de prevenção e de tratamento da doença. Tudo muito correto, não fosse o fato de que a grande parte da população, que não pode pagar por tratamento na rede particular, sofre duplamente: pela gravidade da doença e para ser atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

"São vidas humanas que estão em jogo, pessoas que estão lutando por suas vidas"

Melissa Romanelli

Em Nova Friburgo, há unidades de tratamento privadas para o tratamento do câncer, como o Centro Oncológico de Niterói (CON), no Hospital Unimed, e a clínica Onco DeVita. Mas pacientes que dependem do SUS precisam se deslocar para cidades como Teresópolis, Petrópolis ou Rio de Janeiro para fazer cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, atualmente 25 pacientes estão cadastrados para realização de tratamento fora, transportados em vans. Muitos, porém, não retornam para informar o setor se receberam alta por cura ou óbito.

Para a presidente da Associação da Mulher Mastectomizada (Amma), Maria Helena Moraes dos Santos, o processo seria menos doloroso se o Hospital Estadual de Oncologia da Região Serrana (o hospital prometido para Friburgo, na Ponte da Saudade) tivesse sido entregue no ano passado, conforme previa o cronograma.

“É uma rotina pesada para os pacientes e acompanhantes. Muitos vão de van, passam o dia no hospital, saem de lá passando mal, e ainda precisam enfrentar uma viagem que dura quatro, cinco horas, dependendo de onde moram. Outros precisam ficar 20, 30 dias hospedados na cidade. Imagina quanto dinheiro é necessário para isso? Muitos não têm recursos. O SUS reembolsa, mas o paciente precisa pagar antes”, afirma Maria Helena.

Num país em que os hospitais públicos, sem exceção, estão à míngua, onde os mais elementares cuidados inexistem, onde faltam médicos, insumos, material de higiene e tudo o mais, não surpreende, embora revolte, que pessoas com câncer tenham que passar por um verdadeiro calvário para tentar tratar a doença antes que venha a óbito. O que acontece, lamentavelmente, com certa frequência. Menos mal que alguns consigam se cuidar, como a fisioterapeuta Rachel Emmerick e Maria Eduarda Rona Romanelli Jorge, a Duda, esta de apenas 12 anos. Rachel retirou um tumor do seio e Duda, do ovário. Por Duda fala sua mãe, a advogada Melissa Rona Romanelli. Em seguida, o relato de Rachel Emmerick.

"Temos que ir ao Rio toda semana para consulta e exames"

“Descobrimos o tumor da minha filha em maio deste ano, quando a Duda começou a sentir fortes dores no abdômen. Os exames mostraram um tumor em cada ovário: o do ovário esquerdo estava com 5cm e em um mês aumentou para 14cm. Ela foi imediatamente internada e o tumor totalmente removido na cirurgia. O ovário já havia sido rompido. Em seguida teve início a quimioterpaia para tratar o tumor do ovário direito.

Optamos pelo Inca (Rio) por ser uma instituição de referência no país, cujo atendimento é excelente. Salvaram a vida dela. Mas, infelizmente, em Friburgo não tem tratamento pelo SUS. Temos que ir ao Rio toda semana para consulta e exames. Cada sessão de quimioterapia dura em torno de três dias, oito horas diárias, a cada 21 dias. Arcamos com todo o custo de transporte e local para hospedagem.

Eu sou muito otimista. Sempre fui e agora mais ainda. Para mim, só existe o melhor. A Duda também é assim, como eu, alegre e otimista. Só agradeço, pois vemos muitas coisas tristes no Inca. Somos assim.

Acho que o nosso tão sonhado Hospital do Câncer salvaria muitas pessoas. Precisamos desse tipo de  referência aqui, que atenda todo o interior, pois hoje só contamos com o Inca que atende todo o estado pelo SUS. São vidas humanas que estão em jogo, pessoas que estão lutando por suas vidas, durante meses longe de suas casas, com as famílias separadas num momento tão de tanta fragilidade. Este hospital oncológico seria uma esperança para cada uma dessas famílias, que já sofrem tanto quando descobrem a doença.” (Melissa Romanelli)

"Logo percebi que teria que encarar isso de frente e foi o que fiz"

“Descobri o meu tumor numa consulta de rotina. Fiquei sem chão por alguns segundos. Mas não me desesperei. Logo percebi que teria que encarar isso de frente e foi o que fiz, com o apoio da minha filha, dos amigos, da família. Acho que me considero forte e otimista, mas também acho que aparento mais essa fortaleza do que realmente sou. Mas tento ser forte e otimista, porque acho que o melhor caminho é esse.

Minha primeira quimioterapia foi ontem, dia 23, eu estava muito ansiosa. A espera é angustiante, a gente ouve falar tanta coisa sobre esse tratamento… Mas na hora, em companhia de outros pacientes na mesma situação que eu, de pessoas atenciosas, agradáveis, fui relaxando e agradecendo a oportunidade de poder me tratar. Aí ficou tudo bem, embora depois a gente não fique tão bem assim. São comuns aquelas reações à químio, mas eu não tive sintomas muito fortes dessa vez.   

Agora é aguardar. Eu sei o que vai acontecer, tenho uma nova sessão daqui a 21 dias, meu cabelo pode cair, mas isso não me assusta. Me preocupam mais os sintomas, os enjoos, essas coisas que são mais desagradáveis. Fiz a primeira de seis ciclos, agora faltam cinco.

O apoio da minha filha é fundamental, ela é tudo o que tenho. É nela que eu encontro forças para tudo isso, é por ela que eu preciso ser forte e lutar. Ela acaba de completar 18 anos, ainda depende muito de mim. Eu olho para ela e penso: ‘Não posso decepcioná-la. Sou pai, sou mãe, ela só tem a mim’. Então, eu vou vencer, por ela, por mim, mas, principalmente, por ela.

Eu não preferi me tratar em Teresópolis, foi uma indicação do meu médico. E foi melhor assim, porque é mais próximo de Friburgo, e, de fato, estou encantada por tudo que encontrei lá, no serviço de oncologia do Hospital São José. É um serviço de primeira, desde a recepcionista até a equipe médica. Fui muito bem atendida e estou satisfeita, desde o início.               

Quanto ao esperado Hospital do Câncer aqui, fico decepcionada. Ver aquelas obras paradas, com tantas promessas não cumpridas, e tanta gente precisando do tratamento. Quando a gente se vê nessa situação, cercada de ‘trocentas’ pessoas vivendo o mesmo drama, a gente pensa em como seria tudo menos doloroso se tivéssemos esse serviço aqui.” (Rachel Emmerick).

Em 2 anos, obras do Hospital do Câncer só avançaram 15%

Estima-se que o Hospital do Câncer, numa área tranquila, cercada pelo verde da Mata Atlântica, vai contar com 200 leitos, sendo 30 destinados a crianças. Estão previstas cerca de 300 consultas por dia e até quatro mil cirurgias por ano.

Iniciadas em 2015, as obras no Hospital do Câncer, na Ponte da Saudade, só avançaram cerca de 15%. Desde o primeiro semestre de 2016, o canteiro está parado por negligência do governo do estado. No próximo dia 14 de dezembro vence o contrato da Secretaria estadual de Obras com a Caixa Econômica Federal, responsável pelo repasse de recursos do Ministério da Saúde. O estado pediu a prorrogação do convênio por mais 12 meses, mas o banco informou que “o pedido só pode ser analisado após a regularização das pendências, até a data limite de 14/12/17, com vistas ao imediato início do objeto contratado”.

No início de novembro, o governador Luiz Fernando Pezão entregou ao secretário estadual de Saúde, Luiz Antônio Teixeira Júnior, a coordenação dos trabalhos de retomada das obras, que estava a cargo somente da Secretaria de Obras. A mudança ocorreu depois de uma reunião de Pezão com o deputado friburguense Wanderson Nogueira (Psol), que vem acompanhando o caso e alertou o governador sobre os prazos.

Teixeira viria a Friburgo, no último dia 3, para uma vistoria no canteiro de obras, mas a vinda foi suspensa porque o secretário fez adaptações na planta do hospital, que devem reduzir, por exemplo, o número de consultórios, de 20 para dez. Segundo ele, parte desses consultórios ficariam vazios. A estratégia visa também a entregar o hospital em dezembro de 2018, quando termina a gestão de Pezão.

Além disso, há outras pendências do governo do estado com a CEF. Em agosto, durante uma audiência pública na Alerj, realizada por Wanderson Nogueira, representantes do banco explicaram que havia entraves para a liberação de recursos por parte da União. Orçada em R$ 45,7 milhões, as obras no imóvel onde funcionou, na década de 1990, o Centro Adventista de Vida Saudável (Cavs), começaram em 2015 sem o aval da Caixa e somente com recursos do estado.

Agora, Pezão corre contra o tempo para prorrogar o contrato com o banco, caso contrário, será necessário novo processo de licitação. O Ministério Público Federal (MPF) está investigando a omissão do governo do estado. 

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