Ciências sem Fronteiras chega ao fim: dois anos depois, jovens contam o que mudou

Entrevistados por A VOZ DA SERRA em 2015, friburguenses tiveram a oportunidade de viver fora do Brasil
sexta-feira, 05 de maio de 2017
por Karine Knust
Foto de capa
Fernanda Reis, que foi para a Inglaterra estudar pelo Ciências sem Fronteiras em 2014

​Há cerca de dois anos acompanhamos a rotina de seis jovens que saíram de Nova Friburgo rumo a outras culturas: Katerine Knust, Thiago Kirazian, Conrado Trigo, Fernanda Reis, Janderson Knust e Luana Matsuoka. Eles eram participantes do programa federal de educação Ciências sem Fronteiras.

Com eles, passamos pelos Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Inglaterra, Austrália e até Japão. A experiência, claro, foi muito enriquecedora para todos e bastante interessante para nós, que conhecemos um pouco da rotina de ser um universitário em intercâmbio. De acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) — enviados ao A VOZ DA SERRA em junho de 2015 — só pelo programa CsF, 33 jovens friburguenses tiveram a oportunidade de viver por cerca de um ano fora do Brasil.

Uma chance que se tornou, de fato, um grande privilégio para quem conseguiu ingressar no CsF, já que, pelo visto, todos os seis estudantes entrevistados pelo jornal fizeram parte da “raspa do tacho” do programa. No início deste mês de abril, o Ministério da Educação anunciou o fim do Ciências sem Fronteiras para alunos de graduação.

De acordo com nota divulgada pelo MEC, o CsF para graduação encerrou com o último edital de 2014, ainda no governo Dilma, e mantém apenas os bolsistas remanescentes desta época, número que chega a quatro mil. A justificativa para pôr fim à iniciativa, que proporcionou experiências fora do país para quase 100 mil brasileiros, seria financeira.

Segundo a pasta, a atual gestão encontrou o programa com dívidas elevadas deixadas pelo governo anterior e estudantes no exterior sem recursos. Por isso, em julho de 2016, após uma avaliação da modalidade graduação, o MEC chegou à conclusão de que o custo para manter os alunos estudando fora do país seria alto demais. Eram 35 mil bolsistas de graduação a um custo médio no exterior de R$ 100 mil por ano. Só em 2015, o Ministério destinou R$ 3,7 bilhões para manter o Programa Ciência Sem Fronteiras, o mesmo valor investido na merenda escolar de 39 milhões de alunos da educação básica no país.

Para quem ainda nutria expectativas em passar pelo programa, o sonho acabou. Mas e aqueles que conseguiram usufruir do benefício? Surge a curiosidade: O que têm feito? Já se formaram? Como avaliam a experiência de intercâmbio? Acreditam que fez a diferença para a vida profissional? Têm críticas sobre o programa CSF? O que acharam do término?

Reunimos cinco dos seis jovens de Nova Friburgo que participaram do CsF no período de 2014/2015 e foram entrevistados por A VOZ DA SERRA em junho de 2015 na série “Friburgo sem Fronteiras” para saber como está a vida quase dois anos depois. Confira o depoimento de cada um deles.

Katerine Knust - 25 anos - Nutrição - Estados Unidos

“Me formei no início deste ano. Hoje sou casada e tenho uma filha, Luna, de um mês de vida. Desde que voltei dos Estados Unidos, em meados de 2015, percebi que o intercâmbio realmente é um diferencial. Ter feito CsF abriu muitas portas para mim. Ter essa experiência faz diferença até em seletivas para estágio. Morava no Rio desde 2010, mas voltei para Nova Friburgo assim que terminei o curso. Dei uma freada temporária na vida profissional, principalmente por causa da gravidez. O intercâmbio foi maravilhoso, não só pela experiência profissional, mas pela pessoal. Acho que jamais conseguiria fazer um intercâmbio se não existisse esse programa. Ele me fez voltar com um olhar mais crítico ao método de ensino do Brasil também. A universidade brasileira não nos prepara muito como profissional, mesmo que seja uma instituição focada em pesquisa, não temos muita prática. Lá nos Estados Unidos as aulas nos preparavam mais, ensinando a lidar com softwares, por exemplo. Quanto às críticas, acho que o programa deveria autorizar estágio desde o início. No meu caso, por exemplo, fiquei dois semestres tendo aula e só depois fiz um estágio de verão, que durou apenas dois meses. Acho que essa experiência deveria acontecer desde o início do intercâmbio, por mais que eu tenha conseguido publicar o capítulo de um livro que participei, o que será muito bom para o meu futuro profissional, acho que dois meses é pouco tempo para produzir. Além disso, o programa deveria ser mais rígido e criterioso em relação a nota e desempenho acadêmico dos estudantes. É uma pena o intercâmbio ter acabado para graduação. Mesmo que deixe a desejar em alguns fatores, ele, com certeza, fez muita diferença para todos que foram para lá, principalmente pelo inglês, vivência e o olhar crítico”.  

 

Thiago Kirazian - 22 anos - Engenharia Mecânica - Canadá

“Após 1 ano e 8 meses morando no Canadá, retornei ao Brasil em fevereiro de 2016. Primeiro, queria dizer que não queria voltar. Mas, infelizmente, não consegui autorização do CNPQ para ficar. No contrato com o governo, eu assumi a obrigação de voltar para o Brasil e permanecer aqui pelo mesmo período que fiquei no Canadá. Não foi fácil aceitar isso e largar tudo que eu tinha construído lá, meus amigos, minhas rotinas, minha liberdade e meus planos. Voltei para minha faculdade e foi muito ruim encarar todos os problemas de infraestrutura da UFRJ. Falta de professores, salas de aula com faltas de cadeiras, professores que não apareciam e até mesmo falta de livros na biblioteca. Então, tomei um decisão e tranquei a UFRJ, enquanto trabalho e estudo na Estácio aqui em Friburgo. Ao final de 2017 completo minha obrigação de permanência no Brasil e já faço planos para o exterior novamente. A experiência do CSF é incrível e com certeza mudou minha vida por inteiro. O programa me deu uma outra visão de mundo, de qualidade de vida e, principalmente, de futuro. Meus planos de vida são outros agora e com certeza devo isso ao programa. Críticas? Sim, as tenho. Apesar do programa ser fantástico, poderia ser muito mais aproveitado. Mas, pra mim, a maioria das críticas seriam mais relacionadas a estrutura de ensino no Brasil, que não segue nenhum modelo internacional, nenhum padrão adequado e nenhuma visão de mundo. Esses problemas refletem diretamente no programa e acaba fazendo com que o mesmo seja menos proveitoso. Alguns dos contras que vejo no programa são: a equivalência de disciplinas, as instruções da faculdade brasileira e o acompanhamento do estudante. Acho uma grande pena o término do programa. Alguns alegariam que é muito dinheiro e que deveríamos investir na educação interna primeiro. Mas a grande verdade é que o problema da educação interna não está no investimento e sim na corrupção e erros de administração. As universidades no Canadá são instituições filantrópicas e que recebem investimento do governo. Lá, é tudo bem transparente e tive acesso ao valor médio gasto por aluno no período de um ano. E esse valor, mesmo depois das conversões, é absurdamente menor do que o que gastamos com um aluno do ensino superior aqui. Ou seja, o dinheiro está sendo investido, só não está indo pra onde deveria”.

 

Conrado Trigo - 25 anos - Zootecnia - Irlanda

“Eu ainda não me formei, mas estou no fim do curso. Se Deus quiser, formo no fim do ano. Continuo morando em Seropédica, cidade onde estudo. O Csf foi uma experiência ímpar na minha vida, que deixou uma saudade absurda, tanto dos lugares como das pessoas. Não tem um dia que eu não lembre de algo relacionado ao intercâmbio. O programa foi um divisor de águas na minha vida acadêmica, principalmente pelo aprimoramento no inglês. Acredito que essa experiência vai me ajudar muito mais ainda na minha vida pós-formado. Dentre alguns problemas do Csf, um que eu vi bastante foi que muitas pessoas foram mandadas para universidades que não tinham seus respectivos cursos. Isso atrapalhou um pouco esses estudantes. Muitos deles ficavam desistimulados e passavam a não ir às aulas por conta disso. No meu caso, eu dei sorte por ficar em uma universidade que tinha um curso similar ao meu. Também não havia uma cobrança em relação a frequência dos alunos. Fiquei triste com o fim do CsF, porque o programa proporcionou o estudo no exterior para muitas pessoas, que talvez não teriam condições de ir por conta própria. Era uma forma mais simples de ir estudar no exterior. Ainda há outros meios para tal, mas a maioria são muito caros”.

 

Fernanda Reis - 23 anos - Arquitetura e Urbanismo - Inglaterra

“Eu ainda estou na faculdade, falta pouco pra me formar. Quando cheguei do intercâmbio me reuni com uns amigos que também tinham acabado de voltar do Ciências sem Fronteiras pra participar de um concurso de urbanismo, já que a universidade aqui estava em greve e eu não queria ficar ociosa. O resultado foi ótimo, ficamos entre os cinco finalistas em todo o Brasil e fomos premiados, com direito a coquetel super chique em São Paulo e publicação do nosso projeto em revista prestigiada de arquitetura.  Acho que as experiências que cada um viveu no lugar onde ficou ajudaram no resultado do nosso projeto. Depois eu estagiei por um tempo e agora estou envolvida com projeto de pesquisa na universidade e fazendo projetos de reforma para pessoas conhecidas. O CSF foi uma experiência que me trouxe recompensas não só em âmbito profissional e acadêmico, mas também me trouxe mais maturidade e me fez uma pessoa com grande capacidade de resiliência. Dá bastante saudade! Sem dúvida me tornei uma profissional melhor depois de ter passado por essa experiência, depois de ter mergulhado numa imensidão de referências e ter vivenciado o cotidiano e a cultura de diferentes pessoas e lugares. Isso é essencial para a carreira de uma arquiteta e urbanista, já que a arquitetura não é simplesmente conceber um edifício, e sim olhar para as pessoas, seus hábitos e necessidades, para então criar algo. Fico muito triste com o fim do CsF, pois muitas pessoas não terão a oportunidade que eu tive. É verdade que algumas pessoas não fizeram bom proveito do benefício, no sentido de se comprometer com os estudos acadêmicos, o que vi que gerava muita revolta já que se tratava de dinheiro público. Entretando, ao meu ver o programa era um imenso incentivo e investimento na área da educação, coisa que país algum fez, mas cabia a cada um saber aproveitar ou não. Talvez minha única ressalva é que houvesse maior fiscalização no desempenho dos bolsistas por parte da Capes ou Cnpq. Talvez também faltassem diretrizes sobre que perfil de estudantes deveriam ser beneficiados. Mas nada disso apaga a excelência do programa e os benefícios do mesmo”.

 

Luana Matsuoka - 23 anos - Engenharia Ambiental - Japão

“Atualmente moro em Viçosa, cidade onde estava antes de ir para o Japão. Me formo em Engenharia Ambiental em janeiro de 2018. O intercâmbio fez uma diferença imensa na minha vida como um todo, principalmente na minha formação como pessoa. Este um ano fora me fez abrir os horizontes para muitas possibilidades. Mas, mesmo assim, acho que poderia ter aproveitado mais tanto no que diz respeito a iniciativa minha quanto a cobrança mais rígida em relação ao governo, como entrega de relatórios e tudo mais. Academicamente, se eu tivesse a oportunidade de voltar no tempo, teria levado o intercâmbio mais a sério procurando pesquisa ou iniciação científica. Por isso, agora estou procurando fazer um outro intercâmbio para a Holanda. É um processo seletivo mais difícil, mas resolvi me inscrever usando a cabeça de ir e desenvolver pesquisas. Até esse lado negativo me fez perceber que é preciso levar as coisas mais a sério e aproveitar as oportunidades que são apresentadas durante a faculdade. Amadureci muito. Ainda não me formei, mas acredito com certeza que essa experiência vai fazer muita diferença. Além de reforçar o inglês, acabei aprendendo um pouco de japonês e isso é um diferencial. Existem alguns programas de pós-graduação e mestrado, inclusive direcionados para o Japão, e essa experiência pelo CsF pode me abrir portas para voltar a estudar lá. A ideia do programa era muito boa, a única coisa que acho que deveria ser melhorada era a obtenção de resultados e o critério de seleção de alunos. Muito triste ter acabado”.

 

Pós-graduação

Atualmente, o Ciência sem Fronteiras permanece focado em outras modalidades. De acordo com o MEC, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior discute novas estratégias de internacionalização e apoio à excelência nas universidades. A Capes ainda mantém editais para bolsas de pós-graduação, pós-doutorado e estágio sênior no exterior. Este ano, cerca de 5 mil estudantes têm recebido bolsa nestas categorias.

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