A cidade dos sonhos por Duda Porto: de pai para filho

"Chegou a hora de olhar para uma NOVA Nova Friburgo, que com o tempo se transforma e chega uma hora que tem que se reinventar"
sábado, 11 de novembro de 2017
por Duda Porto
Foto de capa
O arquiteto e urbanista Duda Porto (Arquivo pessoal)
Já se passaram mais de 35 anos e ainda lembro das minhas madrugadas acordadas vendo e acompanhando meu pai empolgado, desenhando projetos para a cidade de Friburgo.

"Temos que criar uma cidade viva, sustentável, limpa e inteligente"

Duda Porto

Parece que foi ontem. Consigo lembrar dos detalhes de um projeto de requalificação das margens do Rio Bengalas, no Centro. Era uma praça linear que, além de proteger a encosta do rio, dava vida e qualidade para a população. Desenhava os caminhos, os bancos, o guarda-corpo, as luminárias, o paisagismo, sempre priorizando o pedestre.

Durante esses momentos em que eu observava e apreciava os traços de um empresário que nunca foi arquiteto, mas que era apaixonado pela arquitetura e impulsionado pela necessidade de transformação. Que se incomodava com a inércia das pessoas, sempre pensava além e de forma positiva, era sonhador, pois sabia que esse era o primeiro passo da realização.

No jardim de projeto que ele criava tinha uma famosa plaquinha de informação com os dizeres: “Respeite o turista”.

Meu pai sempre amou a cidade que escolheu para criar seus três filhos. Escolheu porque soube que aqui tinha o melhor clima do país, escolheu porque nossa cidade tinha montanha, tinha verde, tinha vida.  Sabia também que aqui seus filhos poderiam crescer com qualidade de vida e segurança, que o tamanho da cidade poderia permitir a descoberta de verdadeiras amizades.

Meu pai era oficialmente um arquiteto que projetava pão, e na sua padaria, a Casa Branca, ele criava, inventava e copiava vários tipos de pães. Lembro quando lançou o croissant, que na época ainda não existia no Brasil, importou a ideia de uma viagem que fez com minha mãe a Paris. Aliás, aproveitar grandes ideias era uma outra qualidade que ele tinha.

Lembro também quando ele tentava, sem conseguir me explicar, o motivo de a Avenida Alberto Braune, a Rua do Arco e várias outras ruas mudarem de sentido diversas vezes sem planejamento e nunca privilegiando o pedestre, o convívio e a  harmonia entre o cidadão e a cidade.

Sempre dizia para eu imaginar uma Alberto Braune sem carros, sonhava transformar o imóvel da sua padaria em uma grande galeria comercial com luz natural, onde as pessoas poderiam transitar e atravessar da Alberto Braune até a Avenida dando de encontro com o seu parque linear.

Até que, no mesmo ritmo que nosso viaduto se transformava sendo pintado de verde ou azul de acordo com o lado da prefeitura, nossas estradas foram abandonadas, nossos governantes começaram a ficar mais preocupados com suas sobrevivências políticas do que com a própria cidade.

Com isso, do outro lado, nossos vizinhos serranos começam a prosperar, devido à facilidade de acesso à capital, com estradas novas e uma mídia voltada para a  qualidade de vida. Começamos a perder nossa fonte de renda mais valiosa: nossos turistas. Aquela plaquinha de meu pai, “Respeite o turista”, já não adiantava mais.

Imagina se pudéssemos canalizar toda a energia dessa cidade que transborda natureza em um ciclo vicioso de planejamento, controle e ação? Com certeza podemos ser uma referência para várias outras.

Estamos vivendo um momento de revolução tecnológica e sempre os períodos de revolução impulsionam mudanças radicais. Temos que aprender com o passado e evitar cometer os mesmos erros. Este momento me faz lembrar a época da revolução industrial, onde o ritmo acelerado pelo crescimento atropelou critérios básicos de qualidade. As indústrias eram construídas nas margens das vias aquáticas contaminando totalmente os rios. Começam a existir uma diferença entre as classes e as menos favorecidas vivem de forma precária. Os trilhos eram construídos de forma a ignorar a qualidade humana.

Cada vez mais estamos aprendendo a entender e respeitar a força da natureza. Sabemos que ela nos dá todas as respostas e opções. Temos que criar uma cidade viva, sustentável, limpa e  inteligente. Um lugar que pensa primeiro nas pessoas, que tenha regras claras, transparentes e eficientes.

Temos que ter uma hierarquia viária que desafogue a cidade, pontos nodais e criar corredores verdes. Precisamos criar novas centralidades, dando mais qualidade de vida e economia para os habitantes.

Vamos resgatar, limpar e proteger a história da arquitetura da nossa cidade, nossa tipologia arquitetônica tem que ser preservada através de leis claras e incentivos. Uma cidade precisa de marcos arquitetônicos. Vamos criar mais pontos de encontros e trazer o habitante para o convívio.

Precisamos investir na zona industrial trazendo mais emprego e valor para nossa cidade. Sabemos que quando queremos conseguimos as coisas. Em pouco tempo já estamos nos tornando uma referência na produção caseira de cerveja. Olhando para o nosso entorno temos uma zona de Influência grande que precisa ser mais bem explorada. Precisamos criar um organismo vivo que com o foco no ser humano, cria artérias e conexões inteligentes que alimentam e conectam todos os núcleos de forma produtiva e compartilhada.

Seguindo alguns conselhos de meu pai, vamos olhar para exemplos positivos e trazer para dentro da nossa cidade. Dessa forma, arrumaremos nossa casa e chamaremos de volta nossos turistas para uma visita, e aí poderemos novamente levantar nossas plaquinhas.

Chegou a hora de olhar para uma NOVA Nova Friburgo, que, como qualquer outra cidade, com o tempo se transforma e chega uma hora que tem que se reinventar.

Aprender com o passado, olhar para o futuro e descobrir como podemos ser mais eficientes. Vamos salvar nossa natureza, defender nossos história, e criar novas oportunidades para todos.Vamos planejar para os próximos 200 anos uma Nova Friburgo forte e orgulhosa.

Duda Porto é arquiteto e urbanista.

 

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