Câmbio da Clarissa: uma ideia que incentiva o consumo consciente

Jovem friburguense cria evento que renova o guarda-roupa de forma sustentável
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
por Karine Knust
Foto de capa
Criado em 2017, evento tem a 3ª edição neste domingo (Fotos: Felipe Ponce)

Um vestido guardado há muito tempo. Aquela camisa estilosa, mas que já enjoou. A calça que não entra mais. Atire a primeira pedra quem nunca comprou uma peça de roupa por impulso ou mantém uma roupa no armário por anos mesmo sabendo, lá no fundo, que não vai mais usá-la. Em um mundo cada vez mais capitalista, ser atraído pelo hábito de consumir de forma exagerada ainda é muito comum. Resultado: o armário lotado nem sempre é sinônimo de muitas opções para vestir.

Agora, imagina que bom seria pegar todas essas peças que estão ocupando espaço no armário e substituí-las por outras que, com certeza, serão mais utilizadas? E tudo isso sem ter que investir muito na compra de itens novos. Uma beleza, né? Pois essa é a proposta do “Câmbio da Clarissa”.

Criado pela jovem friburguense Clarissa Bento, de 19 anos, o evento segue o conceito “clothing swap” (troca de vestuário) - famoso nos Estados Unidos e países da Europa. Funciona da seguinte forma: Cada participante deve levar cinco peças de roupa; durante o câmbio, as peças ficam expostas em araras; a partir de determinado horário, as araras são abertas e cada um pega um número de peças referente às que levou.

Talvez você esteja se perguntando: “E quem garante que as roupas serão boas para troca?” Simples, para garantir que tudo esteja em bom estado, os itens, devidamente identificados pelas donas, devem ser deixados em pontos de coleta (normalmente localizados em alguns estabelecimentos parceiros) dias antes do evento. Em seguida, eles são recolhidos pelos organizadores, que verificam as condições das peças e separam por tamanho.

Consultora de moda e blogueira, a jovem que dá nome ao evento conta que sempre foi  adepta dos brechós e admiradora da moda sustentável. “Vivemos em uma sociedade extremamente consumista, mas ações ligadas à sustentabilidade no setor fashion vêm progredindo. E acho importantíssimo que esse assunto seja relevante no meio. Cada ideia de reutilizar peças de roupa, trocar ou comprar peças de segunda mão é uma forma de diminuir o consumo em massa e transformar os pequenos detalhes em hábitos que acarretam melhorias ao nosso estilo de vida”, acredita ela.

Treze amigas e um armário viajante

Iniciado em outubro de 2017, o câmbio surgiu depois de uma reportagem. “Minha mãe e eu estávamos assistindo um programa na televisão sobre um guarda-roupa sustentável. A matéria mostrava umas amigas que se reuniam para trocar roupas que já não usavam mais e que estavam em bom estado. Foi quando minha mãe falou: ‘Clarissa, porque você não faz isso com suas amigas?’ E assim surgiu o câmbio”, conta.

Clarissa resolveu ouvir a mãe e juntou um grupo de 13 amigas. Elas juntaram todas as roupas que tinham e não queriam mais, organizaram em duas araras ali mesmo, no quarto de Clarissa, e começaram a trocar. Não demorou para a ideia se espalhar e a despretensiosa ação de “renovar” o guarda-roupa, trocando peças, se transformar em um verdadeiro sucesso.

“Todas as meninas saíram comentando e eu comecei a receber várias mensagens de amigas das minhas amigas que queriam ir no próximo. Então veio a segunda edição do câmbio, só que dessa vez um evento maior, para 50 pessoas”, revela.

Para organizar tantos detalhes, além de conseguir empresas para patrocinar o evento oferecendo produtos e alimentos, Clarissa contou com a ajuda de um casal de amigos, os fotógrafos e influenciadores digitais Rafaella e Felipe Ponce, que foram os idealizadores da edição.

“Eu acredito que o futuro está reservado para pessoas de mente como a da Clarissa e por isso decidi me juntar a ela nessa ideia. O câmbio pra mim é a forma mais legal que já vi de fazer dois comunicados muito importantes para a nossa geração. O primeiro, é que a gente precisa, desesperadamente, deixar nosso egoísmo de lado e ajudar as pessoas mais necessitadas. E o segundo, é que o consumismo se tornou a marca registrada da nossa geração, mas a verdade é que estamos cada vez mais insatisfeitos e vazios e o consumo desenfreado tem sido o nosso vício pra tentar preencher essa falta que temos, de algo mais”, ponderou Rafaella, acrescentando: “A ideia de incentivar o consumo consciente, me fez repensar meus valores e tentar ser alguém melhor”.

A 3ª edição do Câmbio da Clarissa será realizada neste domingo, 25, a partir das 14h30, na Apae de Nova Friburgo. Para esse evento são esperadas mais de 70 pessoas, 300 peças de roupa e dezenas de livros, que agora também são itens confirmados no câmbio.

“As inscrições já foram encerradas, mas em breve teremos nossa quarta edição. O próximo câmbio será de inverno e deve acontecer em julho”, antecipou Clarissa. Para ficar por dentro do projeto e obter mais informações sobre os próximos eventos, basta acessar o perfil do projeto no Instagram (@cambiodaclarissa).

Praticando o bem na troca e na doação

Além de promover o consumo consciente, desde sua 2ª edição o câmbio também se transformou num evento de cunho beneficente. Cada participante paga R$10 para entrar no evento, valor que é totalmente revertido para uma instituição carente. Na última edição, o valor arrecadado foi redirecionado ao AMAR - um projeto que realiza atividades com crianças carentes do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro.  Desta vez, o câmbio vai ajudar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Nova Friburgo, entidade responsável por prestar atendimento a centenas de pessoas com deficiência e seus familiares, nas áreas de saúde, educação e ajustamento social.

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