Bernardo Dugin sobre o teatro: “Merda! Merda para o artista é coisa boa. Viva o teatro"

Produtor de "78 Musical" fala sobre os desafios e prazeres de atuar dentro e fora dos palcos
sábado, 26 de agosto de 2017
por Guilherme Alt
Foto de capa

Um dos talentos locais que têm se destacado não só na cidade, mas Brasil afora, é o ator e produtor de teatro Bernardo Dugin. Em conversa com A VOZ DA SERRA, Dugin falou dos desafios e prazeres de atuar dentro e fora dos palcos. Recentemente, o ator produziu o musical “78 Musical”, que lotou o Teatro Municipal nos dois finais de semana em que ficou em cartaz, no final de maio e no início de junho, deste ano.

Caderno Z: Como tudo começou pra você?

Bernardo: Foi amor à primeira vista. Eu tinha seis anos quando assisti a primeira peça na escola. Fiquei enlouquecido e reproduzindo o que lembrava, em casa. Aos 12 tomei coragem e comecei a atuar. Meus amigos e família já sabem: quando vou estrear uma peça, vivo tão intensamente para aquilo que emagreço uns cinco quilos. Penso 24 horas em fazer o meu melhor e, às vezes, esqueço até de comer. Vai ver porque o Teatro é o alimento da minha alma. Mas o que me move mesmo é enxergar a transformação na vida das pessoas. A arte cura, dá sentido à existência.

Você acha que o ator de teatro é valorizado no Brasil?

Algumas gerações já lutaram bastante e quebraram barreiras para que a minha, por exemplo, tivesse respeito e reconhecimento como artista. A minha avó, por exemplo, precisou parar de fazer teatro porque casou. Não era coisa de moça direita. Ainda sonho com o dia em que os artistas possam viver da arte do teatro.

Na sua visão, o acesso ao teatro, na cidade de Friburgo, melhorou?

Temos muito o que evoluir, mas já vejo com bons olhos. O boca a boca sempre será a melhor forma de divulgação, mas as redes sociais vieram para democratizar esse acesso a diferentes públicos. As mídias impressas, televisivas e radiofônicas da cidade também são parceiras. E para o espectador que não pode desembolsar o valor de um ingresso (isso é uma outra discussão, que tem a ver com prioridade) temos excelentes espetáculos gratuitos ou a preços populares. Creio que grupos já consolidados da cidade e produtores independentes estejam fazendo um trabalho de formação de plateia. Teatro também é hábito.

Quais sãos as maiores dificuldades para quem atua e para quem produz uma peça de teatro?

Tanto no palco quanto nos bastidores, os desafios são gigantes. A maioria das pessoas não faz ideia de como se produz um grande espetáculo e a quantidade de pessoas que estão envolvidas no processo. Profissionais que não aparecem no palco, mas que são essenciais para que a mágica aconteça. A captação de recursos será sempre uma batalha árdua. Fazer um empresário local investir em uma ideia, que ainda está no papel, nem sempre é fácil. Precisamos sair daquela ideia de “ajuda a pobres artistas” e sim embarcarmos juntos num projeto, onde todos os envolvidos saem ganhando. Mas essa responsabilidade divido com os empresários. Precisamos todos – empresários e produtores – nos profissionalizarmos mais, no que tange ao investimento cultural. Existem Leis de Incentivo a Cultura que não são exploradas aqui na cidade.

Dirigir ou atuar? O que é mais difícil? O que você prefere?

Sobre preferência, vai muito do meu momento. Qual a minha necessidade agora? O que reverbera dentro de mim? Se eu conseguir conciliar estas duas tarefas serei extremamente feliz. Mas acho dirigir mais difícil do que atuar. São desafios diferentes, mas imagine você lidar e liderar 50 artistas. Quantas questões vão surgir?

Na sua opinião, Friburgo precisa incentivar mais a arte teatral e, inclusive, ter mais cursos voltados para a área?

Não só Nova Friburgo como todas as cidades devem incentivar. A nossa, em especial, passa por problemas que nos limitam muito, como por exemplo o Teatro Municipal, que não foi feito por quem faz teatro. São problemas graves estruturais, que inviabilizam a vinda de grandes peças de teatros e shows. Não existe urdimento, são varas cênicas com pouca capacidade de peso, varas de iluminação sustentadas por cordas de sisal, tudo manual, sem contra-peso, tornando um risco para os técnicos que operam os maquinários e para os atores que estão no palco. Tenho observado o pessoal da Secretaria de Cultura com boa vontade, dando uma força, mas isso não basta. Os poucos funcionários que temos no teatro são excelentes e se desdobram em mil para atender a todos, mas ficam sobrecarregados. Outra dificuldade é conseguir pauta. Todo grupo ou produtor sonha com uma temporada. Geralmente os espetáculos se apresentam apenas um final de semana. No “78 Musical”, conseguimos dois finais de semana. Fico muito triste quando eu ou um amigo da área vai solicitar pauta para um espetáculo e o teatro está reservado para uma solenidade da prefeitura, formatura, palestra, lançamento de livro, fórum com lanche no foyer e sei lá mais o quê. Que isso, gente? Teatro é lugar de teatro! De arte. Não podem fazer isso em outro espaço? Mesmo que não tenha peça no dia. Os equipamentos de luz têm vida útil, o som, estruturas. O palco é sagrado. Eu aprendi assim. É a segunda casa do artista. A cidade agradece!

Em setembro você dará início ao VII Workshop “Do exercício à cena”.  É mais um incentivo para as artes cênicas, na cidade. Como será a dinâmica?

Sou suspeito para falar, acho este encontro uma delícia. Já é o sétimo ano que realizo o workshop e o público é o mais variado possível: atores, professores, empresários, entre outros curiosos. Este ano tem alunos de até 80 anos. São turmas para crianças, adolescentes e adultos e o foco do curso é o autoconhecimento e a evolução individual, mas sempre a partir do coletivo. As aulas são dotadas de criatividade e dinamismo e quando o aluno percebe, já está fazendo. Isso se dá através de exercícios de improvisação e jogos dramáticos. Costumo dizer que a parte mais difícil do curso é a coragem para se inscrever. Depois é relaxar e tirar de letra.

Em “78 Musical”, pessoas com necessidades especiais puderam assistir a peça através de adaptações. Como foi essa experiência?

Vivenciar a primeira vez de surdos e cegos assistindo a um musical por tradução em libras e áudio-descrição foi uma emoção sem igual. Nós transformamos a vida deles e eles a nossa. O olhar para o outro é o que mais mexe comigo. “Eu seguro a sua mão na minha para que juntos possamos fazer aquilo que eu não posso, aquilo eu não quero e aquilo que eu não sei fazer sozinho. Teatro. “Merda!” Merda para o artista é coisa boa. Viva o teatro.

 

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