Maurício Siaines (*)
Houve época em que muito se discutiu se as relações sociais rurais brasileiras eram idênticas ao feudalismo europeu e, caso contrário, em que elas se diferenciavam. E este debate acontecia sem ser apenas um exercício acadêmico, mas como procura de subsídios para uma militância transformadora da realidade social do país. Houve também muitas dificuldades para que esse debate se desenvolvesse, em função das circunstâncias políticas da época, marcada pelo cerceamento da liberdade de pensamento. Um dos provocadores dessa polêmica foi o livro de Caio Prado Júnior, A Revolução Brasileira, publicado durante a ditadura militar, em 1966, antes que viesse o AI-5 aumentando as dificuldades para a discussão de questões nacionais. O debate ainda tem importância na atualidade porque é preciso compreender como se formou esse mundo de coronéis, que agora se exibe na política.
A semelhança que se identificava entre as relações sociais rurais brasileiras com o que se chamou na Europa de feudalismo relacionava-se ao poder do senhor de terras. Aí estava uma semelhança com os barões e coronéis do mundo rural brasileiro. Mas esta ordem social se solidificava com a produção em larga escala para o mercado, isto é, para uma realidade capitalista externa, que não existia no mundo medieval europeu. O modo como acontecia a produção econômica rural brasileira e o que demandava seus produtos são as duas grandes diferenças. Estas duas características próprias do domínio rural brasileiro são definidoras de uma relação social totalmente diferente.
A produção em larga escala da economia rural brasileira voltada para o mercado externo dificultava o desenvolvimento de mercados locais, que, além disso, encontravam outra dificuldade para se desenvolverem: a organização escravocrata da economia que, não só contrariava qualquer princípio humanitário, como também tinha baixa produtividade. A escravidão implicava poucas trocas econômicas locais. Nem ofícios, nem comércio tinham possibilidade de se desenvolverem, o que implicava a estagnação das economias locais. Ofícios não se desenvolviam porque não havia mercados consumidores locais para os seus possíveis produtos , isto é, a criatividade dos indivíduos não tinha aplicação econômica.
Na Europa da Idade Média houve espaço para o crescimento do comércio e das diversas profissões, que, inicialmente, eram realizados artesanalmente, mas aos poucos foram se submetendo a outras formas de organização, definidas pelas trocas econômicas que se tornavam mais intensas, em função dos mercados que se desenvolviam.
Assim se desenvolveram as capacidades empreendedora de alguns indivíduos, que passaram a se organizar e administrar essa economia dinâmica. Nossa realidade foi a escravidão com muitas implicações culturais. Uma delas, o desestímulo ao que, de um tempo para cá, começou-se chamar de “empreendedorismo”. Essa foi uma das realidades geradas pela relação social rural brasileira.
A pesquisa histórica e a literatura dão conta de inúmeros exemplos de empreendedorismo que não podiam vingar porque a organização social não permitia. Temos até monumentos a esse fato. Um deles é a Igreja do Rosário, no centro do Rio de Janeiro, erigida por uma confraria de negros, no século 18, isto é, durante a escravidão. Se a maioria dos negros era formada por escravos, como conseguiram eles poupar recursos para construir uma igreja? A única explicação é que havia alguma atividade econômica marginal, paralela à dominante, que, por mais pobre que fosse, permitia a acumulação necessária à construção de um monumento a uma fé.
Em Nova Friburgo, temos o exemplo do surgimento do polo da moda íntima, resultado da capacidade e da iniciativa de mulheres trabalhadoras desempregadas no início dos anos 90. Aquele desemprego era resultado da falência de um tipo de relação social, isto é, de sua impossibilidade de continuar gerando recursos econômicos para a manutenção da vida das pessoas.
Viver em Nova Friburgo, hoje, é compartilhar uma espécie de efervescência, um grande movimento de procura de coisas a realizar. Uma expressão disto é o grande número de jovens artistas nas mais diversas áreas, que se mobilizam da mesma maneira que as pioneiras da moda íntima. Há também muita gente pensando em gestão de negócios e em tecnologias. Há, enfim, um mundo dinâmico que luta para nascer.
Enquanto isso, na política nacional, os barões e os coronéis dão seu espetáculo expressando em tudo e por tudo uma ordem fora de época, pouca afeita à criatividade, nas artes ou na economia.
(*) Jornalista
mauriciosiaines@gmail.com
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