Desafios elétricos

Márcio Madeira da Cunha

Sobre Rodas

O versátil jornalista Márcio Madeira, especialista em automobilismo, assina a coluna semanal com as melhores dicas e insights do mundo sobre as rodas

sábado, 23 de setembro de 2017

Falamos, algumas semanas atrás, a respeito da tendência irreversível representada pelos automóveis elétricos. Os leitores, contudo, podem se perguntar por que a transição ainda vai levar tanto tempo até se concretizar. Peço, portanto, licença para dar algumas explicações genéricas, sem maiores preocupações técnicas, apenas com o intuito de jogar alguma luz sobre os grandes desafios envolvidos.

Antes de tudo, é preciso levar dois fatores muito importantes em consideração: os gigantescos interesses financeiros atrelados à indústria do petróleo, e a profunda expertise acumulada em relação a motores a explosão, ao longo de mais de 130 anos de utilização, pesquisas e aperfeiçoamentos.

Começando pelo primeiro, poderíamos lembrar que diversas companhias petrolíferas têm lugar cativo entre as maiores corporações internacionais, empregando milhões de pessoas mundo afora. Mas nem precisaríamos ir tão longe. Bastaria a gente recordar que a Petrobras foi forte o suficiente para conseguir segurar o preço dos combustíveis, num sacrifício que lhe foi imposto pelo governo federal com o intuito de reduzir a pressão inflacionária em anos recentes. Ora, se uma empresa é capaz de exercer tal tipo de influência sobre a economia de um país como o Brasil, então é claro que estamos falando de algo muito, muito grandioso. Poderíamos, igualmente, falar a respeito do gigantesco alcance indireto desta indústria, mas creio que seria cair em redundância.

Já no segundo aspecto, é preciso observar o nível de excelência alcançado pela indústria automobilística na atualidade. A era da informação gera benefícios em todas as frentes, e hoje temos materiais mais leves e resistentes; motores mais potentes, econômicos e ecológicos; métodos de produção mais eficientes e baratos. Substituir algo que tornou-se tão bom por outra matriz muito menos experimentada definitivamente não é tarefa fácil.

Essencialmente estamos falando sobre energia aqui. Energia para movimentar veículos pesados durante muito tempo, com agilidade satisfatória. Atualmente, veículos de maior autonomia são capazes de ir do Rio de Janeiro a Curitiba com apenas um tanque, desde que conduzidos de maneira condizente. É essa magnitude de energia que precisa ser substituída no longo prazo, e isso é bem mais complexo do que parece.

Falando de forma superficial, existem vários fatores envolvidos aqui: peso das baterias, calor gerado, preço, capacidade de armazenamento, velocidade de carga e descarga, durabilidade, e também problemas com descarte e reciclagem. Mas não é só isso. Um tanque pode ser reabastecido em poucos minutos, ao passo que baterias mercadologicamente competitivas levarão muito mais tempo para que sejam recarregadas.

Unir todas estas pontas de maneira satisfatória, aproximando os resultados daqueles entregues atualmente pelos combustíveis fósseis, representa um dos grandes desafios da indústria de nosso tempo. E, dadas as aplicações e demandas por aparatos móveis e livres de fios, já é possível afirmar que as implicações desta busca por soluções e conhecimento irá extrapolar por completo os limites da locomoção pura e simples.

Pode levar tempo, mas vamos chegar lá.

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