O Outro Lado do Refúgio

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 09 de fevereiro de 2018

Quem já se perguntou como é habitar o corpo de um cidadão refugiado de guerra? Ao menos que alguém seja obrigado a enfrentar essa situação, que seu coração benevolente alcance o mundo ou que sua história tenha origem em um conto real desses de superação e recomeço, dificilmente será possível dimensionar o que estou falando.

Há décadas, a crise humanitária dos refugiados assola milhares de famílias no mundo todo. Em função de conflitos armados, muitas pessoas são praticamente obrigadas a abandonar seus lares, seus bens, suas raízes e suas vidas para buscar a sobrevivência em outro local.

A esperança em sobreviver já é em si um sentimento comovente. A força para buscar meios para recomeçar a vida é inspiradora. Aqueles que já tiveram a oportunidade de conviver e aprender com os imigrantes refugiados, certamente acessaram uma verdadeira escola de vida.

Por experiência própria, asseguro que a força de superação e resiliência para lidar com adversidades ganham um potencial impressionante. A alegria de viver transborda de uma maneira incomum que não há quem não se impressione ou se contagie. Da mesma forma, o sentimento de gratidão pela vida, pela família, pela proteção e por tudo, passa a ser latente a ponto de se tornar, por vezes, incompreensível.

Quando as escolhas de vida são limadas, a liberdade cessa, a paz se torna uma distante ilusão e sobreviver passa a ser a meta imediata. A vida vira de ponta-cabeça e o novo “ser”, que pode exsurgir dessa situação, é alguém extremamente forte e provavelmente profundamente grato. Alguém cujos princípios são inalteráveis. Alguém que ama a paz e odeia o conflito. Esses são os seres especiais que habitam muitos dos corpos dos refugiados e que tantas vezes, quando não invisíveis, são marginalizados pelas sociedades mundo afora.

Anseio verdadeiramente pelo olhar voltado para os direitos humanos de todos, com a adoção de planos corajosos que protejam efetivamente os refugiados, preparando as realidades dos países a lidarem com esses assuntos que, na verdade, são globais.

O objetivo de salvar vidas, partilhar responsabilidades e utilizar mecanismos para o alcance da paz deve ser sempre prioridade, assim como a proteção dos direitos humanos e da dignidade de todos os migrantes e refugiados.

Além disso, é fundamental o combate à xenofobia, essa aberração que quando existente, acentua muito negativamente a problemática pela qual passam os refugiados. É importante termos em mente que o movimento migratório em massa por força dos conflitos armados no mundo não é fruto de uma desavergonhada opção dos cidadãos de paz. A situação é complexa e difícil demais para culparmos quem, injustamente, precisa deslocar-se geograficamente em busca de salvar-se a si mesmo e à sua família.

Como feliz membro de uma família de etnia árabe, com raiz na Terra Santa, que enfrentou o problema da migração forçada, testemunho o papel importante do acolhimento que o Brasil e os cidadãos brasileiros de maneira geral oferecem aos refugiados há muito tempo. Somos muitos os frutos deles. Uma legião de descendentes apaixonados por sua origem e orgulhosos das raízes de seus familiares e antepassados, que preconizam o respeito e a diversidade e que lutam nos dias de hoje pela manutenção de elementos culturais, pelo cultivo da verdadeira história da família (provavelmente extraordinária) e pelo cuidado com seus valores preciosos, alguns deles próprios daqueles que habitam o corpo e a família de um imigrante refugiado de guerra.

Sugiro uma reflexão: se você conheceu alguma dessas fortes pessoas a quem me refiro, provavelmente tenha sido a pessoa mais gentil, agradecida e alegre que conheceu em toda a sua vida.

Trecho da Semana:

“(...) Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.(...)”

Cora Coralina

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