Por que ter opinião formada sobre tudo? Intervenção federal: correto ou incorreto?

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

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Palavreando

Assim como o mistério encanta, há certos enigmas que causam desesperança pela nítida, mas recusável percepção de que só insistência não bastará!

Por que ter opinião formada sobre tudo? Intervenção federal: correto ou incorreto?

Raul Seixas preferia ser uma metamorfose ambulante ao invés de ter uma velha opinião formada sobre tudo. Com o advento das redes sociais, mais do que nunca, todos querem opinar sobre qualquer coisa e quase sempre defendem sua verdade como absoluta e universal. Não importa se tem conhecimento sobre o tema ou não. Se não se sabe nada sobre o assunto, pega-se uma ideia qualquer e se reproduz sem verificar legitimidade ou mesmo profundidade. Em tempos como o que vivemos, ser raso é ampliar o risco de um suicídio coletivo. No caso, o suicídio não atinge apenas quem dispara “a metralhadora cheia de mágoas”, mas a todos que estão em volta.

Natural que a opinião sobre tudo saia do campo da previdência para flutuar acerca da intervenção federal no Rio. Mais do que o Fla-Flu são os temas políticos que palpitam nas ruas. Todos tem uma opinião sobre a intervenção federal na segurança, a grande maioria, aparentemente, favorável. Mas o quanto de profundidade há nesse tema? Por que temos que ser a favor ou contra? Por que não deixar o tempo responder ao invés de querer ter razão no agora? Temer é o que já temíamos pela violência. Temer continuaremos temendo pelos tanques nas favelas e a ausência de plano e estratégia.

A sensação de segurança virá só por colocar reforço nas ruas. Só que sensações passam rápido. Sensação podem ser enganosas. E seus efeitos podem ser catastróficos. Temer pela democracia é legítimo. A intervenção é federal, é política, mas também é militar. 1964 não pode voltar em 2018. A democracia e só ela é que permite que existam opiniões favoráveis e contrárias a esse e a todos os demais temas. Não se esqueçam disso. Como não podemos esquecer que a democracia também deve servir à vida e por isso é tão controverso esse debate.

Assim, é preciso ter cuidado com visões simplistas, porque a vida das pessoas não é simples, tampouco a sociedade é simples. Há formas de ver a intervenção como correta e como incorreta. O que todos concordam é que algo precisa ser feito. E não é de hoje!

Por isso, toda a desconfiança quanto ao tempo da tomada dessa decisão. O Rio agoniza desde 2014. E não é só na segurança pública. Assim, se evidencia um fato que não dá para passar despercebido: Temer passou todo o último domingo reunido em Brasília. Com marqueteiros. Ora, não seria o caso de estar reunido com especialistas ligados à segurança pública?

Acreditar que há só boa intenção nessa medida beira a ingenuidade. Independente disso, no mesmo compasso, há uma necessidade que se espalha no medo de quem mora no Grande Rio e de quem só sabe do Grande Rio pela mídia. Medo esse que existe por conta das drogas e das armas. O Rio não fabrica nem armas, nem drogas. O Brasil não fabrica nem armas, nem drogas. Fabrica extrema pobreza e desigualdades cada vez maiores. Como combater ambas?

A entrada de drogas e armas ocorre, incialmente, por conta de fronteiras desprotegidas. A pobreza pela ausência do estado que não gera emprego que não vem por falta de acesso à boa educação, saúde e saneamento. As fronteiras podem ser protegidas com medidas imediatas. A pobreza só com o tempo, muito tempo - gerações. O Brasil não faz nem um, nem outro. Por que?

A análise, portanto, não pode ter um recorte só do carnaval para cá. É preciso revisitar nossa própria história. Mas para não parecer estudo antropológico, basta voltar a 2016, quando se iniciou a intervenção econômica no Rio. Branca e nada branda. Cruel. O povo fluminense não foi tratado como brasileiros. O estado foi sufocado pelos seus próprios equívocos, mas também para servir de exemplo as demais unidades federativas. A cartilha do mercado financeiro é essa e o governo federal a obedece. Quem não obedecer será punido.

O Rio foi e está sendo devorado, incluindo seu futuro cada vez mais endividado e aprisionado. Intervir nas contas do Rio, mas não colocar um centavo para auxiliar as mazelas de todo o estado, como saúde, estradas e educação, é só punir por punir. A população foi mero detalhe no jogo de poder. O que quero dizer que intervenção nunca é bom. No cerne de seu significado está a forçar algo, obrigar, passar por cima de tudo. Quem em sã consciência pode achar que intervenção é algo bom? É um estado de exceção! E exceções levam a terrenos desconhecidos e bastante perigosos. Dirão que talvez é o único caminho pela “anormalidade” que se vive. Engraçado parecer que essa tal anormalidade existe só na segurança pública, como se a segurança não fizesse parte de um todo.

Sempre houve ausência de compromisso social da União com o Rio de Janeiro, o segundo maior arrecadador, mas o antepenúltimo em recebimento de recursos. E, não é de agora! A falta de liderança faz com que tenhamos ficado de quatro, de pires na mão, cedendo a toda e qualquer chantagem de gente que nunca teve apreço pelo Rio de Janeiro. E não vou relembrar aqui a perda do status de capital federal, mas é desde lá que o Rio perdeu espaço na pauta nacional.

Assim, a intervenção é correta do ponto de vista que algo precisa ser feito em curto prazo e que não dá mais para esperar, nem ficar filosofando que é preciso investir na educação, ciência e tecnologia, assistência social e por aí vai... Isso é legado para o futuro que era preciso ser feito ontem, mas não resolve para o agora. Mas começa errado, por questões formais (técnicas) e materiais (substanciais), como se a crise no estado fosse somente de segurança pública e não de gestão.

Fizeram uma intervenção "A la Temer" pois, interviram para por termo ao "grave comprometimento da ordem pública" tendo o interventor poderes apenas relativos à segurança pública. Trata-se de uma intervenção às avessas. Como se Michel Temer falasse: "Vou intervir, mas só um pouquinho, pois está tudo bem. Tem um problema na segurança pública, mas não é culpa do partido que comanda o país e o estado”.

Estamos sim, falando de política que pode ser politiqueira ou politicaria ou pode ser com P maiúscula baseada na sua finalidade maior que é defender a sociedade. A pergunta que não cala e que se quem tem opinião formada sobre tudo puder me responder: com a intervenção em toda a segurança, os R$ 9 bilhões do orçamento estadual estão liberados para que o estado invista nas demais áreas? Cabe nota de que o maior orçamento do estado é em segurança pública. O dobro da educação, o triplo da saúde e nove vezes mais do que no ensino superior e na assistência social. A intervenção na segurança só é válida se a União assumir tudo, inclusive a conta.

Encerro, relembrando uma fala do ex-secretário de segurança do estado, José Mariano Beltrame que se irritou com uma insistência minha sobre jogar dinheiro fora. Disse ele: “é claro que estamos enxugando gelo. Não adianta fazer o serviço policial, se paralelamente não há o trabalho de inclusão social. Não dá para, nós aqui ficarmos prendendo usuários de drogas, enquanto armas entram pelas fronteiras com os grandes traficantes à solta”. Beltrame continua tendo razão e ao que parece terá razão, infelizmente, por muito tempo.

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