Oco

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

É assim que a gente se sente depois de viver algo grandioso? Esse vazio... Essa sensação de estar torto, bambo, oco... Exclusividades de quem sabe e vive para a intensidade. Mas a mesma intensidade que faz voar, tira os alicerces para pousar. A base é história, memórias que não se podem deter ou reter nas mãos. Sabe-se que existe pelo simples acariciar do vento, mas não se pode materializá-la em panos, cimento, monumento. É intangível. É esse tal vazio que fica depois que o peito esteve repleto, preenchido para além da sua totalidade.

E assim, oco fico depois de cada aventura na jornada que faço em cada pessoa. Morro toda hora e renasço de tempo em tempo. E, renasço muitas das vezes para as mesmas coisas! Teimo, principalmente, nas minhas paixões, porque essa á a única coisa que não abro mão e não admito me corrigir, pois bem sei que se puderem resumir uma vida, ela será resumida por suas paixões! Sou um romântico incorrigível, talvez sendo essa a única condição que eu leve após ficar oco só para oco ficar de novo.    

Essa é a dureza e o prazer de ser intenso. Serei sereno, dramático, fascinante, sofrido, feliz... Só não sei se ao morrer, renascer ou em ambos!

Casca sem árvore. Biscoito sem recheio. Talher sem comida. Dia sem sol. História sem personagem. Vilania sem herói. Prédio sem cidade. Vontade sem motivo. Vida sem amor. Não! 

Oco, mas cheio de canções que me remetem a esse recheio de sentimentalidades e sonhos consumados e não consumados. Oco, mas molhado porque quando a chuva veio, fui até ela me molhar, assim como quando o sol se achegou não desperdicei tomar banho de seus raios. Oco, porque não soube ser outra coisa que completo, inflado, entregue, apaixonado. O que a história escreve é imprevisível, ainda que seu final teime em ser esse oco... Oco que é feliz porque advém de algo grandioso. Se grandioso não fosse, oco não ficaria. Mas oco também que é triste, pois soleniza a dor para expurgá-la, limpar os resquícios do ouro e da lama e preparar para renascer e viver tudo de novo.

Mas enquanto o oco visita - dói! Dói com veemência. Tira as certezas futuras em um quase suicídio lento, voraz. Permite, sem vergonha, escapar as lágrimas que são de sal por fora, mas de sangue por dentro. E, queima, queima, queima a alma que evapora para as estrelas enterradas no cemitério dos romances sepultados mais pela possibilidade de continuidade do que pelo fim da história. É definitivo com reticências, porque escapole, mas deixa o vazio do que foi plenamente preenchido, seja por realidade ou esperança. É oco insano, porque tem origem na insanidade – essência essencial para a felicidade. E, o oco faz produzir no seu caminho de dor, mais do que depressão, mas arte em palavras e sons, ao ponto que todos os poemas e canções são fruto do antevir o oco, do oco em si e do luto enquanto o oco renasce na esperança de vagarosamente ser preenchido de novo.

Talvez seja muito mais feliz o preencher, do que propriamente o completo. Porque quando completo estoura, explode, se espalha em fogos de artifício e quando o brilho e o barulho se desfazem, cai-se em realidade e o vazio do fim vem. E é duro seguir, é triste lutar para esquecer a linda história escrita. A tinta da caneta não acaba, nem a inspiração, mas tolos proclamamos a despedida e se deixa despedir sem pedidos de “fique um pouco mais”. Eu queria ficar, tanto quanto pedi para ir... Por proteção, talvez. Por amor, com certeza.

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Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

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