​O amor é torto

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

sábado, 07 de outubro de 2017

O amor é torto

O amor é torto. Encontra seus próprios caminhos e por mais que façamos roteiros para encontrar ou fazê-lo da maneira que queremos, nos surpreende e faz sua própria estrada. O amor faz questão de ser torto e aparecer nas horas mais incertas para ser certo no tempo que lhe parece correto. Tem vontade própria e classifica nossas vontades como desejos de devaneio. De repente, nos prega necessidade daquele sorriso, daquela pele, daquela voz, daquele olhar que revela a alma que faz a sua alma flutuar. Mesmo para quem não tem coragem de voar - voa.
O amor vem de onde nem sempre prestamos atenção. Na esquina da festa. Na rotina do escritório. Na mesa vazia de um bar cheio. Naquela viagem para Buenos Aires ou para Minas, sem sequer ter ido lá. Na fila tediosa que, em seu tédio, faz despertar um imaginário perfilado no coração. O amor adora contramão. Desnuda e se honra no atípico. Forte, derruba fortalezas até no peito ferido de quem proíbe que entrem paixões. Pois o amor não aceita recomendações e não obedece placas de aviso. É abusado. Entra. Como o vento que vence a porta e dribla os frisos da janela trancada. Invade. E não há guarda que não baixe, ainda que não recue para acabar à frente se rendendo - não no confronto - mas ao se juntar ao amor para chamar de seu companheiro.
Não adianta esperteza ou pseudo experiência. O amor não faz estratégia com as nossas combinações. Não aceita acordos egoístas em que debaixo da roupa de jogador tem o apito de árbitro. Não joga com nossas cartas, nem com as previsões do tarô. Ri de nossas piadas para se apresentar quando apostamos na sua inexistência. E, aporta quando menos vislumbramos. Visita mesmo quando achamos estar bem acompanhados e prova que o que temos não é amor, mas comodismo, drama desses que nem saem nas fotos.
O amor se faz na intimidade e casa com essa intimidade que nasce sem explicação, mas que existe sem a perturbação da exigência de resposta. Insiste para vencer não pelo cansaço, mas para ser reconhecido como a luz que acende a escuridão da caverna que escondemos nosso coração. Daí nasce a música que suscita a dança que convoca para dar-se as mãos, peito e abraço. Conexão. Sintonia. Vibração capaz de contradizer a física e renovar a matemática com os números que se colocam entre o um e o dois.
Mas o amor é torto e não permite se ditar em poemas fechados. Se reinventa e pede respeito para ser o que é e clama para não ser temido. Euforia. Liberdade. Para ser feliz ou triste - nunca morno - ainda que nem sempre intenso, porém sempre verdadeiro. É! O amor gosta de ser torto e teima em ser assim.
Quando vem, discorda do conforto em apenas ficar ali sentado, olhando a paisagem. Pede que você seja a paisagem e se fantasie de chuva ou de raios de sol. Mas pode ser também a relva que desfila na grama verde por se podar ou a terra desprotegida que ainda sim permite raiz. Razão em pedaços de sonhos que brincam com as horas para além do amanhecer. O universo não é racional, mesmo se descoberta toda a sua lógica.
O medo nos faz perder mais do que o sofrimento que podemos suportar. Por isso o amor só requer que sejamos atentos, sem ser vigilantes. Descompromisso com amarras feitas em nós de ilusão é pertinente a quem espera mesmo sabendo que o amor não vem na hora que se quer. Persiste. A gente erra mesmo quando tem convicção no que lê. Mas não é porque a leitura foi equivocada que o livro não presta. Sempre há prazer e esperança na aventura. Em tudo há sabor, mesmo não se provando amor. O paladar deixa de trair quando conhecemos mais do que só suspeitamos o gosto de cada alimento.
Admite: o amor ainda que torto é maior do que a gente na nossa pretensão de retidão ou proteção. É espada que atravessa os escudos de prata ou de flor. Não se engane. O amor existe, mais cedo ou mais tarde. Mas não espere. Vem naturalmente. E você vai se divertir, tanto quanto sofrer. E você vai ter certeza, tanto quanto dúvidas. Mas será seguro a cada instante que o sorriso trazido pelo amor lhe doar sorriso, a cada momento que o silêncio das mãos encontradas fazer ponte para o infinito. E juntos, o amor lhe mostrará muitas vezes o quanto é torto, mas em tal ponto ninguém se preocupará com isso. Aceitará as surpresas, se desvencilhará de boa parte das expectativas e dirá sim! Porque mais do que ser, foi ou será - está sendo.

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Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

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