Palavra e cristais

quinta-feira, 05 de outubro de 2017

Aqui, nesta coluna, faço semanalmente referências e reverências ao universo literário. Em todas, a palavra é evidenciada em diferentes maneiras. Mas, especialmente, hoje, resolvi nela pousar como uma borboleta, abrindo e fechando as asas. Descansando-as. Preparando-as, inclusive, para novos voos.

Os significados das palavras são muitos. Vamos começar pela ideia de unidade. À Princípio, palavra é a reunião de letras que formam um som único. Entretanto, podem possuir sentidos variados. Entretanto, cada sentido é único em seu conceito. Gosto de cristais. Tanto pela sua beleza. Tanto pelas metáforas que, aqui, vou me utilizar. O cristal é um sólido multifacetado que reflete a luz em múltiplas tonalidades e o ambiente em torno em diferentes ângulos. Todo seu reflexo é relativo, tanto quanto o talvez de Fernando Pessoa. Assim, a palavra cristalina pode ser clara e objetiva, como pode ser a expressão de diversos sentidos. Assim, mais uma vez, a palavra se transforma em oceânica, sem nunca deixar de ser cristalina; os cristais são formas geométricas idênticas. Ou seja, agora, milhões de brasileiros falam CASA, palavra formada pelas mesmas letras que tem um som único e pode significar a ideia de corpo, por exemplo, o lugar onde cada um tem plenitude.

Entre um sentido e outro, as palavras preenchem espaços vazios. Falar de palavras é viajar; elas são os olhos do pensamento. Qual o olhar que não desliza no espaço? Contorna pessoas? Observa objetos? Qual o olhar que não tem múltiplas faces? Porém não há o mesmo olhar. E, aí, quase chego à conclusão de que multifacetada pode ser o melhor adjetivo que venha a qualificá-la.

A palavra num texto está entre espaços. Aliás, todo texto é materialmente compartimentado. Palavras e frases. Parágrafos e espaços. Nãoépossívelescreverdestaforma. Saramago precisou de mais de uma página inteira e um único parágrafo para descrever as pedras das calçadas de Portugal. Lindas. Iniguais. Quem anda sobre essas pequeninas pedras, pisa com leveza. O calceteiro, o profissional que as coloca nas calçadas, tem uma mão de obra bem cara. Talvez pela delicadeza do trabalho, talvez porque as pedras portuguesas precisem de um espaço mínimo entre uma e outra. Ah, os espaços das pedras são maleáveis quanto os do texto. O escritor passa a vida inteira aperfeiçoando a usá-los com sutileza. O leitor, desde a mais tenra idade, aprende a desvelá-los. O calceteiro só é competente quando carrega nas mãos anos de experiência. Às vezes, os espaços dizem mais do que as palavras escritas. Cabe ao escritor compreender quais as palavras que ali estão ocultas. Cabe o leitor interpretar. Um livro não se devora, como se diz por aí; nunca é comido em poucas garfadas; é degustado como o vinho do porto. Em todas as gotas; em todos os brindes.

 

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Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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