Veneranda Claudio

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Voltei a visitar Rio de Bonito, no distrito de Lumiar. Fazendo limite com o município de Silva Jardim, a vista de certo ponto dessa localidade é de tirar o fôlego. Rio de Bonito de Lumiar tem pouco mais de trinta anos e se desenvolveu com a venda de um indivíduo chamado Sansão, vindo de Lumiar. Esse comerciante tinha uma tropa de burros e levava produtos da lavoura de Rio Bonito a Nova Friburgo passando pelas trilhas de Posses, Galdinópolis e Barra Alegre.

A entrada na cidade era feita pelo bairro das Braunes. Eram dois dias de viagem de ida e dois dias de volta. Sansão vinha com os burros carregados de mercadorias para vender em seu estabelecimento comercial em Rio Bonito. Nessa localidade, conheci Dona Veneranda Claudio de Araújo, nascida em 8 de setembro de 1927, filha de Antônio Pantaleão de Araújo e de Angelina Regly. Na sua hospitalidade, ela reforça o fogo do fogão a lenha com gravetos para fazer um café. A agente de saúde a visita com frequência e um sobrinho neto lhe presta alguns serviços em sua propriedade. Mas no seu cotidiano vive em companhia de seus cachorros. Dona Veneranda vive em uma residência de pau a pique, típica do caboclo brasileiro das zonas rurais.

São localidades de Rio Bonito de Lumiar: Rio Bonito de Cima, Rio Bonito de baixo, também chamado de Portugal, Cabeceira de Rio Bonito, Rio das Flores, Sertão e Santo Antônio. A luz elétrica chegou há apenas 15 anos atrás. Por ser uma APA (Área de Proteção Ambiental) não pode haver atividade agrícola de grande extensão nessa região. Conhecida no passado como Terra dos Inhames, praticamente os agricultores da região vivem do plantio desse tubérculo. Pontes que balançam e pinguelas trazem um sabor de aventura percorrendo suas trilhas e caminhos. Tudo surpreende! De repente, me deparei com uma casa de madeira que me lembrou a cena de um filme. Passa-se por belíssimas residências de veraneio, geralmente de cariocas que elegeram Rio Bonito de Lumiar como um lugar de refúgio. Ali encontramos muitas famílias descendentes de colonos suíços como Ouverney, Regly, Frossard, Berçot, Regly, assim como Schenkel, Frez, Muller e Wenderrosk. A atividade econômica é de pequenos agricultores familiares, dedicando-se principalmente na plantação de inhame.

Muitas dessas propriedades foram vendidas a cariocas que as transformaram em casa de veraneio. Os moradores de Rio Bonito passaram então a trabalhar nesses sítios em serviços domésticos. Há uma empresa de captação e engarrafamento de água na localidade, mas gera poucos empregos. Com uma população aproximada de 600 moradores, essa localidade guarda dois importantes eventos culturais: A Festa do Inhame e o carnaval, em que os foliões se vestem com elementos da natureza. A Festa do Inhame é realizada em agosto, mês da safra. Barracas com diversas guloseimas de inhame, gincana, danças e o concurso do maior inhame produzido na região fazem parte da programação. Já no carnaval, os foliões se fantasiam utilizando folhagens, ramos e galhos secos. Os foliões vão ao mato nos arredores à cata desses materiais. A pilhéria é se vestir de forma que o folião não seja reconhecido, se comunicando em voz em falsete. É possível que essa prática cultural do homem selvagem tenha origem no folclore suíço da Idade Média. Mas, de todo o passeio, o que sempre me vem à mente é a imagem de Dona Veneranda Claudio, que vive em companhia de seus cachorros e das suas lembranças do passado.   

  • Foto da galeria

    Limite de Rio Bonito de Lumiar com Silva Jardim

  • Foto da galeria

    Uma casa de madeira lembra a cena de um filme

  • Foto da galeria

    Veneranda Claudio nasceu em 1927 e vive como uma ermitã

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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