Um milagre em São Sebastião do Paraíba

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Independentemente das terras doadas aos colonos suíços em Nova Friburgo serem férteis ou não, úberes ou não para a agricultura, há consenso entre alguns historiadores de que os suíços de qualquer forma teriam abandonado os seus lotes se dirigindo para Cantagalo e outras regiões. Mas por quê? No século 19, havia muitas terras devolutas, ou seja, terras abandonadas. E não eram poucas.

Até 1850, quando a Lei de Terras passou a vigorar, bastava se instalar em terras abandonadas por pouco mais de um ano e pleitear junto à Câmara Municipal o título de propriedade da gleba ocupada. Mesmo a Lei de Terras extinguindo o direito do posseiro, acredita-se que havia muitas terras devolutas nessa região e não era difícil legalizá-las com data anterior a 1850. Desde a chegada dos suíços a Nova Friburgo, o deslocamento para Cantagalo se acentuava.

Outro motivo para a diáspora era o café. A intenção do governo Joanino era de que os suíços plantassem alimentos como mandioca, milho, batata e feijão. Mas Cantagalo exercia uma atração imensa sobre os imigrantes suíços em razão do plantio do café nessa região que era uma cultura muito mais lucrativa. A família Curty, natural de La Roche, no Cantão de Fribourg, era composta originalmente por dez indivíduos, mas cinco membros faleceram antes de chegar a Vila de Nova Friburgo.

O patriarca, o sapateiro Pierre Curty faleceu no Vale do Macacu em 18 de dezembro de 1819, pouco antes de subir a Serra da Boa Vista. Já a sua esposa Marie D’Angel morreu a bordo do navio. Três filhos do casal também faleceram no trajeto rumo a Fazenda do Morro Queimado. Um dos filhos, Jean Joseph se casou com a colona suíça Françoise Bard, acumulando uma boa fortuna, e os outros Curty como Marie Elizabeth, Joseph Laurent, Jacques Joseph e Catherine casaram em sua maioria com compatriotas.

Em meados do século 19, os Curty se deslocaram para a Freguesia do Santíssimo Sacramento, atual distrito de São Sebastião do Paraíba, em Cantagalo. Para essa freguesia igualmente se dirigiram as famílias colonas Musy, Cosendey, Meunier, Tardin, Bard, Robaday, Lutterbach, Volluz, Bon, Cortat, Lougon e Mouline Frauches. A esposa de Joseph Laurent Curty, Marie Folly Curty, conhecida como Madame Curty, aumentou ainda mais o patrimônio da família com a tropa de mulas que possuía conduzindo produtos da região até Porto das Caixas, atualmente município de Itaboraí.

E o final foi feliz entre os colonos suíços que emigraram para essa região. São Sebastião do Paraíba é banhado generosamente pelo Rio Paraíba do Sul, vantagem essa que se tornou um problema para os seus habitantes nas últimas décadas. Explico: Há muitos anos havia um projeto para transformar o pequeno lugarejo em uma usina hidrelétrica em razão de seus recursos hídricos e de ser o referido distrito um pequeno lugarejo.

Nesse momento, ocorreu uma história curiosa envolvendo os Curty. No ano de 1995, Carlos Elias Curty, advogado e domiciliado em Barra Mansa, resolveu iniciar uma romaria religiosa cavalgando até São Sebastião do Paraíba com o intuito de celebrar em sua cidade natal a memória de seus antepassados. Partiu de Barra Mansa, passando pelas cidades de Santa Rita, Amparo, São José do Turvo, Conservatória, Valença, Rio das Flores, Andrade Pinto, Paraíba do Sul, Três Rios, Chiador-MG, Sapucaia, Aurora (Carmo), Porto Velho até finalmente alcançar o distrito de São Sebastião do Paraíba.

A jornada de dez dias foi iniciada no dia 11 de janeiro, na alvorada. O percurso da cavalgada foi planejado de forma que chegasse ao seu destino em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, santo padroeiro do distrito. Porém, quando de sua chegada a São Sebastião, os romeiros encontraram a população local desolada sem motivação para celebrar o dia do padroeiro. O motivo era os rumores de que uma usina hidrelétrica faria o pequeno lugarejo de São Sebastião do Paraíba ficar submergido debaixo d’água.

Carlos Elias Curty consolou a população e disse que todo ano retornaria ao distrito com a romaria religiosa como promessa ao orago para que sua cidade natal, terra de seus ancestrais, não desaparecesse. E um suposto milagre ocorreu. Desde aquela primeira romaria, não se fala mais da grande usina, mas tão somente em construir na região uma PCH, ou seja, uma pequena central hidrelétrica, projeto esse que não sai do papel. O povo da região acredita que essa romaria agradou ao santo padroeiro e recebe com galhardia há 23 anos os romeiros que evitaram que o delicioso recanto de São Sebastião do Paraíba desaparecesse do mapa. 

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    A população de São Sebastião do Paraíba celebrando o dia santo padroeiro

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    Carlos Elias Curty com a romaria religiosa agradou ao santo padroeiro.

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    Os Cavaleiros de São Sebastião recebem os romeiros com galhardia

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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