Fábrica de Filó - A universidade da moda íntima (Parte 1)

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O Brasil teve o seu processo de industrialização tardio em relação ao continente europeu. Na realidade, o país apenas direcionou sua economia para a industrialização na década de 40, do século 20, no governo de Getúlio Vargas. Pode-se afirmar que o município de Nova Friburgo foi pioneiro migrando a sua atividade econômica, já na segunda década do século passado, da agricultura para o segmento industrial têxtil.

O arquiteto da industrialização em Nova Friburgo foi Julius Arp, que deu início, em 1911, a era industrial no município com a instalação da fábrica Rendas Arp. Logo a seguir, no ano seguinte, Maximilian Falck, em seu sítio, implantou as oficinas Maximilian Falck & Cia., que tornou-se a Fábrica Ypu. A Fábrica de Filó S.A. foi a terceira a se instalar em Nova Friburgo, em janeiro de 1925, sendo seus fundadores Carl Siems e o seu filho Carl Ernst Otto Siems. Julius Arp foi igualmente fundador e acionista dessa empresa.

No mesmo ano de fundação da Filó chegaram a Nova Friburgo as primeiras máquinas de filó bem como técnicos vindos da Alemanha para operar o complexo maquinário. A fabricação de filó e renda constituiu um dos ramos mais difíceis e especializados da indústria têxtil, tendo em vista que a produção desses artigos exigia uma extraordinária exatidão mecânica das máquinas que são extremamente complexas.

Inicialmente a fábrica começou a funcionar em um salão de 2.500 metros quadrados. Transcorridas duas décadas, passou a ocupar uma área de 30.399,90 metros quadrados. Na ocasião em que a Fábrica de Filó se instalou na Vila Amélia, o local era apenas um brejo pantanoso cujas encostas ficariam posteriormente cobertas por florestas de eucaliptos, pinheiros e madeiras de lei, que serviam à fábrica.

No distrito de Conselheiro Paulino, havia igualmente uma grande área destinada ao plantio de eucaliptos para abastecer os caldeirões de tingimentos de tecidos e alvejamentos. A fábrica era dividida em várias seções e produzia diversos itens como filó liso, filó de jacquard em ponto de crochê, filó de seda, filó de algodão, rendas Valencianas e Nottingham, laízes de renda, gobelins, madras, marquisetes, colcha de cama, toalha de mesa, tecidos de estofamento e tapeçaria. Um tear gigantesco fabricava a tecelagem de filó em ponto de crochê, cortinas, estores, colchas e toalhas rendadas.

Havia ainda a seção de alvejaria e tinturaria e um laboratório para desenvolvimento de tintas e aplicação de produtos químicos. Em 1933, a direção da Fábrica de Filó passou a oferecer serviço médico, dentário e uma creche aos operários. Uma brigada de incêndio composta pelos próprios funcionários foi criada pela empresa. Uma das características mais marcantes era a vila operária no seu entorno.

Inicialmente foram construídas 60 casas geminadas. Posteriormente outras residências foram sendo edificadas pelo bairro Lagoinha. Um dos conjuntos residenciais era de dois pavimentos e haviam casas com até três quartos, um luxo para a época. Alguns executivos da Fábrica de Filó residiam em casas dentro da fábrica e o próprio Carl Ernst Otto Siems morava bem próximo à empresa. Um hábito curioso entre os empresários e executivos alemães era de residirem dentro ou bem próximo à empresa.

O executivo e técnico Emil Cleff morava dentro da Fábrica Ypu e Hans Gaiser igualmente bem próximo a Ferragens Haga. Julius Arp morava em frente a fábrica, dentro de suas instalações.

Continua na próxima semana.

  • Foto da galeria

    A brigada de incêndio dos funcionários da Fábrica de Filó

  • Foto da galeria

    A fabricação de filó e renda constitui um dos ramos mais difíceis e especializados da indústria têxtil

  • Foto da galeria

    A vila operária no entorno da Fábrica de Filó

Publicidade
TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.