Chapot-Prévost e o caso das meninas toracoxifópagas

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Visitei a Fazenda São Clemente, no distrito de Boa Sorte, em Cantagalo, que pertencera a Francisco Clemente Pinto. Como muitas propriedades dos falidos barões do café do Centro-Norte fluminense foi adquirida, em 1920, pelos Monnerat. Marcello Cardoso Monnerat, atual proprietário, é um advogado apaixonado por história. Segundo ele, existem “muitas histórias nas gavetas da São Clemente”. Vamos a uma delas baseada em um artigo de Álvaro Antônio Sagulo Borges de Aquino, coordenador executivo e de comunicação institucional do Projeto Fazenda São Clemente, em memória aos 150 anos de nascimento do médico Eduardo Chapot-Prévost.

Nascido em Cantagalo, em 25 de junho de 1864, Chapot-Prévost se graduou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, colando grau em 1885, defendendo a tese sobre “Formas Clínicas do Puerperismo Infeccioso e seu Tratamento”. Além da medicina, dedicou-se igualmente a carreira acadêmica. Em 30 de maio de 1900, Chapot-Prévost realizou uma cirurgia pela primeira vez na história da medicina para separação das meninas toracoxifópagas, Maria e Rosalina. Chapot-Prévost se tornou uma das mais ilustres e notórias personalidades da medicina brasileira.

Nascidas em 21 de abril de 1893, em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, as irmãs ao atingirem sete anos de idade foram levadas pelos pais para o Rio de Janeiro, para uma consulta médica, tendo sido encaminhados ao dr. Álvaro Ramos. Durante um ano, as meninas ficaram em observação. A primeira tentativa de operação das irmãs toracoxifópagas fracassou quando o médico constatou que não estavam ligadas apenas por músculos ou cartilagem.

Nessa ocasião, foi consultado o médico e professor Eduardo Chapot-Prévost que acabou assumindo as pacientes. Durante mais de um ano, as irmãs ficaram novamente em observação. Foram aplicados remédios em uma das irmãs a fim de verificar se a outra sentia os efeitos. Foi dessa forma que Chapot-Prévost concluiu que o órgão que as ligava era o fígado. Como não havia radiografia naquela época, foram necessários vários meses para descobrir se elas possuíam um único fígado ou não.

Chapot-Prévost esculpiu em gesso, no tamanho natural, o modelo das irmãs toracoxifópagas. O engenhoso médico desenhou uma mesa especial para a realização da cirurgia, dividida em duas partes. Dessa forma, imediatamente depois de separadas atenderia a uma delas, enquanto os médicos assistentes se dedicariam à outra. Após realizar os mais minuciosos estudos sobre a operabilidade desse caso de toracoxifopagia, esgotando os métodos de investigação e exame possíveis, Chapot-Prévost criou processos para as várias fases da inovadora cirurgia.

O procedimento cirúrgico foi realizado na Casa de Saúde de São Sebastião e a equipe foi composta por 13 médicos. A cirurgia ocorreu de forma satisfatória para gáudio de toda equipe. No entanto, Maria se recusava a se submeter a dieta que consistia tão somente na ingestão de caldos. A enfermeira, contrariando a orientação médica, lhe deu um prato com mingau de tapioca causando-lhe uma grave infecção intestinal.

Maria faleceu cinco dias após a cirurgia vitimada por um quadro infeccioso que a medicina da época não dispunha de meios para debelar. Porém, a sobrevivência de Rosalina foi suficiente para atestar o êxito da cirurgia. Eduardo Chapot-Prévost consagrou o Brasil com o caso das irmãs toracoxifópagas que serviu de tema a várias conferências médicas pelo mundo.

Chapot-Prévost era casado com Laura Caminhoá e da união nasceu um único filho, falecido em tenra idade. Rosalina passou a morar com o médico que se tornou seu padrinho. Ela foi tratada como filha pelo casal. Eduardo Chapot-Prévost faleceu precocemente em 19 de outubro de 1907, aos 43 anos de idade. Nessa ocasião, Rosalina tinha 14 anos. Ela se casou, teve seis filhos e viveu por mais de 80 anos.

Pela força do destino, muitos documentos sobre o talentoso Chapot-Prévost integram o valioso acervo da Fazenda São Clemente.

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    As irmãs toracoxifópagas, Maria e Rosalina operadas por Chapot-Prévost

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    Chapot-Prévost realiza uma cirurgia pela primeira vez na história da medicina, a separação das meninas toracoxifópagas

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    Eduardo Chapot-Prévost. nasceu em Cantagalo, em 25 de junho de 1864

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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