A suspensão de atividades acadêmicas é válida?

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A maioria das escolas nas décadas de 1960 e 1970 usava o expediente da suspensão de educandos das atividades acadêmicas como castigo. Também era comum que três suspensões durante o ano correspondesse à transferência compulsória, chamada na época de expulsão. Entendia-se naquelas épocas que suspender um aluno deveria ter uma relação com alguma falta considerava muito grave cometida na instituição. Não havia, portanto, nessas décadas de mais disciplina e menos diálogo uma banalização da suspensão.

Os julgamentos, segundo penso, devem ocorrer no sentido da história. Há 20 anos uma suspensão criava uma série de transtornos na vida do educando. Ficando em casa alguém estaria falando aos seus ouvidos das faltas cometidas e exigindo, pelo menos, uma presença em seu local doméstico de estudo. A matéria lecionada era mais difícil de ser conseguida. Nem tudo estava nos livros. Os professores cuidavam, às vezes, de não entregar para os suspensos, através de seus colegas, as apostilas distribuídas naqueles dias. O educando não tinha acréscimo de tempo ao seu lazer. Quando voltava à escola havia uma cultura da vergonha por parte de quem fora suspenso e a visão dos colegas era mais favorável à direção vindo a impedir um apoio ao faltoso. O mais grave de tudo era ser suspenso em época de prova porque representaria uma nota zero na avaliação.

Acontece que a vida mudou. Na verdade um aluno ou aluna com suspensão de suas atividades acadêmicas acaba recebendo o apoio de alguns colegas, quando não de quase todos, recebe os materiais em casa por fax, internet ou fotocopiados. Os pais, nas circunstâncias atuais pouco conseguem ficar em casa. O educando fica “solto”, quando não acaba indo para o clube, não conseguindo ser controlado nem por celular pelos inúmeros afazeres das famílias. Acaba nada perdendo. A cultura da vergonha desapareceu. Os que teriam vergonha de uma suspensão já se moderam de tal modo que raramente são inclusos nesse tipo de reprimenda. Os que “pintam” e “bordam” fazendo por merecê-la raramente sentem vergonha.

Com a nova visão de avaliação do rendimento escolar, mesmo que os registros em cartório assinalem nos regimentos que o suspenso perde o direito à prova, os próprios professores arranjam um jeito de contar os pontos, relevando a questão e não entrando em conflitos maiores. As escolas muito grandes não conseguem controlar quais professores não seguem essa determinação. Além disso, não vejo como defender que uma falta tenha duas penas: a suspensão e a perda do direito de ser avaliado.

Por tudo o que foi exposto parece-me que a “suspensão” está fora de época, não educa, apenas transfere o problema aguardando de modo behaviorista que a penalidade corrija o “infrator”. Isso, de fato, não acontece porque a correlação de forças é outra em nossa sociedade. Pergunta-se, ainda: o castigo é para o aluno ou para a sua família? Outra questão: não deveria, a escola, responsabilizar-se pela reeducação desse educando?

Mas, como costuma ocorrer, a pergunta clássica refere-se àqueles casos extremos, quando o aluno pratica atos incompatíveis com a conduta, ferindo o relacionamento, perturbando o bom andamento da escola e desrespeitando seus colegas e educadores. Nesses casos torna-se necessário que a escola use seus meios de educação, tais como: orientação educacional, psicólogo, entrevistas com setores encarregados da convivência escolar, chamada dos pais à escola para entrevista, usando os tempos destinados às aulas para que se proceda à reeducação. Mas, essa questão continuará a ser uma tarefa da escola e da família porque uma criança quando faz alguma pirraça, pode representar alguma coisa engraçada, mas quando começa a chutar pessoas na faixa em torno de quatro anos ou mais, a pergunta que também se faz é a seguinte: quem precisa de tratamento: a criança ou a família dela?  O mesmo ocorre em relação à sala de aula: quem precisa mudar, o aluno ou o professor? Há um texto de Berthold Brecht muito interessante e apropriado: “quando um rio transborda é chamado de violento, mas não se consideram violentas as margens que o comprimem”.

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