Sobre a dignidade do magistério - Parte 1

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Antes da década de 1970, quando o magistério era considerado profissão abnegada, carecendo muitos profissionais de registros, mas esbanjando, alguns, muita competência, a população escolarizada do país era muito reduzida e o Brasil não apresentava números percentuais junto às Nações Unidas para justificar empréstimos externos, dado o fato de investir pouco em educação. Nessa época, os professores eram respeitados, exigiam o respeito respaldados pelas instituições, embora o afastamento entre eles e os alunos fosse maior.

A competência era aliada à falta de diálogo, marca dos anos 70 como mudança e oposição à década de 1960. Foi a época marcada pelo filme “Ao mestre com carinho”, com Sidney Poitier. No filme estava retratado um tipo de mestre e de educador comprometido com a vivência dos alunos, interessado, de fato, em resgatar a cidadania perdida ante os conflitos sociais. A sindicalização era nula. Os debates sobre salários e mensalidades eram inexistentes, porém, percentualmente, ganhava-se mais e a lei da paridade, já com dez anos de existência, no Estado do Rio de Janeiro, comparava o professor a um coronel da Polícia Militar. Nas escolas das três armas, os docentes civis pautavam seu ganhos pelos capitães ou majores.

As escolas completavam seus quadros com profissionais aprovados pelos cursos de férias do Ministério da Educação, encarregados de capacitar uma pessoa com muita ciência e pouca didática, em tempo curto, para atender à demanda de bons profissionais. Era bem verdade a impossibilidade da permanência do quadro de repetências, de manutenção da baixa procura pelo magistério, mantido por muitos como uma complementação aos seus ganhos. Mas o respeito existia, a consideração como uma profissão de alto valor era um fato e as que concluíam o curso em escolas de formação de professores desfilavam pelas cidades como as promotoras dos seres humanos escondidos em trevas a serem dissipadas pela ação das educadoras nos cursos fundamentais.

Avançamos muito em relacionamento. Alunos e professores trocam, hoje, muito mais experiências. Mas se a década de 1970, por um lado, promoveu um aumento ou inchação da população escolarizada, em nome da democratização do ensino, por outro, desqualificou o magistério. Mais professores formados em curtas temporadas, para atender aos mercados nascentes, trocavam qualquer formação por salários incompatíveis com a dignidade da profissão. Surgiu, então, o subemprego numa carreira necessária ao desenvolvimento nacional. Os salários foram caindo gradativamente. A maioria das escolas, sob controle governamental, não podia expandir as taxas para oferecer melhores condições ao magistério. No setor público, os professores foram perdendo a patente de coronel, major ou capitão, caindo para a classificação de “cabos” e até hoje estão alojados nesta caserna de poucas esperanças.

Alguns municípios e poucos estados na nação brasileira investem em educação. Os profissionais passaram, então, a buscar novos setores da economia e o magistério ficou entregue a grupos de aventureiros, trabalhando na proporção dos ganhos reais e oferecendo muito pouco aos educandos, seja pelo nível básico cultural da origem dos mestres, seja pelas formações técnicas recebidas com muito acanhamento das faculdades e universidades.

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