Mudando paradigmas – A linearidade

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 02 de maio de 2018

Se alguns afirmam que o caminho mais curto entre dois pontos é a linha reta, afirmo que este melhor caminho é a estrada de rodagem. A trilha de montagem estabelecia um controle do tempo, acelerava a produção, poderia ser analisada para que fossem diminuídos ou aumentados os empregados ao longo dela. Cada pessoa, trabalhando, tinha noção de sua posição, nunca de sua dimensão. O conceito matemático de “ponto”, aquele que só tem posição, não tem dimensão, foi assimilado perfeitamente pela sociedade industrial. O operário, dentro de uma fábrica, tinha uma posição, sua dimensão humana não era considerada. Quando afirmamos que a sociedade das máquinas reflete o modelo matemático, é porque conceitos de uma teoria influenciam diretamente a prática de uma produção.

Ora, pontos que só têm posição são tratados de modo igual, até porque, não tendo dimensão, poderia ser injusto tratá-los de modo diferente. Daí a linearidade das tomadas de decisão. Tais fatos ocorrem nas indústrias, na administração pública e nas escolas. Senão, vejamos: quando os salários são definidos, ajusta-se um percentual igual para todos, como se todos fossem, apenas, um ponto. Todos de mesma posição devem receber os mesmos salários. Se o administrador está lidando com funcionários que receberam no passado, por alguma lei especial, alguma vantagem, um pequeno percentual leva o Estado à falência por causa dos salários mais altos e impede um aumento real e significativo para os de piso mínimo. Quando o administrador faz crescer o piso mínimo e estabelece tetos para os salários mais altos, os mais bem aquinhoados gritam e recorrem à justiça. Tais fatos são explicados pela linearidade do pensamento. Trata-se do salário como se fosse uma trilha, uma linha de montagem.

Em relação aos cortes, ocorre a mesma coisa; corta-se um benefício de todos e, em seguida, aparece a injustiça, porque determinados direitos são feridos e as reações são até violentas contra o administrador. Tudo ocorrendo por mentalidade linear, que considera o funcionário como um ponto com posição uniforme e sem dimensão pessoal.

Na questão escolar, a complexidade é ainda maior: uma funcionária grávida, numa escola, pode precisar de substituição por duas semanas enquanto faz repouso. Os alunos não podem ficar sem atividades e as administrações custam a compreender o porquê de tempos extras de trabalho para suprir tal falta. Isso acontece porque se pensa que a administração escolar é igual à de uma fábrica de papelão ou à ação de “catadores” de lixo numa usina de reciclagem. Nas usinas e fábricas, como a citada, a falta de uma pessoa pode ser suprida durante algum tempo pela ação dos demais. Se um catador de lixo fica doente por três dias, o lixo continua sendo recolhido. Se um professor adoece por três dias, deve ser substituído, ou os alunos ficarão ao deus-dará.

A linearidade, a segmentação, a homogeneidade, o reducionismo e a produção em série ajustam um paradigma tipicamente tecnicista, dentro do modelo matemático, capaz, portanto, de considerar a pessoa em suas divisões de corpo e alma, afeto e razão, além dos lados do cérebro. No fundo, não se considera o ser humano como uma pessoa, sobretudo dotada de criatividade e de intuição; considera-se tudo igual, dentro dos critérios de uniformidade, e a administração do pessoal obedece a uma rígida hierarquia verticalizada, o que cria, dentro das empresas, repartições públicas e escolas, um tectonismo, como bem explica J. G. Merquior em seu livro O argumento liberal (Nova Fronteira, 1983). Torna-se necessário considerar que as pessoas são diferentes, as empresas são diferentes e a convergência é mais importante que a linearidade.

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