A escola educadora – Parte 1

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Dentro da amplidão da legislação educacional brasileira podemos ter escolas de todos os tipos e que atendam aos mais variados perfis de educação. Porém, uma escola que verdadeiramente educa precisa ter algumas características que me parecem importantes diante deste mundo do século XXI.

Educar é também esclarecer, assim, uma escola educadora precisa ter muito claro em seu projeto político-pedagógico e seus registros qual a real pedagogia que imprime às suas ações. Não seria ético e, muito menos educador, apresentar uma coisa e fazer outra.

Desenvolver um marketing de escola piagetiana ou montessoriana quando, na verdade, trata-se de uma escola tradicional com práticas superadas, altamente burocratizadas e sem nexo com as necessidades do tempo.

Por mais que uma escola queira defender-se numa redoma, como se fosse um lugar “sagrado”, onde a entrada dependesse de alguns títulos, não há como ser educadora se não houver uma sintonia com as famílias e com a sociedade.

É evidente que isso não significa uma interferência dos considerados “externos” à escola em seu regime e suas propostas. No entanto, a exclusão daqueles que são intimamente ligados à escola através dos filhos e filhas significa, claramente, o enclausuramento que não confere segurança e modernidade à educação.

Hoje, nas discussões sobre o perfil da escola de qualidade, vemos defrontar-se duas lógicas bem abordadas pelo Doutor Carlos Vilar Estevão, da Universidade do Minho, em Portugal: a lógica empresarial que entende os pais como parceiros e a lógica mercantil que entende os pais como clientes.

Uma boa escola, parece-me, precisaria ultrapassar essas duas vertentes, embora a empresarial seja muito melhor que a mercantil. E, essa superação, na ótica do mesmo autor citado, poderia estar em outras duas lógicas: a lógica doméstica, onde os pais são coadjuvantes e a lógica cívica onde os pais são considerados cidadãos. Não entendo esses perfis de escola fechados e excludentes. A conjugação deles é perfeitamente viável, inclusive se considerarmos uma escola confessional como acréscimo a esses perfis. Uma escola confessional é mais facilmente ajustável ao civismo e parceria, podendo chegar aos aspectos empresariais. Mas, uma escola confessional mercantil seria uma aberração diante das propostas escritas que geralmente acompanham os folders distribuídos no ato das matrículas.

A boa escola, inclusive se a submetemos a critérios de escola de qualidade, sem as características da “qualidade total” que literalmente age moendo as pessoas, precisa desenvolver um trabalho parceiro, cívico, com clareza de ideias e propostas e aberta ao diálogo com esses cidadãos, pais e filhos em construção constante.

Outro aspecto que me parece importante em se tratando de escola educadora é a concepção que ela tem em relação ao conteúdo oculto que é passado aos alunos. Fixo-me, neste caso, à questão da educação em relação aos gêneros.

Uma escola pode, segundo a legislação brasileira, ser mista ou voltada para um único gênero. As escolas mercantis trabalham todos os gêneros para ter aumento de clientela atingível pelo seu sistema educativo. As confessionais, em sua maioria, aderiram à educação mista como forma mais abrangente de se educar uma pessoa vendo os valores do masculino e do feminino. Fica, então, a pergunta: seria uma escola exclusivamente para meninos ou meninas, uma escola que educa? Meu parecer é direto: não serve como educação. Pode servir para instrução ou manutenção de determinados ranks em concursos.

Uma visão que parte desde as Nações Unidas em 1960 e que considera crime a segregação de raça, sexo, credo e cor, acrescida das votações no Congresso Nacional Brasileiro em 1968, quando o país adere à proposta das Nações Unidas sobre este caso, seria o suficiente para orientar as decisões das escolas. Além disso, numa visão humana e cristã a desconsideração por um dos gêneros numa época em que a mulher, sobretudo, passa a ocupar um espaço que antes lhe era restrito, sonegar os valores da educação a elas me parece uma distorção dos valores do cristianismo o que não confere, a uma escola, o perfil de educadora.

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