Considerações sobre a violência – Parte 5

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

De onde se espera a paz, surge a guerra contra os que pensam diferente e acreditam de modo diferente dos outros. Lá pelo ano 2.500 a.C. na região do atual Iraque, surgiu um filósofo chamado Mani que disseminou uma doutrina com dois polos antagônicos: o bem e o mal; o certo e o errado, numa total dicotomia. O resultado era simples e objetivo: quem não está comigo, está contra mim.

Mani é oposto a Aristóteles que, em “Ética a Nicômaco”, defende que a virtude está no meio termo e acrescenta: “as virtudes não são paixões nem faculdades, só podem ser disposições”. Em Mani temos a origem dos radicalismos, pessoas que não conseguem ver virtudes nas outras, por serem diferentes.

Olhando a história humana conseguimos verificar que os fundamentalismos foram tomando conta das religiões, da economia, da política, da concepção das raças e etnias. Os fundamentalismos levam ao caminho tortuoso do ódio contra o outro. Somente nesta ótica podemos entender a violência praticada contra uma menina de 11 anos quando saia de um ritual de candomblé, no Rio de Janeiro.

E mais: não sendo suficiente a pedrada que levou na cabeça e os xingamentos que ouviu, teve que se submeter a outro vexame quando chegava ao IML para exame de corpo de delito, quando surgiram mais agressões verbais.

Vemos, então, que os problemas deixaram de ser jihadistas ou do boko-horan na Nigéria. Eles também são nossos porque estamos presenciando um florescer de perversidades, radicalismos, fundamentalismos e maniqueísmos.

Por incrível que pareça, um clima típico da Idade Média está retornando e tomando, aos poucos, contornos inquisitoriais e de intolerância. Estas atitudes são incompatíveis com a doutrina cristã e praticadas por pessoas que distorcem aquilo que lhes foi ensinado nos templos e igrejas.

O velho ditado diz que é de pequenino que se torce o pepino, o que significa que as autoridades precisam atuar com energia, o mais breve possível, para evitar o alastramento desses disparates que ferem a Constituição Federal, não são exemplos de virtude e, sim, de agressão descabida ao ser humano em seus direitos de expressão, convivência e crença.

Penso que a escola tem a sua culpa, em se tratando de macroestrutura, quando descura a questão da convivência escolar. Os valores da convivência não estão sendo tratados devidamente, a não ser quando se deseja punir, castigar e oprimir o educando através de uma disciplina distorcida da boa e necessária educação.

Às vezes também penso que a virtude não pode estar no meio termo, caso contrário os arco-íris teriam a cor cinza. Uma virtude no meio termo poderia ser mediana ou medíocre e, para solucionar certos problemas temos de ser freirianos, ir à raiz deles.

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Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

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