Considerações sobre a consciência dominadora

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 03 de janeiro de 2018

Quando uma pessoa manda outra fazer alguma coisa, verifica a execução exatamente como foi mandado e sente, em seguida, um certo prazer em ter mandado em alguém, é aí que mora o perigo. Foi detectada a primeira manifestação silenciosa da pior de todas as dominações, aquela rotulada pela felicidade do mando. Se numa escola existir alguém com esse tipo de doença, podemos verificar, pela simples existência de comportamentos de manifestação de obediência, a uma ou várias pessoas, sem a menor necessidade.

Quando os atos exigidos não são necessários ao andamento da escola, mas devem ser cumpridos à voz e comando de alguém, aí reside alguma consciência dominadora escondida em algum setor. Concluímos, portanto, ser a consciência dominadora uma manifestação neurótica e não uma necessidade de ordenação das atividades de uma unidade escolar. A unidade escolar depende de lideranças e de aceitação participada dos vários métodos a serem aplicados. Fugir ao convencionado em reuniões, depois de debatido e concluído um programa de ação, não é renegar a existência de uma consciência dominadora, mas é negar o processo participativo democrático, sadio pela força da participação de todos os envolvidos no processo. Nesse caso, teríamos uma reação típica às consciências dominadoras, costumeiramente bombardeadas pelas consciências anárquicas.

O dominador costuma ser manifesto, não esconde seus métodos. Mas pode ser identificado pelos comportamentos mais simples e o primeiro deles é o espírito de perseguição. O dominador persegue, está no calcanhar de seus não aliados, tem preferências, nutre antipatia pelos desafetos, impede intervenções em seu reino, transformado em feudo, com um exército próprio, formado pelos aliados incondicionais, quase todos do time da consciência ingênua. O dominador domina, sobretudo, as consciências ingênuas e persegue as pessoas de consciência crítica ou livre. O dominador não consegue conviver com ideias diferentes, deseja que todos pensem e atuem conforme seus desejos e até manias.

O dominador divide, não integra, porque, se integrar, deixará de ser dominador e ficará frustrado; consequentemente, deverá dividir, para poder imperar. Divide os grupos e se apoia no seu, para sustentar as atitudes de mandonismo. Ataca os outros e os persegue para comprimi-los até conseguir a demissão, por parte da instituição educativa ou pela atitude da própria pessoa, agora sentindo-se alijada dos contatos com uma direção de consciência dominadora. Todos os que possam questionar um dominador são inimigos. A consciência dominadora está sempre na defensiva e cria um ambiente de tensão e intranquilidade em seus colaboradores. São consciências adeptas do sistema de tensão-redução, esperando dos insubordinados a capitulação diante das pressões feitas.

A sobrevivência do dominador se dá enquanto existir um grupo incapaz, especialista em sobreviver, bajulando o seu senhor. Os bajuladores são pessoas de consciências escravizadas, sobrevivem nessa simbiose de bajulação e recebimento de graças especiais. Uma escola onde exista esse clima gerado por uma consciência dominadora terá problemas de entrosamento entre os profissionais, terá dificuldade de formar uma equipe de pessoas amigas capazes de viver em confiança e os alunos serão prejudicados pela situação de tensão constante a que os educadores são submetidos. O produto de uma escola, assim, poderá ser tão neurótico quanto a consciência de quem a coordena.

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