Hospitalidade nas brenhas do Morro Queimado

Gerson Acker

Gerson Acker

O jovem capixaba é o novo pastor da Igreja Luterana de Nova Friburgo - a mais antiga da América Latina - e, no 500º aniversário da reforma protestante, escreve sobre temas que envolvem história, religião e sociedade numa linguagem jovem e dinâmica.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Alertaram-me, antes de mudar-me para Nova Friburgo, que não estranhasse o fato das pessoas da cidade serem “fechadas” e “frias”. Confesso que me assustei um pouco, mas costumo não dar ouvidos ao que o senso comum diz. Rubem Alves dizia – e eu reitero – que a voz do povo não é a voz de Deus, uma vez que o povo costuma ser um tanto quanto rude e precipitado nas avaliações de outrem. Para minha alegria, contando raríssimas exceções, sinto um ar de hospitalidade nas brenhas do Morro Queimado.

A palavra “hospitalidade” teria aparecido pela primeira vez na Europa, provavelmente no início do século 13, calcada na palavra latina Hospitalis. Ela designava a hospedagem gratuita e atitude caridosa oferecida aos pobres, viajantes e estrangeiros. O termo grego traduzido em português por "hospitalidade" é philoxenia, uma combinação de duas palavras: philos, que significa "amar alguém como a um amigo ou irmão", e xenos, que significa estrangeiro ou imigrante. Embora geralmente traduzida por "hospitalidade", a philoxenia significa de forma mais apropriada "amar o outro como se fosse o seu próprio amigo ou irmão".

Precisamos admitir à luz do bicentenário de Nova Friburgo, que somos uma cidade que se teceu sobre a hospitalidade. Somos fruto de diferentes povos, diferentes culturas, diferentes costumes e diferentes religiosidades. Somos todos e todas de certa forma, no presente e no passado, estrangeiros e estrangeiras que aqui receberam acolhida, abrigo, alimento e perspectiva de uma vida melhor. Era justamente isso que previam as leis de hospitalidade do Antigo Israel, instruções estas asseveradas no Antigo e no Novo Testamento. Jesus Cristo, em diversos momentos de sua vida recomendou que fôssemos hospitaleiros para com os “mais pequeninos”, ou seja, pobres, indefesos, necessitados.

Não consigo crer na existência de um bem estar social coletivo que não passe pelo acolhimento altruísta. Nunca é tarde para resgatar o significado de “altruísmo”: ausência de egoísmo. Não foram imigrantes egoístas que ergueram essa pólis, ao contrário, foram pessoas acolhedoras que no trabalho coletivo, comunitário e altruísta entenderam que “ou todos sobrevivem ou todos morrem”. Esse senso de coletividade deveria ser trazido à memória constantemente. Estamos todos e todas interligados – o que não exclui as diferenças.

Diante da tecnologia desenfreada que isola as pessoas em bolhas digitais, corremos constantemente o risco do isolamento e da apatia. Além disso, o clima de polarização que vem crescendo em todos os âmbitos, sobretudo na política, e também a intolerância que como metástase tem se alastrado rapidamente pelas redes sociais, põe em estado de fragilidade o dom da hospitalidade. Menos debates vazios, menos discurso de ódio e mais sugestões propositivas e ações pró-ativas. Menos julgamentos, mais postura empática. Não podemos subestimar jamais que as palavras e ações a nível pessoal têm poder de influenciar o coletivo.

Esta situação me fez lembrar de uma fábula bastante conhecida da qual não recordo a autoria. A fábula é sobre dois viajantes e um velho sábio que recepciona visitantes no portal de uma pequena cidade, enquanto que seu discípulo observa a cena. Ambos os viajantes perguntam ao sábio: ‘como é a cidade?’ Para ambos os viajantes, o sábio pergunta: ‘como era a cidade de onde vieste?’ O primeiro viajante responde que a cidade da qual vem é horrível, sem oportunidades, onde as pessoas são rudes e por estes motivos está atrás de uma cidade diferente. O segundo viajante responde que a cidade da qual vem é maravilhosa, hospitaleira, com muitas oportunidades e que agora busca novas experiências e novos obstáculos a transpor. A resposta do sábio para os dois viajantes é a mesma: ‘Nossa cidade é exatamente igual a cidade de onde você vem!’.

O primeiro viajante decide seguir caminho, o segundo finca morada. O discípulo então questiona a postura do velho sábio – ele havia dado duas descrições completamente opostas para a mesmíssima cidade. O velho sábio conclui seu raciocínio: ‘Nossa cidade não é diferente de nenhuma outra cidade, todas as cidades têm pessoas rudes e pessoas amáveis, com oportunidades e desafios, o que determina se uma cidade é boa ou ruim é a forma como você enxerga ela. Você carrega sua cidade dentro de você!’.

Não desprezemos o poder da hospitalidade! Uma pessoa bem acolhida sempre volta e, quem sabe, até fica. Aos que ainda tem dúvidas sobre como ser mais hospitaleiro, inspiro-me no Cristo para aconselhar: Acolha o próximo, como você gostaria de ser acolhido. Um bom exercício para todo cidadão e cidadã friburguense para que sigamos sendo uma cidade que "ama o outro como se fosse o seu próprio amigo ou irmão".

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