O dom de sumir

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O chaveiro é para mim como a felicidade para a espécie humana: nunca está onde o procuro, e nunca o procuro onde ele está

Não sei se acontece com você também, mas, quanto a mim, já cheguei à conclusão de que o universo conspira para me fazer perder tempo e me deixar chateado. Ao universo não faltam preocupações com o brilho das estrelas e o alinhamento dos planetas, sem falar nos satélites que o homem manda para lá e nos ETs que de vez em quando vêm nos visitar, principalmente para atuar em filmes de Hollywood.  

Por que então o Universo perde seu tempo me provocando, não consigo entender, mas assim é. Todas as coisas de que eu preciso no dia a dia têm o dom de sumir, desaparecer de minhas vistas, mesmo que eu esteja de olho nelas. Por exemplo: deixo a caneta em cima da mesa, atendo o telefone e, quando me viro para apanhá-la de volta... Você está lá? Nem ela! Volto aos cômodos onde estive antes, abro gavetas, reviro bolsos, acuso todos da casa de mexerem nos meus pertences e nada! Finalmente minha mulher, temendo que eu tenha um enfarte por causa de uma esferográfica de 1,99 a dúzia, levanta-se e apanha a caneta, que estava, adivinhem onde? Isso mesmo: em cima da mesa.

Com relação aos óculos, o problema é especialmente grave. Sem eles, não posso achar nada e eles são especialistas em desaparecer. Como, pois, encontrar os óculos sem os óculos? Para amenizar o problema, tenho três pares, mas ocorre que às vezes eles combinam entre si e se escondem todos ao mesmo tempo. Já me ocorreu encontrá-los agarrados e caladinhos no bolso de um paletó que eu tinha usado no dia anterior.

O chaveiro é outro que é dado a essas brincadeiras. Abro a porta e o coloco sobre a mesa da sala, mas somente depois de muita busca é que o encontro na pia do banheiro. Não faço ideia do que ele faz para pular de um lugar para outro. O chaveiro é para mim como a felicidade para a espécie humana: nunca está onde o procuro, e nunca o procuro onde ele está.

Assino uma revista semanal, mas perco procurando por ela o tempo que teria para lê-la. Essa tem especial talento para meter-se embaixo da cama, atrás do sofá, no meio dos livros, quando não resolve ficar em alguma agência bancária ou no balcão dos Correios. Da última vez que ela sumiu, fui encontrá-la ao lado do vaso sanitário, onde ela estivera, fazendo sabe-se lá o quê!

Não chego a ser um caso antológico, igual a certas pessoas que colocam os óculos na testa e depois não conseguem achá-los. Ou as que amarram um pedaço de linha na aliança para não se esquecerem de ir ao médico e meia hora depois não sabem mais por que estão com aquela porcaria pendurada no dedo. Também nunca me esqueci de que sou casado, como fazem tantos maridos, principalmente se as esposas não estão por perto para lembrar-lhes que elas existem. Sempre achei que o único defeito do casamento é a exclusividade, mas o certo é que quem escolhe renuncia. Durante algum tempo argumentei com minha mulher que a poligamia masculina e a monogamia feminina eram a melhor forma de relacionamento amoroso, mas nunca consegui convencê-la. Para ser sincero, ela nem sequer acreditava que eu estava falando sério. Acabei me conformando, qual o jeito? Atualmente estou pensando em escrever para o Guiness Book e me candidatar ao título de recordista mundial de fidelidade conjugal.

Enfim, tirando o fato de que as coisas se escondem de mim quando preciso delas, sou uma pessoa razoavelmente normal. E mesmo isso de desaparecimentos misteriosos não tem nada de extraordinário. Essa semana mesmo deu na televisão a habitual notícia sobre a fuga de presos de um grande presídio brasileiro. Dada a facilidade com que um perigoso bandido havia se evadido, logo se pensou em corrupção da polícia ou dos funcionários. Questionado a respeito, um dos carcereiros assim se explicou:

- Sumiu. Não sei como! Tava aí na cela. Fui olhar e não vi mais. Sumiu. É incrível como esses caras desaparecem sem a gente notar!

Diante de fatos assim, como estranhar se também desaparecer esta minha caneta. Ué, onde está a caneta que eu acabei de deixar aqui?! 

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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