Confraternização de Natal

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Tem Jesus demais, queridinha.

Trata-se de uma reunião de pais e professores, mas não tem nem uma coisa nem outra. Presentes as professoras, a diretora e - mistérios da maternidade! - 56 mães, o que dá 1,8 mãe para cada criança da turma. A estas, somam-se uma avó e uma garota de 16 anos, ambas representando as verdadeiras progenitoras. A diretora abre a sessão, lembrando a pauta do dia: organizar a festa de encerramento do ano letivo.

- Nossa ideia é fazer uma encenação de Natal, com as próprias crianças formando o presépio.

Uma das mães levanta o dedo:

- Acho ótima ideia. E, só pra colaborar, veja bem, só pra colaborar, quero dizer que o meu Marquinho tem muita prática de Menino Jesus. No último Natal, lá em casa ...

A avó, sem ouvir o resto, resmunga para a vizinha:

- Aquele bitelão?  Onde já se viu um Menino Jesus barrigudinho? Já o meu neto ...só vendo... parece um anjo!

- Bom, vamos discutir primeiro a peça, depois a gente decide quem faz o quê – propõe a diretora.

Mas a mocinha de 16 anos já está lá na frente com uma sugestão:

- A Nádia, minha irmã, é que podia ser. Ela é tão miudinha, vai ficar um bebê perfeito. E, oh, se vocês quiserem, posso ser a Virgem Maria.

Do fundo do auditório, uma voz protesta:

- Só falta teu namorado querer ser São José pra vocês ficarem com a Sagrada Família inteira! Eu nem vou indicar o Juninho. Mas se vocês vissem ele imitando Silvio Santos! O Juninho vai ser artista, tenho certeza. Se for escolhido, vai fazer um Menino Jesus perfeitinho.

A diretora pede que antes ouçam a explicação da professora Lourdinha.

- Eu e minha colega Mirilda pensamos numa coisa bem simplesinha. Todas as crianças vão ter um papel. Pra ser Jesusinho a gente escolheu o Thiago...

Sua fala é interrompida pelo troar simultâneo de várias vozes:

- Qual Thiago???

- O Menezes. Ele é o menorzinho da turma e foi o único que conseguiu ficar quieto dentro da manjedoura.

- E o meu? Pergunta uma voz aflita.

- O da senhora é o Tiago Moura, não é? Olha, ele riu tanto durante o ensaio que jogou a palha toda pra fora. Melhor ele ficar com um papel mais dinâmico.

- Bicho é que ele não vai ser, tenha a santa paciência!

No meio do salão, um valor mais alto se alevanta:

- Thiaguinho Menezes é uma gracinha... adoro ele! ... Mas acho que ele fica melhor de Baltazar.

- Por quê? – pergunta um tanto irritada a professora Mirilda,que ainda não havia aberto a boca.

- Bom, não é ser racista não... mas... o menino é ... digamos... pretinho. Com todo respeito à mãe dele, que está ausente.

A senhora do lado discorda:

- E quem disse que Jesus tem que ser branco? Parece que a senhora nunca viu “O Auto da Compadecida”!

- Depois a gente decide isso - volta a propor a diretora – Vamos resolver primeiro como vai ser a festa. As senhoras já sabem, tem a questão das despesas...

- D. Mirilda, eu queria pedir que a Ana Luíza fosse o Menino Jesus, pra eu não gastar dinheiro com roupas. Jesus vem só de fraldinha, não é? É que a gente tá passando por uma situação difícil...

- Ana Luísa vai ser a vaquinha...

- Deus me livre! Se o pai dela souber disso, processa o colégio. A gente é pobre, mas exige respeito!

- Mas foi ela mesma que escolheu. Ela adorou ser a vaquinha.

Antes que o diálogo se concluísse, a mãe de Igor abre a boca e o coração:

- Eu confesso que chorei quando Igor disse que tinha escolhido ser o boi. “Mas o boi, meu filho? Não dava ao menos pra você ser um dos pastorzinhos?”

- Os pastores vão ser Juliana. Maurício e ... D. Lourdinha vai explicando, até ser interrompida por um vozerio generalizado:

- E Bruno, vai ser o quê? O capim que o camelo fica mastigando?

- Se Tetê não tiver um papel legal ela não vem!

- Ano passando meu filho só ficou lá em cima, olhando pra gente igual um bobo. Uma injustiça!

- Injustiça foi o Bebeto não falar os versinhos que eu fiz pra ele declamar: “É Natal! É Natal!/ Se prepara, animal!/ Jesus tá te esperando/ No Juízo Final!”

- Podia ter três Jesus: meu filho e mais dois. Qué que tem demais?

- Jesus. Tem Jesus demais, queridinha.

- Eu não vou pagar fotografia nenhuma! As do ano passado ficaram um horror!

- Por mim, Letícia nem vai mais ser o anjo. No ensaio a pestinha do Romário deu um chute nela!

- Quem foi aí que chamou meu Admário de pestinha? Pestinha é a mãe de quem falou!

- Ou Jesus ou nada, que eu também pago o colégio.

- Faz favor de não empurrar!

- Cadê a minha bolsa?

- Nunca vi um Natal tão bagunçado! Se eu estivesse tomando conta...

- Vai mais é tomar conta do teu marido, que não sai de um certo apartamento  no meu prédio...

A essas alturas, a diretora bota Simone cantando “Então é Natal” e convida as mães presentes para um lanche de confraternização.

- A encenação fica para o ano que vem. Este ano é melhor cada um fazer a festa em casa mesmo!

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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