Casamento à moda francesa

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 09 de maio de 2018

Mas também nisso o Brasil está muito à frente dos demais países

Você sabia que na França é permitido casar-se com uma pessoa morta? Já estou vendo o leitor e leitora se levantando da poltrona para pegar o passaporte e ir viver em Paris, com gorda pensão deixada pelo falecido. Não se precipitem. Para se casar com um defunto, é necessário ficar provado que o noivo e a noiva, ou a noiva e a noiva, ou o noivo e o noivo já estavam compromissado antes que um deles batesse as botas.  Nesse caso, a lei francesa permite o casamento, que, para todos os efeitos legais, é tão legítimo como se fosse, como se diz em Direito, inter vivos. A lamentar, tão somente, que um dos pombinhos não possa estar presente para assinar os papéis. Em compensação, não precisará fazer o tradicional juramento “até que a morte nos separe”, porque a morte já antes tomou essa providência.

Mas também nisso o Brasil está muito à frente dos demais países. Aqui o casamento com falecidos ainda não é legal, o que não impede que seja realizado. E mesmo coisa muito mais evoluída vem sendo feita há décadas no INSS, ou melhor: contra o INSS. Gente muito viva e com imaginação do outro mundo falsifica documentos, “casando” pessoas que já morreram. É fatal que, sem muita demora, uma dela faleça novamente, e a outra fique recebendo a pensão, com o inconveniente, para os cofres do governo, de se tratar de uma pensionista que talvez não morra nunca mais.

Também pode acontecer que o casal tenha um filho e se, providencialmente, ambos morrem de novo, o herdeiro, sendo ainda criança, tenha muito mais tempo para viver às custas dos trouxas que pagam impostos. Numa variante do mesmo enredo, esse filho pode ser doente, caso em que, tanto ele quanto seus genitores (já mortos, mas ainda vivos na papelada do Instituto), têm tríplice direito ao benefício.

Consta que o golpe agora descoberto, depois de anos de perfeito funcionamento, deu ao INSS um prejuízo de milhões de reais. O prejuízo é grande; maior, no entanto, é o bolso e o coração dos brasileiros que, diante de histórias como essa, até sentem orgulho de pertencer a um povo tão criativo.

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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