A vida não foi nada fácil

David Massena

David Massena

David estreou nas colunas sociais ainda na década de 70. É jornalista, cerimonialista, bacharel em Direito, escritor e roteirista. Já foi ator, bailarino, e tantas coisas mais, que se tornou um atento observador e, às vezes, crítico das coisas do mundo.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Papai Noel deve estar mesmo de saco cheio! No mal sentido. O ano se arrasta pesado por tantos desgostos. Foi o que acumulamos, ainda que tentemos buscar lá no fundo do nosso escapulário motivos para festejar.

Sou de um tempo em que não pedíamos presentes. Ganhávamos. E satisfeitos ou não, era a gratidão que deveria descortinar-se no olhar. Fosse o que desse. O exeqüível. Mas nos rendemos de tal forma ao consumismo que presente de Natal tornou-se desfrute, bem, propriedade.

O Bom Velhinho deve estar preocupado. Sua fábrica não produz mais nada de interessante, pelo menos que agrade ou se traduza em regozijo ao querer humano. Cobiçamos demais e passamos o ano discutindo gostos, vontades, criticando os outros, fazendo má-criação nas redes sociais, batendo boca por coisas tão pequenas, que se advir pelo bom comportamento, certamente, nem crianças pequenas e nem as grandes serão merecedoras sequer de uma mariola para adoçar a vida.

Estamos no sal. E Papai Noel não tem condições de arcar com os compromissos que antes eram tão leves. Suaves e elegantes desejos. Tempo em que o gesto de presentear era um embrulho bem feito e a cordialidade do afeto. Mas uma lembrancinha já não tem mais valor. Num mundo em que nos tornamos críticos e indesejáveis, não cabem mais palavras bonitas. As mãos já não escrevem cartões de Natal. Não há firmeza no traço, a linha se desalinha e nem os Correios possuem mais a heróica missão do mensageiro de boas novas.

Papai Noel anda inconformado. São milhares de velhinhos que, como ele, sonharam um dia o merecido descanso em vida. Tiraram-lhes o sonho. O desejo de à mesa celebrar o Deus justo, o nascimento do menino que nos doou sua vida em troca de nada. Mas a vida anda difícil por aqui. Fácil, só para os ladrões encarcerados que continuam degustando ceias regadas a camarões, lagostas,espumantes e falando em celulares pós pagos ilimitados, apesar de tudo. A pesar de todos.

O Estado não merece mesmo a visita do Papai Noel, o mundo também não. Festejar o que? Fazer da festa baile, exigir que tanta gente desempregada renove esperanças em meio a pisca-piscas multicoloridos, a laços de fitas metalizadas e brilhantes que serão desmontadas no dia 6 de janeiro? E então, a vida voltará a sua dura rotina do não horizonte, a espera de mais uma absurda predileção do juízo a uma rica mulher, que foi à casa ordenar aos criados que preparem um banquete para seus filhos, gozando de plena liberdade, e ensina hoje aos mais jovens que não basta ter, é preciso roubar do povo, nem se sabe para quê. Ah... ainda bem que não conheço nenhum Papai Noel que atenda pelo nome de Gilmar.

Mas são tantos a nos enfrentar. A obscurecer nossos dias. Faz tempo não me chega uma boa notícia. Digo boa para todos. Ando achando mesmo que ao invés de investir em hospitais e escolas, o governo deverá reformar presídios, classificando-os por estrelas. Há muita gente que ainda vai descer as anáguas e afivelar malas para se hospedar num deles.

É...Papai Noel está fora de moda. Em desuso, desmotivado, e só recebeu seu décimo terceiro de 2016 dias atrás. Também não sabe ao certo como ficará a sua aposentadoria. O que ele sabe e me passou por wattsapp, porque é de graça, é que está na hora de toda gente entender que Natal é para celebrar, não para festejar.

Por isso, se tiver que pedir presente, peça um coração bom. Peça motivos para reflexão, cultive bom senso, deixe a felicidade do outro por conta dele e corra atrás da sua. Ainda dá tempo! Não ande no mundo achando que você é o único. Olhe para os lados. Há mais gente do que você pensa. E quando um sentimento ruim lhe vier à garganta, reze. Eleve seu pensamento porque a vinda do menino Jesus foi para que pausássemos nossas vidas em busca da mudança para melhor. Natal é mudança! É vicissitude. Seja a metamorfose que o mundo espera de você! E deixe Papai Noel descansar esse ano. A vida não foi nada fácil. Feliz Natal!

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David estreou nas colunas sociais ainda na década de 70. É jornalista, cerimonialista, bacharel em Direito, escritor e roteirista. Já foi ator, bailarino, e tantas coisas mais, que se tornou um atento observador e, às vezes, crítico das coisas do mundo.

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